Adolescentes priorizam celular e diminuem diálogo cara a cara

A maioria das pessoas já se sentiu desconfortável em um ambiente que ninguém desgrudava do celular. Situações como essa tornam-se ainda mais comuns quando falamos da geração Z – indivíduos que nasceram entre 1992 e 2010, ou seja, após o surgimento da internet.
De acordo com uma pesquisa da instituição norte-americana Common Sense Media, a maioria dos adolescentes de hoje prefere interagir via mensagens de texto ao invés do bom e velho cara a cara.
O estudo contou com a participação de adolescentes entre 13 e 17 anos – estudantes da educação básica – e revelou que apenas 32% deles preferem conversar pessoalmente.
Em 2012, época do primeiro estudo, essa proporção era de 49%. E embora quase 70% dos adolescentes tenham reconhecido que não conseguem largar o celular durante uma reunião social, 44% deles disseram que se sentem incomodados quando outras pessoas fazem o mesmo.
Mesmo com esse resultado, voltar a viver uma época sem redes sociais é o desejo de mais de dois terços dos entrevistados. Na opinião deles, as mídias trazem malefícios para pessoas dessa idade.

Internet
Segundo a psicologia, o uso da internet facilita muito a vida de um indivíduo, mas traz consigo várias consequências, entre elas, problemas de ordem emocional, comportamental e psicossocial.
Com o uso exagerado da internet, os jovens deixam de experimentar uma vida real para mergulhar em uma ilusão.
Essa tendência é prejudicial porque pode provocar uma solidão coletiva, desconexão das relações interpessoais, supervalorização de relacionamentos superficiais e até uma desregulação emocional que pode desencadear alguma morbidade.

Identificando o vício
A pessoa com dependência tecnológica geralmente apresenta sinais que apontam para a existência do problema. Irritabilidade, ansiedade, isolamento e angústia por ficar desconectado ou distante do celular, computador ou videogame são alguns deles. Esses sinais, aliás, muito se aproximam dos já conhecidos em casos de dependentes químicos.
A psicóloga Sylvia van Enck, que trabalha no grupo de dependências tecnológicas do Ambulatório Integrado do Controle dos Impulsos (Pro-Amiti), ligado ao Instituto de Psiquiatria da USP no Hospital das Clínicas, diz que é possível encontrar correlação até em sintomas mais graves, como os de alucinação ou fantasia. “O dependente tecnológico pode sofrer com as ‘chamadas fantasmas’, que é quando ele sente ou ouve o celular tocar ou vibrar, mas nada realmente está acontecendo”, alerta.
A especialista aponta ainda a busca por uma maior quantidade de estímulo daquilo que lhe dá prazer. “Isso acontece na dependência química e tecnológica. Nesse caso, a pessoa fica mais tempo conectada, se envolvendo com mais grupos online, busca novos jogos. E isso vai alimentando a demanda dela por prazer”, diz.
Sylvia van Enck diz que jovens com menos de 21 anos merecem atenção maior, já que a região do cérebro associada à percepção de limites, chamada de córtex pré-frontal, ainda está em formação. “Motivado pelo prazer e pelo desafio, o jovem perde a noção de tempo e não consegue mais determinar o que seria uma quantidade de tempo adequado para se passar naquela atividade”, destaca.

Diagnóstico 

O diagnóstico adequado só pode ser feito clinicamente por um profissional da área de psicologia ou psiquiatria. Há, no entanto, métodos de avaliação baseados em questionários muito utilizados por pesquisadores que partem deles para medir o grau de dependência tecnológica de um grande número de pessoas.
O mais conhecido internacionalmente é o Spai (Smartphone Addiction Inventory), criado em 2014 por pesquisadores de psiquiatria de universidades de Taiwan e usado para medição do grau de dependência em relação a celulares. No Brasil, ele foi traduzido e adaptado pela UFMG em 2016.
O questionário conta com 26 itens, nos quais o entrevistado deve apontar o grau de discordância ou concordância que imagina ter em relação às afirmações. Entre elas, há coisas como “me sinto inquieto e irritado quando não tenho acesso ao smartphone”, “me sinto disposto a usar o smartphone mesmo quando me sinto cansado”, ou ainda “me sinto mais satisfeito utilizando o smartphone do que passando tempo com meus amigos”.
Em São Paulo, o ambulatório dedicado ao atendimento de dependentes tecnológicos do Hospital das Clínicas tem em seu site um questionário – elaborado pelos médicos do Instituto de Psiquiatria – para que o usuário possa medir seu grau de dependência da internet.