Brasil quer reduzir toneladas de açúcar em produtos até 2022

Alimento proporciona diversos malefícios à saúde, o que tem preocupado o governo e especialistas  

Meta é que 144 mil toneladas de açúcar sejam retiradas de bolos, mistura para bolos, lácteos, achocolatados, entre outros

Não é novidade que o açúcar é um dos primeiros produtos cortados em uma dieta para redução de peso. No entanto, os malefícios vão além dessa questão, já que o alimento também prejudica a resistência imunológica e acelera o envelhecimento.
O açúcar é um alimento chamado de “inflamatório”, pois aumenta o risco de desenvolver doenças, além de ser capaz de “quebrar” o colágeno, aumentando a flacidez da pele, por exemplo.
Recentemente, o Brasil estabeleceu um acordo com as indústrias para reduzir a quantidade de açúcar na composição dos produtos. A meta é que, até 2022, 144 mil toneladas de açúcar sejam retiradas de bolos, mistura para bolos, lácteos, achocolatados, bebidas açucaradas e biscoitos recheados.
Para especialistas, esse é um importante passo para que a população fique alerta quanto ao consumo de açúcar e a quantidade dele nos alimentos industrializados. “Quando a indústria e o governo sinalizam essa redução, estão chamando a atenção para o assunto. Para se ter uma ideia, duas colheres de achocolatado têm, em média, 15 gramas de açúcar na composição, é praticamente como colocar duas colheres de açúcar em um copo de leite e beber”, explica a nutricionista Letícia Matrak.
Dados apontam que os brasileiros consomem 80 gramas de açúcar por dia, o que equivale a 18 colheres de chá e representa 50% a mais da quantia recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Obesidade e diabetes
Desse total, mais da metade, 64%, é daquele que as pessoas acrescentam e o restante presente nos produtos industrializados. “Dois grandes problemas de saúde, a diabetes e a obesidade, têm atingido cada vez mais pessoas, inclusive é crescente esse acometimento em crianças”, relata a nutricionista. “Precisamos desmistificar que o açúcar acrescentado é importante na alimentação para atender as necessidades diárias do organismo. Para isso, os açúcares presentes nas frutas e os provenientes dos carboidratos como farinhas integrais e legumes são suficientes para a saúde do corpo”, destaca a nutricionista.

Monitoramento

Fazem parte do acordo a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA), a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (ABIR), a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães e Bolos Industrializados (ABIMAPI) e a Associação Brasileira de Laticínios (Viva Lácteos). A cada dois anos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fará o monitoramento, sendo a primeira análise no final de 2020.
Esse acordo segue os mesmos parâmetros da tratativa feita, em 2014, para a redução do sódio. Segundo dados, em quatro anos, foi possível retirar mais de 17 mil toneladas de sódio dos alimentos processados. Ao estabelecer a meta de redução do açúcar até 2022, o Brasil se sai na frente em relação a outros países do mundo.
Também foram definidas as metas de redução incluem biscoitos recheados (que devem reduzir 62,4% na quantidade de açúcar), produtos lácteos (53,9%), bolos (32,4%), misturas para bolos (46,1%), achocolatados (10,5%) e bebidas açucaradas (33,8%).

Confeiteiros reduzem o uso do açúcar em sobremesas  

Doces e sobremesas também terão reduzido uso do açúcar

Que Carême (o cozinheiro dos reis do século 18) e suas grandiosas esculturas de açúcar nos perdoem, mas o uso indiscriminado desse pó branco e doce anda fora de moda. Uma nova leva de confeiteiros torce o nariz para sobremesas açucaradas demais, ao mesmo tempo em que a indústria firmou um acordo com o Ministério da Saúde para reduzir o teor de açúcares em alimentos processados. É uma grande mudança para a doçaria brasileira, uma das mais doces do mundo, por tradição e herança portuguesa. Para conceber a Dona Doceira, especializada na doçaria tradicional brasileira, Adriana Lira revisitou o passado com um olhar mais moderno. “A ideia era transformar o caseiro em doce fino para festas”, afirma. Em vez de reproduzir fielmente as receitas dos cadernos de doceiras de Goiás – coisa que é feita de geração em geração, sem revisão – Adriana equilibrou ingredientes e lapidou modos de preparo.
Primeiro, diminuiu o açúcar nas compotas. “As frutas já têm frutose, um adoçante natural, então uso bem menos do refinado”, conta. A redução chega a 70% em alguns casos. “Doce de fruta tem que ter gosto da fruta. Uso o açúcar como tempero, com a mesma parcimônia com que usaria o sal”, indica. Adriana também substitui o leite condensado, que considera “doce demais”, por doce de leite caseiro, feito com apenas 100 gramas de açúcar dissolvidos em um litro de leite – para dar ponto, são necessárias quase duas horas e meia de cozimento em fogo baixíssimo.

Coadjuvante
Marilia Zylbersztajn, que fez fama por seus doces não tão doces, também trata o açúcar como coadjuvante, mas conta que enfrentou certa resistência na época em que abriu a confeitaria com seu nome. “Diziam que meu doce não teria público”, lembra. Mas quem não gosta de doce muito doce virou fã. E a confeiteira tem, hoje, dois endereços na capital.
Ela também investe em “sobremesas limpas”, sem muitos componentes. Ela gosta de usar chocolates com alto teor de cacau, especiarias e frutas ácidas. A calda de morango que cobre seu cheesecake, por exemplo, leva metade do açúcar que a maioria costuma usar. “Tem que ter gosto de fruta não de torrão de açúcar”, defende Marília.