Edição – 3309 Aulas de empreendedorismo chegam às escolas brasileiras

Iniciativas buscam incentivar os jovens a identificar problemas, usar a criatividade e até mesmo abrir o próprio negócio   

A pernambucana Laís Firmino, de 14 anos, percebeu há alguns meses que a mãe, costureira, não conseguia ganhar novos clientes. Para resolver o problema, ela pôs a mão na massa: com ajuda de quatro colegas de escola, criou o Seam, um aplicativo que une clientes e costureiras, tal como um Uber do conserto de roupas.
“Sempre quis empreender, mas não tinha ninguém para me ensinar”, conta a jovem, que só conseguiu começar seu negócio graças ao JA Startups, um curso de empreendedorismo digital oferecido em seu colégio.
Aulas sobre como montar uma startup ainda são algo incipiente no Brasil. Com cerca de 300 estudantes atendidos, o JA Startups é uma parceria da centenária ONG americana Junior Achievement Brasil, em parceria com a plataforma de empreendedorismo StartSe.
Não é o único, mas são poucos: programas de ONGs como Fundação Telefônica Vivo e Fundação Limiar, além de uma iniciativa do governo estadual de Minas Gerais, buscam colocar na cabeça dos jovens conceitos como investimento-anjo e produto mínimo viável.
“Há forte demanda em conhecimento sobre empreendedorismo no mercado de trabalho, mas pouca atenção para o tema em sala de aula”, diz a diretora da Junior Achievement Brasil, Bety Tichauer, ao Estado.
Sala de aula
Dentro da sala de aula, os programas têm moldes parecidos. Com duração média de dois meses, eles se dividem em três fases. A primeira é dedicada a desmistificar o empreendedorismo. “Empreender ainda é um tabu no Brasil e muitos alunos veem o tema com desconfiança”, diz Bety.
Depois disso, professores capacitados e especialistas ligados às ONGs começam a mergulhar no tema, dando aos jovens noções sobre assuntos como plano e modelo de negócios, impacto na sociedade e tipos de investimento.
Ao mesmo tempo, eles também orientam os alunos para olhar ao seu redor para identificar problemas e criar soluções para tais questões. Após um acordo entre o grupo de estudantes, a ideia pode ser desenvolvida até um projeto final, quando é apresentado para especialistas em um dia de demonstrações.

Atividades fora da sala
No caso de alguns programas, como no programa mineiro Meu Primeiro Negócio, o estudante também é ensinado a fechar a empresa. Quem quiser continuar com as atividades da startup fora da sala de aula, porém, também pode.
É o caso também do carioca Teylor Alencar, de 16 anos. Estudante da FAETEC Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, ele criou um aplicativo que serve como “Tinder de escolas”. Pais entram no sistema e inserem informações que julgam essenciais para uma escola, como valor da mensalidade e distância.
A partir daí, o aplicativo sincroniza com dados previamente cadastrados de colégios da região e, assim, oferece opções aos responsáveis. Apesar de ainda ser um protótipo, o aplicativo já tem investidores interessados – Dalmo de Souza, da startup de cerveja Bierteria, e Márcio Torres, da startup de educação OPA.
“Uma das principais causas da evasão escolar é a má escolha feita pelos pais”, diz o estudante. Além de querer mudar o comportamento dos pais, o rapaz vê na startup a chance de mudar seu futuro. “Quero me estabelecer no mercado carioca para depois seguir para outros Estados. Agora, a startup está entrelaçada aos meus objetivos e mudou o que eu tinha planejado”, conta.
Voltado para jovens da periferia, o Pense Grande, da Fundação Telefônica Vivo, já capacitou 60 mil jovens em cerca de 30 escolas parceiras. Além das aulas, o programa oferece a oportunidade de o aluno apresentar sua ideia à operadora e seus parceiros – entre as ideias que já saíram dele, está o Embarcar. Criado por alunos de uma escola técnica em Santarém, no Pará, ele serve como um guia das barcas que transitam pelos rios da região, com horários de partida, chegada e lotação.

Ajudando o país

Para especialistas, levar o empreendedorismo para dentro da sala de aula pode ajudar o ecossistema de startups brasileiros a se tornar mais diverso e acessível. “Hoje, é um mundo com ferramentas codificadas. Não há um nível pleno e horizontal pelo país”, defende Maximiliano Carlomagno, sócio-fundador da consultoria Innoscience.
Na visão de Felipe Alves, especialista em empreendedorismo social da ONG Artemísia, é preciso, porém, tomar cuidado com a forma com que projetos como esse são tocados. “Não adianta centrar esse tipo de ensino apenas na figura de um professor. É preciso trazer pessoas da área de startups para transmitir conhecimento e inspirar os jovens”, relata.
Já o presidente executivo da startup Geekie, um dos principais nomes do ecossistema de educação do país, acredita que exemplos como esse podem ajudar a indicar a educação do futuro. “Precisamos repensar a base curricular para que o aluno participe mais do processo. O empreendedorismo é uma ótima saída”, completa.

