Gritos e sussurros

E pela sexta ou sétima noite seguida, o mesmo pesadelo ocupou toda a noite de sono de Antônio. Era tudo exatamente igual, como se tivessem gravado aquele filme de terror em sua mente e apenas apertassem o play quando o garoto finalmente adormecia. Em determinado momento, quando uma menina de olhos cor-de-mel sorria, revelando uma janelinha entre os dentes, Antônio acordava. Às vezes apenas suado, e às vezes com o pijama repleto de urina.
O ritual era o mesmo. Levantava, tomava água, acordava a mãe, conversava um pouco com ela, se sentia seguro e então voltava a dormir. O pesadelo recomeçava. Ia da sensação de perda de espaço até o sorriso enigmático da garotinha. Nesse espaço de acontecimentos, ela aterrorizava a sua mente. Cantava, sussurrava, desaparecia… Depois voltava. Marcas roxas pelo corpo absurdamente branco, sangue em uma das mãos e uma imagem de Cristo sem a cabeça em outra. Desaparecia novamente. Mais risos, mais sussurros e então silêncio.
Antônio abria os olhos. Olhava tudo ao seu redor e então ela reaparecia. A expressão mórbida, o sorriso de janelinha… Só então o garotinho realmente acordava. “Foi só um sonho. Um sonho dentro de um sonho”, pensava.
Dessa vez suas calças estavam secas, mas a camiseta enxergada pelo suor. O relógio marcava 2h43. “Muito cedo para me arrumar para a escola”, refletiu, desejando que acabasse logo a hora que dormir.
Levantou-se para ir ao banheiro. O chão estava frio demais para caminhar descalço. Em meio à escuridão, procurou com as mãos os chinelos próximos à cama. Arrepiou-se por inteiro quando encontrou algo bem diferente.
Suas pequenas mãos encontraram uma outra, tão pequena quanto a dele. Assim que sentiu os dedinhos e percebeu que aquele objeto frio não era o seu chinelo, recuou, tropeçando em suas próprias pernas.
Caiu sentado e então ficou imóvel, mas não pelo choque. Tentava se mexer, mas seu corpo não reagia. Debaixo da cama, surgia uma luz fraca, mas suficiente para iluminar aquele espaço. As mãozinhas, com marcas de sangue e unhas ruídas, se forçaram no chão. Os braços apareceram por completo, e então a cabeça. Os cabelos avermelhados, o rosto delicado, as sardas espalhadas pelas bochechas, os olhos cor-de-mel e a boca trêmula.
O corpo todo sai de debaixo da cama. As pernas bambas se esforçam até que a garotinha, enfim, consegue se colocar de pé. Os movimentos são lentos, mas o olhar é rápido. Vasculha com curiosidade cada parte daquele quarto, agora bastante frio. Volta à atenção a Antônio. Sussurra algo incompreensível. A voz é doce, mas as palavras parecem amargas.
Ainda incapaz de se mexer, o garoto ouve algo cantarolado. A princípio pensou conhecer aquela música de algum lugar, mas não tardou a se lembrar de que era de seus próprios pesadelos. Aquela mesma garota. Aquela mesma canção.
Ela então olhou para o criado-mudo de madeira antiga. Em cima dele algo chamou a sua atenção: a imagem de Cristo que o menino ganhara do avô. As mãos abertas de Jesus foram ironicamente imitadas pela garotinha, antes de ela segurar a imagem e arrancar-lhe a cabeça.

  • Você não precisa disso, sabia Antônio? Você precisa é de mim. Precisa de uma amiga.
    O menino tentou responder algo, mas o único barulho que saiu foi do impacto dos dentes de cima batendo com os debaixo, sem ritmo, mas com muita força.
    Ela então se aproximou. Sussurrou que estava na hora, enquanto passava uma das mãos cobertas de sangue pelo rosto de Antônio. Hipnotizado por aquela menininha de vestido branco e sapatinhos pretos, Antônio não conseguia desviar os seus olhos dos da garota. Só uma coisa foi capaz de fazê-lo parar de olhar: o sorriso, que naquele momento se abria, revelando a janelinha.
    Realmente havia chegado a hora, e agora ele sabia. Nos pesadelos, esse era momento em que seus olhos sempre se abriam. Mas agora, acordado, o que ocorreu foi justamente o contrário. E agora eram dois. Cantavam, sussurravam e desapareciam…

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura.
Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais.
É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.