A Metamorfose: angústias mais de cem anos depois

Escrito em menos de um mês, em 1912, o livro A Metamorfose, do escritor tcheco Franz Kafka, foi responsável por imortalizá-lo na literatura mundial. Embora tenha outras obras tão grandiosas, como O Processo e O Castelo, Kafka é imediatamente associado à Metamorfose, tanto por especialistas quanto por leigos no assunto.
A história de um caixeiro-viajante que acorda no corpo de uma barata atingiu o status de cult não apenas pela originalidade da obra, mas por refletir problemas sociais que continuam a assolar a humanidade mais de um século depois.
Na obra, o personagem central, Gregor Samsa, é um esforçado trabalhador, responsável pelo sustento de sua família. Um dia, sem explicação alguma, acorda no corpo de um inseto monstruoso. O seu empenho em relação ao trabalho é tamanho, que mesmo estando no corpo de um inseto, sua primeira preocupação é não se atrasar para o trabalho. Porém, ao apresentar a sua atual condição, o seu chefe o despede e os seus familiares o rejeitam.

Dificuldades
Ao longo da história, Samsa narra as inúmeras dificuldades de se adaptar à nova forma de vida. O que chama a atenção, no entanto, é a quantidade de metáforas utilizadas por Kafka para assemelhar a vida do inseto com o cotidiano dos humanos.
Ao narrar a dificuldade que a barata enfrenta ao espernear, tentando voltar à posição que estava, o escritor faz um paralelo com as tentativas dos trabalhadores de enfrentar as imposições da sociedade. O livro – mesmo se passando apenas em um ambiente – ainda relata a influência de diversos meios no personagem, destacando forte carga emocional ao abordar a solidão, o pessimismo e a ausência.

Livro existencialista
É um livro extremamente existencialista, como os de Sartre ou de Camus, por aprofundar nos pensamentos e sentimentos mais densos do ser humano. O fim da obra, embora não seja considerada assim por unanimidade, é genial. Quando Samsa, metamorfoseado em uma barata, morre, a família tem visivelmente uma sensação de alívio.
Com isso, nota-se que ele só era considerado útil e querido enquanto servia de sustento dentro da casa. É uma referência – mais do que direta – ao capitalismo. Enquanto alguém é economicamente produtivo, ele é valorizado. Se por algum motivo o deixa de ser, todo o interesse que os outros têm por ele imediatamente passa.
O mesmo vale para o poder, principalmente político. O que resta depois, como mostra Kafka, geralmente é a solidão

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura.
Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais.
É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.