Caminhos para desenvolver o tema em sala de aula 

Diálogo: conhecer os alunos e seus desejos é o primeiro passo para estabelecer essa ponte com eles. Conversar sobre profissões, estabelecer roteiros e perfis destas profissões, é importante para ajudar na reflexão do futuro e fundamentar escolhas.

Teste vocacionais: Hoje existem muitos sites gratuitos que realizam testes vocacionais. Entre eles podemos citar o teste vocacional gratuito.
Referências: trazer pessoas de diferentes profissões e/ou incentivar a participação de feiras relacionadas ao tema são importantes para fomentar o diálogo, conhecer experiências reais sobre diferentes áreas e se aprofundar sobre a futura profissão. Se não for possível, vale pedir uma pesquisa ou trazer materiais (textos e vídeos, por exemplo) que explorem um pouco o dia a dia da profissão.
Mapas mentais: são uma espécie de diagramas que ajudam a pensar em resoluções de problemas, estimulam a criatividade e a inventividade. Eles podem ser criados para trabalhar com soluções e desafios empreendedores, como por exemplo, vamos criar um grêmio na escola? Quais caminhos de atuação? Quais funções? Quais melhorias para a comunidade escolar? Um exercício simples, que permite uma vivência de situações reais de uso.

Debate: que tal proporcionar com os alunos um júri simulado? A partir de um problema inicial, os alunos se dividem em grupos de defesa e acusação, em que cada um deve apresentar argumentos para sustentar seus pontos de vista da situação trabalhada.
Nesta atividade os alunos têm a oportunidade de aprofundar sobre um tema, construindo postura crítica, além, de desenvolver outras habilidades entre elas organização, argumentação, levantamento de hipóteses, exposição de ideias, colaboração e diálogo.

Crianças terão aulas de empreendedorismo nas escolas de Santo André

Número de empreendedores entre  18 e 24 anos cresce 58% em 5 anos 

Em cinco anos passou de 3,4 milhões para 5,2 milhões – aumento de 58% – o número de jovens empreendedores brasileiros, entre 18 e 24 anos, que buscavam informações para ter um negócio ou que já tinham uma empresa com até três anos e meio de mercado. O dado é um comparativo do relatório executivo Global Entrepreneurship (GEM) entre os anos de 2013 e 2018.
Ter a perspectiva de uma carreira profissional em empresa ou no serviço público parece que está deixando de ser o sonho dos jovens brasileiros. Eles estão querendo, cada vez mais, a independência se tornando empreendedores desde cedo. Essa é uma das principais descobertas da pesquisa GEM 2017, do Sebrae/IBQP, que revela o novo perfil do empreendedor no país.
Ela aponta que, no ano passado, a participação de pessoas entre 18 e 34 anos no total de empreendedores em fase inicial cresceu de 50% para 57%. Isso significa que são nada menos que 15,7 milhões de jovens atrás de informações para abrir um negócio ou com uma empresa em atividade no período de até 3 anos e meio. Outro dado interessante que a pesquisa mostra é que também aumentou o percentual de pessoas que buscam empreender por oportunidade, saltando de 57% para 59% dos entrevistados.

Emprego próprio
“O jovem brasileiro já entendeu que para ter trabalho a melhor alternativa é criar o próprio emprego, é empreender, inovar e gerar novas vagas. E eles não empreendem por necessidade, estão de olho nas oportunidades do mercado, estão atendendo demandas sociais e movimentando a economia. Aliás, este resultado é um reflexo também do início da recuperação da nossa economia”, destaca o presidente do Sebrae, Guilherme Afif Domingos.
Segundo o estudo, a taxa total de empreendedorismo (TTE) no Brasil foi de 36,4%. Em números absolutos o contingente de empreendedores no Brasil chega a quase 50 milhões de pessoas.

