Coincidências

Quem diria que depois de evitar os seus olhos por tanto tempo, iria ser pego por eles, desprevenida, na padaria, às sete da manhã?
Por mais clichê que isso soasse, nós dois sabíamos, na época, que não duraria. Era a pessoa certa no momento errado para ambos. Os antigos relacionamentos recém-terminados, a vida acadêmica agitada e o início de nossas carreiras com o pé direito.
Naquele momento, poucas coisas seriam tão desapropriadas para nós quanto o amor. Nossa primeira conversa poderia ter sido meramente casual, se não fosse pelas coincidências. Sempre as coincidências…
A mania de mexer no cabelo com a mão esquerda; o hábito de olhar para o céu com cara de bobo; o sorriso sem mostrar os dentes; as gírias antigas; os olhos fechados nos solos de guitarra; o George Harrison como beatle preferido; os cumprimentos para animais de rua e a preferência por Fanta Uva. Quem mais tem este como o seu refrigerante favorito?
Depois das coincidências, vieram as diferenças, tão atrativas quanto as semelhanças. Prefiro guitarra, e você baixo; prefiro Caetano, e você o Gil; prefiro Tolstói, e você Dostoievski. Até nossas diferenças nos mostraram iguais.
Na segunda noite em que nos encontramos, depois de algumas taças de vinho, conversa sobre cinema europeu e nossas típicas piadas sem graça, o primeiro beijo aconteceu. Não teria sido um problema, se não fosse pela madrugada que se seguiu. Na cama, revirava de um lado para o outro, à procura de um sono que não encontrava. No rosto, um sorriso bobo, e nos lábios, ainda o gosto dos seus. Claro que eu sabia o que aquilo significava. Claro que eu sabia que no outro canto da cidade você vivenciava, naquele momento, o mesmo.
Procurei o celular e digitei o que me convinha, e não o que realmente queria. Minha vontade era dizer que adorei a noite e que estava ansioso para vê-la novamente. Minha vontade era conversar o resto da madrugada sobre tudo, como sempre fizemos desde que trocamos nossos telefones, na primeira vez em que nos vimos.
Queria contar os meus medos, ouvir os seus, falar sobre a minha infância, lhe mostrar o meu cãozinho Chico, lhe chamar pra sair naquele momento, de mãos dadas, e mais tarde ver o sol nascer. Contudo, o que fiz foi dizer “precisamos conversar”. Menos de um minuto depois, a sua resposta “precisamos mesmo”. E no dia seguinte, falamos o que precisava ser dito, e não o que gostaríamos. As frases, que demonstravam que aquilo terminaria ali, pareciam se completar. Até nisso éramos parecidos.
Embora tenha sentido a sua falta quase todos os dias desde então, não me arrependi da minha escolha, e sei que também não se arrependeu da sua. Foi uma questão de prioridades. Segui a minha carreira e sei que se deu bem na sua também.
Naquelas noites frias, em que o vento faz um barulho que só me faz pensar em solidão, tudo que mais queria era a sua companhia. Poder me perder em seus olhos, tão cheios de vida; sentir seu cheiro e lhe fazer um cafuné enquanto rimos de qualquer coisa.
Após uma dessas noites, resolvi ir a uma padaria diferente. É engraçado como talvez essa coisa de destino, no fim das contas, seja real. Não ia aos shows que sabia que você estaria; não frequentava o café, nem mesmo a biblioteca municipal. Tudo que queria evitar, embora quisesse muito, era o seu olhar. Mas depois de tê-la encontrado novamente, percebi que agora você era a pessoa certa no momento certo. Olhamo-nos e sorrimos, e aquilo falou mais do que horas e horas de diálogos.

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura. Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais. É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.