Antologia de contos brasileiros celebra universalidade de Stephen King

Stephen King (Foto: Stephanie Lawton/ Wikimedia Commons)

Goste-se ou não de Stephen King, não se pode negar que o homem seja uma máquina. A poucos meses de completar 73 anos, estima-se que o maior autor de horror da atualidade tenha escrito 61 romances — sete deles sob o pseudônimo de Richard Bachman —, além de cerca de 200 contos e cinco livros de não ficção, incluindo o consagrado Sobre a Escrita.
No Brasil, King é o herói de milhares de leitores e leitoras. Entra ano, sai ano, lá estão os títulos do “homem do Maine”, muito bem ranqueados na lista de mais vendidos. Grande parte desse estrondoso sucesso se deve às adaptações das narrativas literárias para o cinema e para as séries; a lista de filmes baseados ou inspirados no autor é quase tão longa quanto a lista dos livros por ele assinados. De acordo com o Guinness Book, trata-se do escritor vivo com o maior número de adaptações para as telonas. Não é de se estranhar que o apetite dos fãs tenha a mesma dimensão do fôlego de King para criar.
Diante desse cenário, é bem-vinda a Antologia Dark, publicada recentemente pela editora carioca DarkSide Books. Idealizada como uma homenagem ao autor, a obra reúne 14 contos de autoras e autores nacionais inspirados no impressionante legado de Stephen King. Em outras palavras, é uma oportunidade de o maior astro do horror lançar alguma luz sobre a nossa interessante e plural produção atual do gênero.

Talentos da literatura e do cinema
De acordo com o escritor Cesar Bravo, que organizou a antologia e assinou um dos contos, a ideia foi oferecer um panorama do que está sendo produzido e construído dentro do gênero horror no Brasil. “Procuramos mesclar autores pouco conhecidos com outros já consolidados, unir talentos da literatura e do cinema, agregar textos do mainstream com a voz arrebatadora da periferia”, conta Bravo.
Tendo isso em mente, o organizador e a editora convocaram Cláudia Lemes, Vitor Abdala, Ferréz, Carol Chiovatto, Everaldo Rodrigues, Marco de Castro, Ilana Casoy, Fernando Toste, Alexandre Callari, Antonio Tibau, André Pereira, Soraya Abuchaim e Andrea Killmore (personagem fictícia composta pela dupla Ilana Casoy e Raphael Montes). Cada autora e autor escolheu uma história de King para desenvolver seu conto.
E o conjunto de narrativas é, de fato, bastante variado.
Enquanto alguns textos da Antologia Dark se mantêm próximos do estilo e da ambiência de King — como é o caso de Creed, escrito por Cláudia Lemes a partir do romance O cemitério, ou de A porta não encontrada, elaborado por Everaldo Rodrigues com inspiração na série A Torre Negra —, outros se apropriam de obras do autor para contar histórias de traços essencialmente brasileiros.

De olho na nossa identidade

Quando reflete sobre os meandros do horror no Brasil, Bravo sabe do que fala. Considerado um dos principais nomes do gênero por aqui, publicou Ultra Carnem (2016) e VHS – Verdadeiras Histórias de Sangue (2019), ambos pela DarkSide, e acompanha bem de perto o cenário nacional — que considera muito rico, ainda que em processo de construção. “O nível dos autores está cada vez melhor, e o mesmo ocorre com o interesse das editoras. No momento delicado de isolamento que vivemos devido à Covid-19, muitos olhos se voltaram para dentro, para nossa identidade”.
De acordo com ele, algumas iniciativas têm contribuído para consolidar esse olhar. Prova disso é o Prêmio Machado, que distribuirá, aos trabalhos selecionados, um total de R$ 100 mil. Outro exemplo é a própria Antologia Dark, que já apresenta alguns frutos maduros de uma época na qual, segundo Bravo, várias sementes estão germinando. “Hoje, vejo algo muito diferente do que acontecia dez anos atrás. Que tipo de árvore essas sementes se tornarão, só o tempo dirá. Mas estou empolgado por ter a chance de acompanhar e colaborar de alguma forma para esse crescimento”, conclui o autor.