Cultivar plantas em casa torna-se hobby para as novas gerações

No apartamento de Heleno, toda planta nova que chega passa por um ritual. O stylist de 38 anos tem o hábito de conversar com jiboias, antúrios, samambaias, chifres-de-veado e espadas-de-são-jorge mantidos à beira da janela da sala, na Bela Vista, centro de São Paulo. Por isso, as novatas são sempre apresentadas formalmente às colegas em seu primeiro dia. Heleno já possui 26 plantas — e o número só cresce.
O caçula é um filodendro cuja chegada foi imprevista. “Fui presentear um amigo, mas gostei tanto que comprei um para mim”, explica. “Brinco que tenho de entrar nas lojas de plantas com as mãos amarradas.” Seu xodó é um pau-brasil que media 20 centímetros 15 anos atrás, quando ele e os colegas ganharam mudas. Hoje, a árvore quase toca o teto da sala. Só a dele sobreviveu.
Heleno Manoel é vítima da febre verde que tem enchido de mato os apartamentos dosmillennials — conceito que abarca os nascidos entre a virada para os anos 1980 e o o fim dos 1990, em um mundo economicamente mais próspero que o das gerações anteriores e marcado por computadores e celulares.
De cinco anos para cá, a mania por plantas fez surgir cinturões verdes em meio às cidades. Para ter uma ideia, em um raio de apenas 1 quilômetro no centro de São Paulo, apareceram ao menos quatro lojas: Arranjo Tropical, JardimSP, Jardin e Selvvva. Esse tipo de negócio, que dá roupagem “cool” a uma atividade antiga, tem germinado nas metrópoles de vários países.

Como ocorre
O cultivo de espécies em apartamentos, atividade relativamente recente no mundo, tornou-se até matéria a ser ensinada em sala de aula. A Escola de Botânica, que fica anexa à Selvvva, já ofereceu cursos livres — cujos preços variam de R$ 180 a R$ 490 — a mais de mil pessoas desde que foi criada, em 2015. O curso de jardinagem dado pela Prefeitura de São Paulo, gratuito, tem uma fila de espera que pode demorar até dez meses.

Meio virtual
O impulso para esse fenômeno vem das redes sociais. Tomadas pelo verde, elas propagam a moda. O @urbanjungleblog, por exemplo, que reúne fotos de casas que mais parecem estufas de um jardim botânico, possui mais de 587 mil fãs. “Os millennials tendem a usar muito o Instagram e, por isso, são inspirados pelo que há de popular no momento, seja comida, roupa, seja planta”, explicam os poloneses Beata Malyska, 27, e Remek Zawadzki, 35, do perfil@warsawjungle, com mais de 19 mil seguidores, donos de 50 plantas em Varsóvia. “Sempre ficamos sabendo de pessoas que viram nossas fotos e começaram a comprar plantas.”
As contas mais populares são estrangeiras, mas nem sempre o que acontece lá fora pode ser copiado aqui. “Recebo e-mails de gente perguntando se consigo trazer uma planta que está no Instagram ou no Pinterest. Infelizmente, não. A gente tem um clima muito diferente, muitas não se adaptam”, conta Patrícia Belz, 33, que abriu a loja Borealis, em Curitiba, em 2015

Compra das plantinhas 

A tendência também despertou a atenção de grandes empresas. Em fevereiro, a gigante de vendas online Amazon inaugurou uma loja virtual de plantas. É possível comprar 20 suculentas por R$ 126 (R$ 6,30 por unidade), samambaias por R$ 87 e costelas-de-adão por R$ 85. Só vale, porém, para quem mora nos EUA. Não há entrega no Brasil, onde o envio de plantas vivas pelos Correios é proibido, a não ser em casos autorizados pelo Ibama ou Ministério da Agricultura.
No Ceagesp, por outro lado, 12 suculentas saem por R$ 25 (R$ 2 a unidade). Uma samambaia ou uma costela-de-adão de 50 centímetros podem ser compradas por R$ 15. Preços muito inferiores ao do cinturão verde no centro, onde suculentas custam de R$ 4 a R$ 15 a unidade, samambaias são vendidas a R$ 60 e uma costela-de-adão varia de
R$ 35 a R$ 160, dependendo do tamanho. Não à toa, a Feira de Flores do Ceagesp atrai até 8 mil pessoas nas madrugadas de terça e sexta. Cerca de mil toneladas de flores e plantas são comercializadas ali por semana.