Luzes no retrovisor

Foi somente depois de dirigir por mais de dez quilômetros que percebemos que estávamos no caminho errado. Na saída da cidade, onde viramos à direita, deveríamos ter ido pela esquerda. Agora teríamos que continuar nessa rota até encontrar um retorno, e se isso demorasse a ocorrer enfrentaríamos um grande risco de ficar sem gasolina. Nos bancos da frente, Heitor e Luna jogavam a culpa um para o outro, enquanto eu assistia a tudo do banco de trás, me divertindo com a situação e convicto de que tudo acabaria bem.
Após trafegarmos por mais alguns quilômetros a noite se tornou ainda mais escura, e ainda não havia sinal do retorno. Pelo retrovisor, a luz alta de um veículo chamou a nossa atenção. Percebemos que o condutor queria nos comunicar algo, mas logo o farol se apagou por completo. Pensamos na possibilidade de ser um pedido de ajuda, mas temendo ser uma armação, continuamos pela estrada sem nem mesmo diminuir a velocidade.
Mais dez quilômetros à frente e a luz alta voltou a aparecer no retrovisor. Piscou por três vezes e então se apagou novamente. Luna começou a respirar fundo, com os olhos arregalados, enquanto Heitor pisava forte no acelerador. Eu olhava pelo vidro traseiro, mas a escuridão não permitia que eu visse veículo algum. Minutos depois um som agudo alertou que o combustível do carro havia chegado à reserva.
A estrada sem movimento e a ausência de iluminação de qualquer tipo nos causavam insegurança. Já não saíam palavras de nossas bocas, e o silêncio só não era total por causa do rádio, ligado baixinho em alguma canção do Pink Floyd que agora não me recordo.
Olhei para o céu em busca de uma estrela sequer, mas não tive sucesso. Nesse momento, o solo de guitarra chamou a minha atenção para a música. Heitor e Luna pareciam mais calmos, e em sincronia balançaram as cabeças no ritmo da canção.
Um chiado insuportável surgiu, tornando a música inaudível. Heitor disse que havia perdido o sinal da rádio, então eu o lembrei de que era um CD. Passou para a próxima canção, e o barulho incômodo permaneceu. Tiramos o CD e colocamos outro. Nada além de chiado. “Que ótimo momento para o som estragar”, brincou Luna, escondendo o quanto estava apreensiva.
Exatamente no instante em que Heitor apertou o botão de desligar do rádio, a luz surgiu novamente no retrovisor. Agora parecia mais intensa e por um momento a senti provocar calor em minha nuca. “Já chega”, berrou Heitor enquanto jogava o carro para o acostamento. Luna e eu gritamos para que ele voltasse a acelerar, mas foi em vão. Ficamos ali por cinco ou dez minutos, mas nenhum sinal do outro veículo. Como a luz não voltou a aparecer, decidimos prosseguir. Poucos segundos depois o chiado voltou e ainda mais insuportável. Ao mesmo tempo nós três olhamos para o rádio, que havia ligado sozinho. Heitor e Luna apertavam o botão de desligar, mas não funcionava.
Nossa velocidade caiu no momento que a luz reapareceu atrás de nós. Pensei que fosse a gasolina que tivesse acabado, mas não era. Heitor pisava o mais fundo que podia no acelerador. O carro estava na descida, e mesmo assim em determinado momento parou.
Começamos a gritar enquanto sentíamos uma força nos envolver e puxar o veículo para trás. Tentamos inutilmente destravar as portas, abrir e quebrar os vidros. Heitor e Luna se abraçaram, entendendo que não havia mais o que ser feito. Eu senti o sabor salgado de uma lágrima que havia deixado escapar sem sequer notar.
O carro foi totalmente envolvido pela luz. Não consegui enxergar nada além de uma forma estrelar. Era em torno de cinco vezes maior que o automóvel. Naquele momento, a luz e o chiado se tornaram tão intensos que perdi a consciência.
Depois disso, lembro apenas de algumas imagens. Estava preso, o que explica as marcas em meus pulsos e canelas, e vi duas criaturas. Não as vi bem a ponto de descrevê-las, mas se comunicavam por sussurros, em uma língua estranha. Lembro-me de um objeto cortante, mas não acho que eu tenha sido perfurado por ele. Apenas o vi de relance. E então acordei horas depois, dentro do carro, no acostamento, pela polícia.
Estou sendo levado à delegacia, como suspeito de dois assassinatos. Próximo ao carro foi encontrado os corpos de Heitor e Luna. Além do choro desesperado, minha primeira reação ao vê-los foi vomitar. Estão repletos de cortes profundos e sinais que não consigo entender.
Ainda não sei o motivo de a minha vida ter sido poupada, e estou escrevendo isso porque há cerca de quinze minutos, ao olhar pelo retrovisor, o policial que está no banco do passageiro diz ter visto um carro dando luz alta. Eu não vi, porque estava com a cabeça apoiada em meus joelhos, tentando entender o que aconteceu.
Há dois minutos a luz voltou, e dessa vez eu vi. Ela piscou três vezes e eu sei que é a mesma. Escrevo na esperança de que alguém encontre esse papel e procure uma resposta, porque duvido que a minha vida seja novamente poupada.

Bruno da Silva Inácio é jornalista da Tribuna de Ituverava, especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura. Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais. É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.