Garotas gamers falam sobre a presença feminina nos e-sports

Mulheres são 53% dos gamers no Brasil, segundo a Pesquisa Games Brasil 2019. Elas dedicam mais horas a jogos eletrônicos no celular ou tablet do que os homens. No entanto, quando o assunto é jogar profissionalmente – participando de campeonatos e ganhando dinheiro para isso – ainda há muito o que avançar. Na Game XP 2019, o maior evento de games da América Latina, que terminou no último domingo, 28 de julho, no Rio de Janeiro, foram realizados torneios dedicados exclusivamente para times formados só por mulheres. Mas equipes femininas também enfrentam grupos masculinos em outros campeonatos que ocorreram no evento.
O Black Dragons, formado por cinco jogadoras, foi o único time 100% feminino no CBCS deste ano. Duas integrantes – Amanda Gomez (Dinha), de 22 anos, e Ana Gabriela Bochi (AnaBala), de 21 anos – falaram como é ser mulher no mundo dos e-sports em uma entrevista publicada pela Revista Galileu. Confira os principais trehos:

Como foi competir no maior evento de games da América Latina?
Dinha: Nosso time é novo. Montamos a equipe para participar do campeonato e estamos jogando contra times muito bons e muito fortes no cenário masculino. A gente jogou dando nosso melhor. Jogamos alegres, todo mundo vibrando a cada coisa nova que fazíamos. Só aproveitando o momento.
AnaBala: É a primeira vez que jogo num campeonato assim. Eu estava ansiosa para ver como era, acho que aos poucos vou acostumando. Tivemos só dois dias de treino, e não deu tempo de fazer nada. Jogamos e tentamos curtir o campeonato. Mas nas próximas vamos estar muito mais estruturadas.

Quando montaram o time?
Dinha: Há uma semana. Mas a gente já tinha jogado umas contra as outras.
AnaBala: Agora, vamos morar juntas em uma game house e poderemos treinar durante oito, nove horas por dia, no mínimo.

O que é uma game house?
Dinha: É onde vamos morar enquanto estivermos na liga [times que competem no CBCS]. Ficaremos lá por tempo indeterminado, treinando juntas. Acho que vai ajudar bastante no desenvolvimento do time. No cenário feminino nenhuma equipe teve essa oportunidade.

Quando vocês começaram a jogar?
Dinha: Aos 8 anos. Eu jogava todos os joguinhos que meus irmãos mais velhos jogavam: Atari, Nintendo. Fui crescendo e conheci o CS [Counter-Strike], que eles jogavam também. E no CS tem corujões, em que você joga a noite inteira na lan house. Eu meio que fugia de casa com eles para jogar ou só assistir. Conforme fui crescendo, continuei me interessando e comecei a jogar com os amigos deles.

AnaBala: Comecei com 7 anos, por causa do meu irmão também. Eu não fugia de casa para ir à lan house, não [risos]. Comecei a ir com uns 8, 9 anos e jogava com meu irmão. Só com uns 18 me interessei pelo competitivo.

Vocês sentem muito preconceito enquanto jogam por serem mulheres?
Dinha: Muita gente respeita porque nos conhece. Mas, às vezes, estamos participando de jogos aleatórios dentro do CS e a pessoa não sabe quem somos, aí começa a xingar. Acontece principalmente com meninos que estão começando agora. Imagina você, menina, está começando, seu sonho é aprender o jogo, e aí vêm uns meninos falando besteira o tempo inteiro? Também é frequente o cara achar que sabe mais que você. Tipo, “não vou te ouvir porque você é menina, não pode saber mais que eu”.
AnaBala: Comigo não aconteceu muito. Eu jogo mais com os amigos, então não rola tanto.

O mercado de games está mais inclusivo para o público feminino?
Dinha: Muito mais. Inclusive, a gente é prova disso, já que somos o único time feminino no campeonato. Vejo também que está crescendo para outras áreas, como narradoras, comentaristas, equipe técnica. Antes, quando jogávamos nos campeonatos, só víamos homens.

Deixem uma mensagem para meninas que se inspiram em vocês e querem começar a jogar.
Dinha: Não desistam, porque o caminho é árduo. É meio clichê falar isso, mas é verdade. Eu sei que é difícil, porque às vezes a gente não tem apoio dos pais, das pessoas de fora, que ficam zoando, mas vale a pena.
AnaBala: Apesar das derrotas e escrotices, vale a pena. É muito legal competir