Entenda o que é o Paradoxo do Bootstrap, da série Dark

A terceira temporada de Dark estreou na madrugada do último sábado, dia 27, colocando fim à trilogia da produção alemã que, nos últimos três anos, ganhou bastante popularidade entre o público e a crítica e chegou a ser eleita a melhor série original da Netflix em votação popular do site Rotten Tomatoes.
Um dos motivos que fez Dark se destacar foi seu roteiro extremamente complexo que envolve muita viagem no tempo, plot twists e até conceitos de física quântica que certamente confundem a cabeça até dos mais atentos.
Um desses conceitos científicos, que chega até a ser citado e explicado por personagens da série, é o do “Paradoxo do Bootstrap”. Bootstrap aqui se refere à expressão “pulling yourself up by your bootstraps“, algo como “puxar-se a si mesmo pelas alças de suas botas” – algo fisicamente impossível. A frase se refere à lógica geral por trás do paradoxo da série: algo que influencia e dá origem a si mesmo.

A problemática
Quem escreveu as instruções originalmente? O seu eu mais novo só descobre como viajar no tempo porque o seu eu mais velho entregou a carta para ele, e o seu eu mais velho só tem a carta porque, um dia, ele também recebeu de uma versão sua do futuro.
A carta até existe espacialmente, mas o conteúdo dela, as instruções para construir a máquina do tempo, jamais foi criado. Veio do nada.
A lógica (ou a falta dela) se aplica a qualquer informação. Você viaja no tempo para o passado e encontra um Darwin jovem (geralmente usa-se Einstein para exemplificar, mas esse texto já tem física suficiente). Ele ainda não formulou sua famosa teoria da evolução, mas você conta para ele o que aprendeu na escola.
O jovem Darwin fica impressionado e começa a estudar o tema, e anos mais tarde publica suas descobertas – que, no futuro, você aprende. Mas afinal, quem formulou a teoria, então? Você só sabe dela porque leu os escritos de Darwin, e Darwin só escreveu porque você contou tudo para ele. A teoria existe sem nunca ter sido criada por ninguém.
O Paradoxo do Bootstrap é tão difícil de entrar em nossa mente porque altera nosso entendimento fundamental sobre o tempo. Na vida real, tudo é sempre linear: um evento A gera um evento B, que por sua vez gera um C e assim por diante.
Quando a viagem no tempo para o passado entra em cena, um evento A causa o B, que por sua vez causa o A novamente, formando um ciclo sem fim e sem começo estabelecido.

A série o paradoxico
Um conceito tão fascinante é prato cheio para obras de ficção, e Dark usa e abusa do paradoxo em sua trama. Vamos começar com um exemplo levinho: o livro Uma jornada através do tempo, do personagem H.G. Tannhaus. O relojoeiro obcecado pelo tempo reúne suas teorias em uma publicação que aparece constantemente na série e é central para estabelecer a física por trás dos eventos.
Acontece que, na segunda temporada, vemos que um jovem Tannhaus recebe uma cópia do livro das mãos de Claudia – antes de tê-lo escrito. Ele decide, então, publicar 500 cópias da obra em seu nome. Uma delas vai parar na mão da personagem Claudia décadas depois, que viaja no tempo e reinicia o ciclo. O livro nunca foi de fato escrito por ninguém, mas existe.
Outro exemplo parecido é a carta de suicídio de Michael. Também na segunda temporada vemos que Jonas volta no tempo para tentar impedir que seu pai se suicide. Ele mostra a carta de suicídio que seria escrita por Michael para ele, antes de ele escrever. No dia seguinte, Michael apenas copia as palavras em uma nova folha e se mata – o conteúdo da carta nunca foi originalmente escrito por alguém.
Até aí está relativamente fácil de se entender, certo? Mas os criadores de Dark elevaram o paradoxo para outro nível de complexidade, agora envolvendo pessoas. Na série, vemos que a personagem Charlotte não sabe quem são seus pais: ela foi criada por seu avô adotivo. Charlotte cresce e têm duas filhas, Elisabeth e Franziska.
Elisabeth cresce, e, em algum momento do futuro, tem uma filha chamada Charlotte. De alguma forma, Charlotte bebê é levada para o passado, onde é adotada. Ela cresce e tem suas filhas, entre elas a Elisabeth.
Ou seja, a mãe é filha da própria filha, que é mãe da própria mãe. E vice-versa. A viagem no tempo cria um ciclo em que uma gera a outra indefinidamente, e não sabemos quem veio primeiro. É bizarro, e, não à toa é um dos maiores plot twists da segunda temporada. É confuso, mas paradoxos são, por definição, algo que quebra a lógica. Se um paradoxo existe, é porque alguma coisa nas premissas iniciais está fundamentalmente errada.

Paradoxo

O paradoxo do Bootstrap basicamente diz que, em um cenário em que a viagem no tempo para o passado seja algo possível, um objeto pode existir sem nunca ter sido criado. Ficou confuso? É normal. Por isso mesmo o conceito é melhor exemplificado a partir de uma historinha.
Você recebe uma carta anônima contendo instruções para construir uma máquina do tempo – e seja lá por qual razão decide acreditar. Como a empreitada para desafiar as leis da física não é algo simples, você passa os próximos dez anos de sua vida trabalhando na construção da máquina. Quando finalmente termina e liga o aparelho, acaba viajando no tempo – para dez anos antes.
Então você manda uma carta para si mesmo com as instruções de como construir uma máquina do tempo. E entende: quem lhe enviou a carta, dez anos antes, foi você mesmo, 10 anos mais velho e já tendo viajado no tempo. Ao enviar novamente as instruções para o seu “eu” mais jovem, você criou um ciclo.