IVVI recebeu cerca de 4,1 mil pessoas em 20 anos

Entidade que ajudou milhares de pessoas a se livrarem das drogas, está com dificuldades para se manter

Instituto de Valorização da Vida de Ituverava (IVVI): entidade ajudou milhares de pessoas

Devolver a oportunidade de uma vida melhor aos que sofreram com o mal da dependência química. Esta é a principal filosofia do Instituto de Valorização da Vida de Ituverava (IVVI), uma das instituições mais conceituadas e idôneas da região, que recebe residentes masculinos para tratamento do alcoolismo e drogadição. Fundado em dezembro de 1999, o IVVI completa 20 anos de funcionamento, com um número expressivo de atendimentos: cerca de 4,1 mil pessoas já passaram por tratamento contra a DQ (veja quadro). O instituto possui um índice de recuperação aproximado de 32,1% dos acolhidos – número superior ao da média nacional, que é de 28,7%, de acordo com a Secretaria Nacional sobre Álcool e Drogas (SENAD).
Segundo os diretores, manter o padrão de qualidade no atendimento é primordial. Porém, não distante da realidade brasileira, o IVVI – assim como tantas outras comunidades terapêuticas do país – também atravessa momentos difíceis para sobrevivência. O instituto recebe auxílio financeiro da Secretaria Nacional Cuidados e Prevenção às Drogas (SENAPRED) e da Prefeitura de Ipuã, que encaminha alguns residentes.

Ajuda da sociedade
O IVVI se mantém também com a fundamental ajuda da sociedade ituveravense, que, sempre que solicitada, atende aos apelos da diretoria, participando das campanhas de telemarketing e outras ações para arrecadação de fundos, mas são insuficientes.
Fundado por um grupo de empresários ituveravense, a iniciativa foi encabeçada por José Constantino Silva (“Tino) – atual tesoureiro da instituição – e pelo saudoso José Milton Alves (“Tiquim”), falecido em 2015. O IVVI é presidido hoje pelo empresário Marcos Carlos Augusto, que está à frente dos trabalhos desde 2017.
Mais do que um importante trabalho na luta contra a dependência de álcool e drogas, é o amor ao próximo, pois a instituição sobrevive com o pouco que arrecada e, tem a preocupação de manter a qualidade do serviço oferecido. Porém, este mesmo trabalho está comprometido, pois a receita do IVVI se reduziu muito atualmente.

Ajuda
“Precisamos de ajuda, não é apenas para manter a qualidade, mas também a oportunidade de oferecer uma porta aberta para jovens, pais de família ou filhos para retornarem ao seio da sociedade e resgatar sua dignidade, que foi perdida ou esquecida devido à dependência química”, afirmou a coordenadora geral da instituição, Cristiane Machado Garcia Almeida.
“O IVVI, hoje, é inegavelmente uma luz no fim do túnel para muitas famílias que vivem a devastação causada pelo submundo do uso abusivo de drogas e álcool. Nossa missão é de ajudar. Mas, agora, no atual momento, estamos precisando de ajuda”, completa a coordenadora.

O tratamento

Filiada à Federação Brasileira das Comunidades Terapêuticas (FEBRACT), o IVVI possui hoje 20 acolhidos, com idades entre 18 e 45 anos, que contam com atendimentos social e psicológico, além do ajuda terapêutica, no tratamento da doença da dependência química.
A proposta da comunidade é promover uma reforma íntima de valores e princípios, utilizando a Programação dos 12 Passos. Também são realizados estudos de Prevenção à Recaída (PPR) e outras ferramentas terapêuticas, como Terapia Racional Emotiva (TRE) e Terapia Cognitiva Comportamental (TCC).
Na área terapêutica, valores importantes são resgatados entre os acolhidos: disciplina, higiene, alimentação saudável, mudança comportamental e espiritualidade. Eles também aprendem o valor de seu trabalho, nas atividades de manutenção da fazenda (laborterapia).
Na parte religiosa, a CT recebe a visita de grupos de apoio e de duas igrejas ituveravense: Igreja da Fé e Comunidade da Paz. Além disso, os residentes também são levados às reuniões da Sociedade Espírita Beneficente Nosso Lar.

Estrutura física

O IVVI funciona na Fazenda Pouso Alto – de propriedade da Família Menezes 2 quilômetros da cidade. A CT conta com coordenadoria, escritório administrativo, sala de TV, refeitório, 7 dormitórios, almoxarifado, lavanderia, espaço de recreação, salão de reunião e de jogos, sala de informática, academia, campo de futebol society, granja de suína, galinheiro, horta e área de convivência. Na cidade, o Instituto mantém a Casa de Apoio, com ser- viço de atendimento e orientação às famílias, escritório administrativo, sala de reuniões, almoxarifado e serviço de telemarketing.
Às terças-feiras, às 20h, a Casa de Apoio sede seu espaço para o funcionamento do Grupo Amor Exigente, que assiste famílias de dependentes químicos em recuperação ou em tratamento.