Infelicidade no trabalho
Aos 23 anos de idade, Analice Furtado era recepcionista de uma academia. Mas esse trabalho não a seduzia. Dessa forma, iria demorar muito para alcançar a independência financeira, se é que iria conseguir. Pois, não teve dúvidas: procurou o Sebrae para buscar informações e sugestões.
“Foi quando decidi abrir a empresa”, conta a jovem empresária, que hoje é dona de um salão de beleza junto com a sua mãe. Mas Analice não parou por aí e buscou se aprimorar. “Fiz vários cursos e depois resolvi fazer faculdade na área de estética”, acentua ela, que assim vai consolidando seu negócio.
Diferente do que parece ser uma regra no mundo das empresas familiares, nas quais os filhos assumem os negócios dos pais, Gustavo Chamma optou por empreender sozinho, desde os 17 anos de idade. E foi esse DNA empreendedor que o levou atualmente, aos 31 anos, a ser cofundador da Synco, uma startup de Internet das Coisas, ao lado do sócio André Gurgel.
“Já aos 8 anos, visitava as fábricas da família nos fins de semana e adorava ver a produção funcionar. Pra mim era diversão”, diz Chammas. A Synco tem 4 desenvolvedores e escritórios em São Paulo e Natal. “O Sebrae abre portas e avalia o seu negócio com profissionalismo, te ajuda levar a empresa para outro nível”, acentua ele, que segue alguns mantras: “barco sem leme não chega em lugar nenhum; trabalhe com pessoas que acreditam em você mais do que você mesmo; aprenda, aprenda e aprenda com os melhores do mercado”.

Atividade empreendedora

De cada 100 brasileiros e brasileiras adultos (18 – 64 anos), 36 deles estavam conduzindo alguma atividade empreendedora, quer seja na criação ou aperfeiçoamento de um novo negócio, ou na manutenção de um negócio já estabelecido.
Ou seja, um terço dos adultos brasileiros é empreendedor ou está envolvido na abertura do próprio negócio. Outras revelações apontam que jovens na faixa etária entre 25 e 34 anos foram mais ativos na criação de novos negócios.
Para se ter ideia de como esse dado é expressivo, isso significa que 30,5% dos brasileiros desta faixa etária estão tentando criar um negócio ou já detêm uma empresa com até 3 anos e meio de vida, período considerado estágio inicial do empreendimento ainda. Na faixa etária mais jovem, entre 18 e 24 anos, também é expressivo o percentual de brasileiros empreendedores (20,3%) envolvidos com a criação de novas empresas.

Mulheres têm se sobressaído no  empreendedorismo brasileiro  

Com 24 milhões de empreendedoras, as mulheres rivalizam com os homens no total e são maioria entre os jovens empreendedores
Segundo o analista de Gestão Estratégica do Sebrae, Marco Bede, em 2017, houve um pequeno crescimento no número de empreendedores por oportunidade relativamente aos empreendedores por necessidade. “Em 2016, para cada empreendedor inicial por necessidade, havia 1,4 empreendedores por oportunidade, em 2017 essa relação foi 1,5”.
Ou seja, 59,4% dos empreendedores iniciais empreenderam por oportunidade e 39,9% por necessidade, aponta o estudo. E é importante notar que o empreendedorismo por necessidade continua muito acima dos patamares registrados em 2014 (29%).
No grupo das brasileiras adultas, a Taxa de Empreendedores Iniciais (TEA) chega a 20,7%, enquanto no grupo dos brasileiros adultos, essa taxa é de 19,9%. Porém, quando se olha os números totais, que inclui os empreendedores iniciais e os empreendedores estabelecidos, as mulheres estão praticamente empatadas com os homens, com quase 24 milhões de empreendedoras, contra 25,4 milhões de homens empreendedores, segundo a definição de empreendedorismo o GEM.
E quando se trata de nível de escolaridade, o que chama a atenção é o fato de que entre os empreendedores iniciais, o grupo mais ativo, aquele com maior taxa de empreendedorismo (23,9%) é o que tem apenas o Ensino Fundamental completo, uma taxa que é 10 pontos percentuais acima da taxa verificada no grupo de pessoas com nível superior.
Um número que salta aos olhos também dá conta de que quase 8 milhões de empreendedores estabelecidos não completaram o Ensino Médio. “Como contraponto, porém, entre este mesmo grupo de empreendedores, 2 milhões têm Ensino Superior completo”, destaca Bede.

Enquete
Para saber o que a população pensa a respeito do ensino de empreendedorismo nas escolas, a Tribuna de Ituverava foi às ruas nesta semana. Confira:  

Ter a perspectiva de uma carreira profissional em empresas ou no serviço público parece deixar de ser o sonho dos
jovens brasileiros. Prova disso, é que houve um aumento de 58% no número de jovens empreendedores brasileiros entre 18 e 24 anos que buscava informações para ter seu negocio ou que já tinha uma empresa. Tendo em vista essa realidade, você acha que as escolas devem dar aulas de empreendedorismo para os jovens dentro da sala de aula?