E se o seu amor platônico não for platônico?

Considerado, entre outras coisas, o romance impossível de se concretizar, o amor platônico é aquele vivenciado por uma pessoa que sabe (ou ao menos acredita) que não é correspondida. O termo foi utilizado pela primeira vez no século XV, por Marsilio Ficino, filósofo, para definir um amor pelo caráter e intelecto da pessoa, e não pela sua beleza.
No entanto, em 1636 o termo voltou a ser utilizado, dessa vez com um significado mais próximo do atual. Em sua obra Amantes Platônicos, o poeta inglês William Davenant recorreu a ensinamentos do filósofo Platão para nomear como platônico tudo aquilo que seja perfeito, mas que não exista no mundo real.
E assim, com a disseminação dessa obra pelo mundo todo, o termo amor platônico acabou se tornando recorrente em diversas culturas. Em pouco tempo, os tipos de amores platônicos se tornaram muitos: existe quem se apaixona por um ídolo; quem se apaixona pela personagem de um filme ou série; quem se apaixona por alguém que só viu uma vez; e quem idealiza tanto uma pessoa, que acaba se apaixonando por uma versão dela que na verdade não existe.
Algumas vezes, no entanto, o amor platônico pode se tornar um álibi para não arriscar um amor que tem todas as chances de se tornar real. O medo – tanto de que o romance dê errado, quanto de que o romance dê certo – muitas vezes é paralisante, e encontra no conceito “amor platônico” uma saída fácil. Às vezes parece muito mais cômodo não arriscar e não mergulhar nesse sentimento intenso, que pode ser dono de muitas alegrias e/ou muitos transtornos.

Manual
Um temor parece ter tomado conta das pessoas, que mais do que nunca parecem evitar, a todo custo, se envolver com alguém. Criaram uma espécie de manual do amor – ou melhor, manual do desamor – para que encontrem todas as barreiras possíveis ao se relacionar.
Culpam os signos que não batem, a mínima diferença de idade, a classe social ou o até a divergência a respeito de qual foi a maior banda de rock de todos os tempos.
Passam dias lamentando a escolha inconsequente do coração, mas não ousam gastar essa mesma energia – desperdiçada com lamentos – para fazer o menor esforço para conquistar esse amor tido como platônico.
Vivemos épocas líquidas, como diz Bauman, e o reflexo disso muitas vezes é uma insegurança destruidora de possibilidades. Antes mesmo de saber se temos chances, as descartamos e colocamos barreiras, de preferência com alguma frase bastante clichê, como “é muita areia pro meu caminhãozinho”. Não, não é. Você é muito mais interessante do que imagina. Apenas confie um pouco mais… Talvez o seu amor platônico não seja platônico.

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura. Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais. É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.