“O IVVI salvou minha vida”, afirma ex-residente

O jornalista por diletantismo Marcos Massarioli fala sobre os horrores que viveu com o crack e como a instituição o ajudou

Marcos Massarioli, que se livrou das drogas após tratamento no IVVI

Considerada o grande mal do século 21, a Dependência Química se alastra pelo país a números galopantes. São estimados hoje, cerca de 3,4 milhões de usuários declarados de drogas ilícitas no país – a informação é da Organização Mundial de Saúde e não inclui os dependentes de álcool e os chamados usuários esporádicos, que muitas vezes nem sabem do perigo que causa a si e aos outros. Porém, as linhas de combate ao problema também vêm crescendo – claro que não na mesma velocidade – dando às pessoas a oportunidade de se tratarem e livrar-se deste terrível mal.
Ituverava pode ser considerada uma cidade privilegiada, neste sentido, pois conta com uma das instituições mais idôneas e prestativas no segmento. A comunidade terapêutica Instituto Valorização da Vida de Ituverava completará, em dezembro de 2019, 20 anos de exímia atuação, oferecendo a oportunidade de melhora a pessoas, com o tratamento. Cerca de 4,1 mil pessoas já passaram pelo tratamento, durante seu período de funcionamento. Fundado por José Constantino Silva e pelo saudoso José Milton Alves, ambos empresários da cidade, hoje o IVVI é presidido pelo empresário Marcos Carlos Augusto, bastante preocupado com causas sociais.
O jornalista por diletantismo Marcos Massarioli, 41 anos, foi uma das vítimas. Em entrevista, ele optou por quebrar seu anonimato sobre o uso de drogas e relatar alguns dos horrores que viveu na drogadição. Massarioli, que hoje é terapeuta em Dependência Química, atua como conselheiro da instituição. Abaixo, trechos do breve relato:

O que me levou
“Lembro-me que quando era mais jovem, gostava de beber desenfreadamente. Achava lindo os porres e as pessoas me levando para casa carregado. Tudo era para amenizar dores emocionais. Foi então que, numa dessas noites, na casa de amigos, conheci a cocaína, minha primeira paixão. Com esta droga, me relacionei por 10 longos anos.
Até que um dia, no encerramento de minhas atividades de trabalho, uma sexta-feira, decidi experimentar o crack. A paixão foi à primeira vista e durou por mais 10 anos. Sempre dando sinais de piora, a cada dia de uso.

A derrocada
Quando cheguei ao fundo de posso, poderia me considerar uma pessoa falida em todos os aspectos. Fisicamente estava totalmente degradado: cabelos mal cortados, pele manchada pelo calor das inúmeras sessões de uso do crack, sem metade do dente dianteiro, extremamente magro.
Porém, o estrago físico era bem menos visível do que o psicológico e o emocional. Totalmente descrente da vida, tentava aos poucos anestesiar uma angústia medonha. Não tinha mais amigos, eles já tinham sido expulsos da minha vida. Só restaram usuários de droga e pessoas de má índole. Estava descrente da vida e dos valores.

Desesperança
Não acreditava mais em mim e na minha melhora. Os erros do passado só cresciam e não conseguia mais ver saída. Não tinha motivação de tomar um simples banho ou mesmo de chegar no horário, no serviço. O fogão com restos de comida e a geladeira desligada, pois eu me alimentava apenas das sobras do restaurante do lado de casa. Minha mãe não me visitava mais. Tudo girava em função do crack.
Eu definitivamente precisava de ajuda. E, com o apoio de amigos e meus patrões – que, na verdade, são como pais para mim – fui buscar por ajuda. Foi então que conheci o IVVI.

“Foi graças a esse tratamento, cuja duração foi de nove meses, que minha vida voltou ao eixo”

O tratamento
Quando ingressei no IVVI, descobri algo bastante peculiar: não estava ali para tratar o uso abusivo de crack, mas as causas do que me levava a usar drogas. Então, me propus a olhar para dentro de mim e das minhas dores. Definitivamente, não foi uma tarefa fácil: reuniões preciosas sobre a doença da dependência química e de como ela ainda se manifestava – mas afinal, parei de usar drogas, mas ainda continuava portador de uma doença progressiva, incurável e fatal.
Dia a dia, a laborterapia foi me ensinando novamente o valor precioso do meu trabalho. No começo, buscava por elogios. Depois, descobri que esta ‘certificação’ tinha de ser boa para mim, e não para os outros. O acompanhamento psicológico, consegui enxergar meus fantasmas e meus medos, dando valor àquilo que precisava e tratando aos poucos do que me fazia mal.
O trabalho do estudo de passos foi primordial para minha introspecção e na reorganização dos sentimentos. Fez-me compreender como pessoa digna da felicidade, e não de punição com o uso abusivo de drogas. Junto com isso, veio também o medo: será que isso iria durar? Só o tempo e a manutenção deveriam dizer.

Os ensinamentos
Convictamente, digo que o IVVI me ensinou a ser feliz. E, através da convivência com pessoas portadoras da mesma doença, pude assimilar bons comportamentos e descartar os maus. Reaprendi valores há muito tempo rejeitado, como higiene pessoal, aceitação da vida como ela é, perdão por eu ser quem eu sou, e não o que as pessoas querem que eu seja.
Foi graças a esse tratamento, cuja duração foi de nove meses, que minha vida voltou ao eixo. Hoje, presto serviços à casa que me acolheu, ajudando – como posso – a salvar vidas. Posso dizer que foi a melhor coisa que fiz pela minha vida: reaprender, de outra forma, a buscar essa felicidade.