Inexpressivos

  • Você mudou tanto desde que a gente se conheceu – ela disse enquanto me olhava fixamente.
    Eu não entendi. Não soube ao certo se havia ternura ou decepção em suas palavras. Não compreendia se a mudança em questão havia sido para melhor ou para pior. A única coisa certa é que aquelas palavras não haviam sido ditas aleatoriamente.
    Busquei resposta nos olhos, mas estavam inexpressivos. Olhei então para a boca. Não parecia feliz nem triste. Indiferente.
    As mãos trêmulas poderiam até ser um indício, se não fosse pelo fato de elas tremerem assim desde sempre. Eu dizia para ela ir a um médico, talvez fosse algo sério, mas ela se negava. Fugia de consultas médicas na mesma proporção que eu fugia das odontológicas.
    A mão trêmula esquerda levou um cigarro à boca, enquanto a mão trêmula direita o acendeu com o isqueiro. O primeiro trago foi demorado. Os olhos fechados demonstravam um prazer quase carnal.
  • E esse cigarro aí? De onde surgiu? – perguntei sem muito entusiasmo. Fumávamos juntos algumas vezes. Não era recorrente a ponto de ser um hábito, mas também não era raro a ponto de me surpreender com aquele cigarro em sua boca.
  • Dois maços por dia a mais ou menos três meses – respondeu imediatamente.
  • Três meses? E como não notei isso? – falei cético.
  • Porque você mudou. Não vê mais nada, não fala mais nada, não escuta mais nada. Olha, pra ser sincera, você nem sente mais nada – disse enquanto se levantava. O cigarro apagado com força no cinzeiro, ainda pela metade. Num movimento rápido, as mãos pegaram a bolsa que estava no sofá e um segundo depois a porta já batia.
    Os olhos não eram inexpressivos, a boca não estava neutra e a frase “Você mudou tanto desde que a gente se conheceu” não era difícil de ser compreendida. Eu que estava alheio àqueles cigarros, olhares, palavras e expressões. E o pior é que ela estava certa. Eu já não sentia mais nada. Nem mesmo quando a porta bateu.

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura.
Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais.
É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.