Falso reconforto

  • Animado para começarmos a maratona dos filmes do Tarantino? Um por dia, na ordem de lançamento, como fazemos todos os anos?
  • Claro que estou!
  • E dessa vez vai ver Bastardos Inglórios comigo ou vai ser o único da lista que vou assistir sozinha como em todas as vezes anteriores?
  • Amor…desculpa, mas você sabe muito bem que não posso assistir esse filme. Não seria justo!
  • Com quem?
  • Comigo, eu acho. E com a memória da Júlia também… Você sabe, ela morreu em um acidente quando estava indo ao cinema para se encontrar comigo e assistirmos esse filme. Desde então, nunca tive coragem de assisti-lo. Eu te amo, você sabe, mas isso vai muito além dessa questão…
  • Eu não sei, Renato. Às vezes parece que você carrega um monte de fantasmas do seu antigo relacionamento. Eu imagino o quanto deve ter sido doloroso para você perder a Júlia desse jeito. Sei do quanto você ficou arrasado e do tempo que levou para conseguir seguir em frente. Mas, embora eu entenda tudo isso, me parece que você não consegue continuar completamente a sua vida…
  • Se você tivesse passado por algo parecido, me entenderia. Mas, de qualquer forma, que diferença isso faz? É só um filme! Vejo todos os outros com você. Mas esse não dá.
  • Esse é seu problema, sabia?
  • Qual?
  • “É só um filme”. Você sempre enxerga tudo de uma forma tão simplista, não é? Para você nunca há detalhes, conceitos subentendidos, sentimentos não expressados… Para você, as coisas são ou não são. Mas é tudo muito mais complexo que isso…
  • E talvez seja por isso que você faz essa maratona todo ano, não é?
  • Como assim?
  • Não são só filmes…Você faz isso para me provocar. Para me fazer lembrar da Júlia e, lá no fundo, tentar mais uma vez me convencer a ver Bastardos Inglórios. Porque, como você mesma disse, não se trata apenas de um filme. Se eu assistir esse filme, você sentiria que ganhou, não é verdade? Que amo você mais do que já amei a Júlia.
  • Claro que não! Isso significaria que você finalmente me incluiu em sua vida. Sem traumas, sem fantasmas, sem pesos…Não quero competir com a Júlia, mas queria saber como seria estar com você sem, ao menos uma vez por dia, ter que lidar com aquele seu olhar vago.
  • Esse olhar vago não é por conta da Júlia…
  • Ah não? É por quê, então?
  • Acho que essa maratona anual de filmes do Tarantino define bem o que é esse meu olhar vago.
  • Não tenho a menor ideia do que você quer dizer com isso.
  • Por que você insiste com essa maratona? Vamos deixar de lado toda essa questão da Júlia, ok? Você se lembra da primeira vez que vimos esses filmes juntos?
  • Claro que sim! Estávamos saindo há alguns meses, você foi para a minha casa, propus de assistirmos Pulp Fiction, você aceitou. Após o filme, tomamos uma garrafa de vinho e você se abriu como nunca para mim. Me contou seus sonhos, seus medos, seus traumas…A partir daí, vimos um filme do Tarantino por dia – com exceção de Bastardos Inglórios – e sempre depois dos filmes tínhamos conversas profundas e sinceras. Naqueles dias conhecemos mais um sobre o outro do que os meses anteriores. Naqueles dias, nos apegamos e…
  • E então você ficou presa no passado, não é? O tempo foi passando, nossa relação foi amadurecendo, mas para você, nada nunca fui tão bom quanto aqueles dias. Estou errado?
  • Claro que está! Aqueles dias representam um marco para tudo que construímos. Mas não quer dizer que as coisas não foram tão boas depois disso…
  • Seja sincera, Júlia. Nós não somos mais quem éramos. Nossa relação esfriou. E você quer que as coisas sejam consertadas com filmes do Tarantino e um pouco de…
  • Espera! Você me chamou de Júlia?
  • Claro que não, Brenda! Você precisa deixar de lado essa fixação e entender que as coisas mudaram entre nós. Talvez devêssemos tentar a terapia ou…
  • É, você tem razão…Talvez eu faça essa maratona todos os anos justamente para trazer de volta quem éramos na primeira vez que isso aconteceu. Alguém precisa tentar, não é? Estou cansada de te ver no sofá com esse olhar de quem está infeliz, mas não tem o menor interesse em fazer algo a respeito para mudar a situação…
  • Talvez porque eu saiba que não há o que ser feito…
  • Ou talvez porque você acredite que cada pessoa só tem uma chance verdadeira de ser feliz. A sua foi desperdiçada e agora, para “equilibrar” o universo, você quer que eu desperdice a minha.
  • Eu não acredito no que você está dizendo…
  • E eu não acredito que, por mais um ano, estou aqui apegada à ideia boba de consertar nossa relação com uma maratona de filmes. Acho que algumas coisas simplesmente não foram feitas para durar…
  • Esquece essa maratona. Não precisamos disso para ter um recomeço!
  • Há fantasmas demais nessa história. Você aguarda o retorno da Júlia e eu daquela sua versão sincera e profunda que nunca mais apareceu. Acho melhor pararmos de esperar. Ninguém reaparecerá.
  • Consertar as coisas não vai ser nada fácil…
  • Não faremos isso. Somos covardes demais para tentar…
  • E o que faremos então?
  • O mesmo de sempre: fingir que está tudo bem.
  • Tem razão…
  • Animado para começarmos a maratona dos filmes do Tarantino? Um por dia, na ordem de lançamento, como fazemos todos os anos?
  • Claro que estou!

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura.
Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais.
É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”