Entenda como podem ser formadas as memórias falsas

Salvador Dalí, pintor surrealista do século 20, dizia ser dono de uma memória incomum. Ele teria lembranças detalhadas até mesmo da temporada que passou no útero de sua mãe – como se literalmente tivesse vindo ao mundo ontem.
Em sua autobiografia, A Vida Secreta de Salvador Dalí, o artista catalão chega a afirmar que memórias de uma vida entre chutes e contrações estariam ao alcance de qualquer pessoa. Bastava que fossem estimuladas por histórias (como as dele) para virem à tona.
Havia, no entanto, um porém: nada do que Dalí dizia se lembrar era real. E qualquer recordação que seus leitores porventura tivessem seria igualmente falsa. Isso ocorre por causa de uma característica única do cérebro humano: viver confundindo o que é memória com o que não passa de uma ilusão quase perfeita.
Seu cérebro acessa memórias o tempo todo. É assim que você aprende alguma coisa e depois não precisa voltar a estudá-la todos os dias – ou acorda sabendo o nome dos seus pais. A vida seria impossível se você não pudesse confiar na memória… E, ainda assim, ela não é das mais confiáveis.
Sabe quando você tem certeza de que visitou certo lugar até que, um belo dia, se dá conta de que jamais pôs os pés lá? Ou quando consegue contar, com detalhes dignos de testemunha ocular, uma história que sequer aconteceu com você? É sua mente tapeando você. Bem-vindo ao mundo das memórias falsas, onde seu intelecto é confiável só até a página dois.
O cérebro é capaz de gravar corretamente uma situação e armazená-la junto a memórias verdadeiras, sem que ela tenha ocorrido de fato. Pode ter sido contada por outra pessoa. Ou simplesmente imaginada.
É o caso de Dalí. Não há consenso entre os cientistas se é possível guardar qualquer coisa vivida antes dos 2,5 anos de idade. Alguns estudos vão além: afirmam que nenhuma memória sobrevive do zero aos 3 – e que as primeiras memórias permanentes só surgem aos 5 anos.

Cérebro infantil
Um cérebro infantil, que ainda não está desenvolvido por completo, é incapaz de carregar lembranças da primeira infância até a fase adulta. E é essencial que seja exatamente assim – não só nos primeiros anos, mas ao longo da vida toda.
Estar constantemente lembrando e esquecendo é a chave para entender por que somos tão inteligentes e criativos. Aprender algo pela primeira vez é criar uma nova ligação entre áreas que nunca foram conectadas antes.
E, para criar novas conexões, é preciso ter sempre espaço de sobra na memória. “Esquecer, e mais especificamente escolher o que será esquecido, também é importante para garantir que aquilo que precisa ficar cravado na memória de fato permaneça lá”, explica Giuliana Mazzoni, professora de Psicologia da Universidade de Hull, na Inglaterra, e uma das principais referências do estudo de memórias falsas no mundo.
“Imagine, por exemplo, que você tenha mudado de cidade 21 vezes ao longo da vida. Se todos os 21 números de telefone que você teve vierem à mente ao mesmo tempo sempre que alguém pedir seu contato, haverá um ruído muito grande, capaz de bloquear da memória o único número que realmente importa a quem pergunta – o atual”, diz.

Recorta e cola
Nossas memórias ficam guardadas em uma região do cérebro chamada hipocampo, e são nada além de relações de afinidade entre os neurônios. Quando você memoriza alguma coisa – como a data de aniversário de sua mãe, por exemplo –, o cérebro forma conexões entre as células cerebrais que respondem por aquela informação. Se é preciso lembrar novamente a data em questão, a mesma rede de neurônios é ativada e recupera a informação correta.
Para reviver uma memória, portanto, é como se o cérebro tivesse que percorrer um caminho pré-determinado, reconectando a rede. Aí mora um problema: e se uma memória sem importância precisa ser resgatada com urgência e detalhes, anos depois de ser formada?
Para dar sentido à história, seu cérebro recorre à imaginação, preenchendo os buracos em modo automático. Como não poderia deixar de ser, ele faz esse trabalho da forma mais criativa possível, usando o que tiver à disposição.

Memória 

Nossa memória não se comporta como a de uma câmera digital, em que tudo, uma vez gravado, fica facilmente acessível quando se bem entender. Ela está mais para uma página de Wikipédia, que pode ser editada livremente. E o principal: ela é colaborativa. Você não é o único editor – sua memória enciclopédica também pode ser editada pelos outros.
A analogia acima é de Elizabeth Loftus, psicóloga americana que conduziu o primeiro teste de destaque envolvendo a implantação de memórias falsas em 1995. A ideia de Loftus era descobrir, nos experimentos, se era possível convencer alguém de algo que nunca viveu só na base da lábia. Algo no estilo do filme A Origem, só que com ela mesma assumindo o lugar de Leonardo DiCaprio.