Eu deveria comprar menos livros

Às vezes eu acho que deveria comprar menos livros. Ainda tenho um monte pra ler e mesmo assim compro outros. Sim, você tem razão. É meio com um vício, né? Como esse cigarro que você leva à boca agora, enquanto fala comigo. Ainda é de manhã e esse é o quê? O quinto cigarro do dia? Mas tem razão, não vou implicar com você agora. Estou é fugindo do assunto, que é minha compulsão por livros.
Não, eu não me sinto bem por ter livros na estante que ainda não li. Na verdade, acho que soa até como uma farsa, entende? Como se eu estivesse exibindo algo que ainda não conheço. Como acontece com as pessoas, de certa forma. Há pessoas que permanecem juntas por anos, mas que desconhecem o essencial em relação à outra.
Não falo de coisas óbvias (e não tão essenciais) como nomes, vida acadêmica ou carreira. Falo dos sonhos, dos medos e das manias. Falo sobre a fruta favorita, a canção que odeia e outros pequenos detalhes.
Sim, você já me disse que eu supervalorizo os detalhes. Mas discordo totalmente. Os detalhes é que são essenciais. Eles são o implícito, o subtexto, o real… O óbvio não é assim, tão interessante. O próprio nome diz: é óbvio! Está ali pra qualquer um ver…
Quem entende suas palavras pode até estar interessado em quem você é, mas quem entende seus silêncios já sabe quem você é e, mesmo assim, não quis fugir.
Claro que as pessoas podem querer fugir! Não é exagero algum. Lembra, por exemplo, de quando você me contou que acreditava que a vida não passava de um longo e intenso vazio? Não acha que muita gente fugiria desse seu pessimismo? Bem, eu não fugi porque já conhecia Schopenhauer, então já tinha lidado com ideias assim antes. E, agora pensando bem, talvez eu me identifique com sua forma de pensar…
Mas o que quero dizer é que é tão estranho conviver com alguém que não se conhece quanto escrever sobre um livro que nunca se leu. Você pode até pesquisar a respeito e obter informações superficiais, mas isso, nem de longe, se compara aos detalhes. Entende agora o motivo de eles serem tão importantes?
É, eu sei, eu estou divagando e fugindo do assunto mais uma vez. Eu deveria parar com isso, né? Não de comprar livros, mas de divagar. Talvez se eu fizesse menos isso, teria mais tempo pra ler os livros…

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura. Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais. É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.