Juros altos do cartão de crédito ressuscita o crediário

Pesquisa aponta para crescimento de 34% na utilização de boletos nos últimos dois anos

Consumidor troca o cartão de crédito pelo crediário

Para fugir do rotativo do cartão de crédito ou por já estar com o limite de crédito comprometido em despesas emergenciais, a classe média tem promovido o retorno de um personagem conhecido do consumidor do passado: o crediário, modalidade de parcelamento do varejo muito popular em décadas anteriores.
Pesquisa feita pelo birô de crédito Multicrédito (antigo Telecheque), obtida pelo jornal O Estado de S. Paulo, aponta para um crescimento de 34% na utilização de boletos nos últimos dois anos – 54% de 2018 para 2017. A pesquisa foi realizada ao longo do ano passado com 120 mil consumidores, de 9 mil pontos de vendas do Brasil.
Segundo o vice-presidente da empresa, Flávio Peralta, esse tipo de movimento é um sinal do aperto no orçamento dos brasileiros nos últimos tempos. Já endividados no cartão ou usando o meio de pagamento como extensão do caixa ao longo do mês, a classe média busca diversificar os canais de crédito para não zerar os recursos durante o mês.
“No Brasil, o limite médio do cartão de crédito é baixo, mesmo para a classe média. Quem recebe um salário de R$ 2 mil, tem em média R$ 450 de crédito. Por isso, é preciso buscar opções”, diz Peralta. Ele classifica como classe média famílias com salários de R$ 2 mil a R$ 5 mil.
O desembolso médio de quem recorreu ao crediário, segundo a Multicrédito, também está maior hoje em dia, 17% nos últimos dois anos – ou 9,3%, se descontada a inflação acumulada do período. O valor das compras saltou de R$ 463,04 em 2016 para R$ 542 no ano passado.

‘Conta simples’

Para a planejadora financeira e professora de economia da ESPM, Paula Sauer, explica que o simples cálculo da diferença entre as taxas do cartão de crédito e do carnê explicam o aumento da procura pela segunda opção. “O cara pensa um pouco e vê que, se ficar devendo em um, paga quase 300%, e no outro bem menos. É lógico que ele vai para a segunda opção por segurança”, diz. O cartão de crédito tem uma das taxas mais altas do mercado, perdendo apenas para o cheque especial. Em 2019, segundo o Banco Central, a taxa de juro do cartão rotativo subiu de 285,4% ao ano em dezembro para 286,9%.
Por lei, o crediário – que não opera com recursos do mercado financeiro, mas do próprio lojista – pode cobrar 1% de multa por mês, além de, em média, 2% de juros mensais, acumulando entre juros e multas uma taxa de 42,58% ao ano.
A explicação para essa diferença entre taxas, diz o diretor de estudos e pesquisas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Miguel de Oliveira, envolve a inadimplência do crédito bancário. “Já faz algum tempo que a inadimplência está alta e os bancos estão bastante seletivos na concessão de crédito. Por isso, também o limite baixo do cartão”, destaca.