Confira clássicos que poucas pessoas terminam a leitura

Cento e trinta milhões. É mais ou menos o número de obras literárias publicadas em toda a nossa história. Um dado desanimador para aqueles que têm planos de ler tudo na vida, pois seriam necessários 250 anos. E isso caso se tenha a capacidade sobre-humana de devorar cada livro num minuto.
Talvez por isso a maioria das pessoas acumula um monte de livros lidos pela metade em suas prateleiras. Em muitos casos, mesmo os clássicos não são terminados por muitas pessoas. Confira alguns deles:

1. Ada ou Ardor, de Vladimir Nabokov
Caso típico de uma obra de arte aplaudida pela crítica e incompreendida pelo público. O genial autor de São Petersburgo escrevia tão bem que redigiu seu romance mais famoso, Lolita, em inglês, que não era sua língua materna (embora a dominasse desde a infância, pelo empenho de sua família aristocrática e de seus professores).
O germe de Ada ou Ardor veio depois de ter se tornado mundialmente famoso com a história do professor viúvo obcecado por uma adolescente: logo depois de Lolita, se propôs a criar sua obra-prima (ainda não estava consciente de que já a tinha escrito), e Ada ou Ardor (1969) nasceu de dois projetos diferentes, duas crônicas de vida que acabaram sendo traçadas de tal maneira que ele decidiu que mereciam se tornar um único romance.
Talvez seja por isso que levou mais de nove anos para escrevê-lo. Nabokov sempre disse que queria ser lembrado por essa obra, embora sua narrativa arrevesada, cheia de acrobacias semânticas, alusões e duplos sentidos imperceptíveis para um leitor de inteligência mediana não tenha obtido o lugar universal que esperava.

2. O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar
O escritor argentino definiu sua obra-prima O Jogo da Amarelinha (1963) como “contrarromance”. Através da história de seu protagonista, Horacio Oliveira, traça, em mais de 156 capítulos, uma vida completa, mas com estruturas que fogem do convencionalismo para entrar no surrealista.
E não só no que conta, mas sobretudo em como o faz. Convida o leitor a compartilhar seu caos e lhe dá várias opções para ler o romance: existe a “normal”, do início ao fim. Também a “tradicional”, apenas até o capítulo 56, prescindindo do resto. Também a “anárquica”, ou seja, a ordem que o leitor quiser.
E, finalmente, a proposta por Cortázar, como um jogo, com uma sequência definida no “tabuleiro de direção” mostrado na primeira página, como uma espécie de Excel primordial. É uma grade na qual o leitor começa no capítulo 73, e daí vai saltando de um ao outro sem ordem aparente, para terminar no 131. Muitos são aqueles que dizem não ter passado da página tal ou da página qual. Mas essa confissão deve ser seguida da inevitável pergunta: em que ordem você o leu? É que O Jogo da Amarelinha é o único livro que, se for deixado pela metade, pode significar que você praticamente o terminou.

3. Em Busca do Tempo Perdido  e Marcel Proust
O escritor parisiense escreveu esta obra de mais de 3 mil páginas entre 1908 e 1922, bem no ano que morreu, possivelmente esgotado por tal odisseia.
Muitos recomendam ler antes a biografia de Proust, porque Em Busca do Tempo Perdido consiste, em última análise, de reflexões sobre sua vida.

4. 2666, de Roberto Bolaño
Muitos especialistas atribuem ao tamanho a dificuldade de acabar esse romance. Não é de surpreender, o genialmente obscuro autor chileno planejou que seriam cinco livros separados publicados depois de sua morte em 2003, como legado econômico aos seus descendentes.
Seus filhos, no entanto, deixaram de lado a intenção econômica e preferiram transformá-los em um único grande romance. O resultado são mais de mil páginas com a pena ágil e turva de Bolaño percorrendo o que acontece na cidade imaginária de Santa Teresa, espelho da violenta Ciudad Juárez do México.

5. Os Cantos, de Ezra Pound
É um poema longo, muito longo, ainda mais pelo tempo que levou para ser escrito, do que por sua extensão. Quase meio século, de 1915 a 1962, o poeta norte-americano Ezra Pound demorou para terminar seus 116 cantos.
São considerados pela crítica uma das obras mais importantes da poesia modernista do século XX, ao mesmo tempo, uma das mais complexas. Por suas quase mil páginas circulam muitas ideias atropeladas que pulam de uma para outra de forma abrupta, nas quais aparecem sua admiração por Confúcio, seu antissemitismo, sua afinidade com o regime de Mussolini, referências geográficas que cruzam Europa, Ásia, Estados Unidos e África, cambalhotas temporais e vários idiomas, incluindo caracteres chineses.

6. Cristo versus Arizona, de Camilo José Cela
O Prêmio Nobel Camilo José Cela quase não usa pontuação neste western experimental em primeira pessoa. Somos introduzidos no Oeste selvagem para realizar, de soslaio, o famoso duelo que enfrentou os Earp com os Clanton e os Frank, em outubro de 1881, no O.K. Corral. Tudo é desculpa para concatenar pequenos relatos sem rumo definido.

7. Finnegans Wake, de James Joyce
Quando o leitor se queixa do esforço necessário para ler Finnegans Wake (1939), tenha em mente o que custou ao autor escrever esse romance, durante quase duas décadas.
Nesta obra, Joyce usou uma linguagem inventada, misturando unidades léxicas do inglês com neologismos, e o encheu de trocadilhos que fazem com que seja realmente difícil compreendê-lo.
A estrutura ajuda pouco: não é linear, mas, como ele chamou, “esférica” onde tudo que é contado sobre a família Earwicker e seu ambiente é ao mesmo tempo o início e o fim da história.