Mulher que se passava por homem morou em Ituverava

Corpo está há quatro meses, no Instituto de Medicina e Odontologia Legal , em Campo Grande (MS), onde ela residia atualmente

Onde residiu Lourival Bezerra de Sá. No destaque, o pintor

A Rede Globo transmitiu no último domingo, dia 3, uma reportagem sobre a vida do pintor Lourival Bezerra de Sá, 78 anos, que faleceu dia 5 de outubro de 2018, mas que ainda não foi enterrado, pois durante o exame no Serviço de Verificação de Óbito (SVO), a médica legista descobriu que ele na verdade, era mulher.
Papiloscopistas coletaram as digitais e a Polícia Civil enviou a documentação para órgãos de todo o país, com a intenção de identificar a pessoa, que morreu de morte natural. Desde então, o corpo está há quatro meses, no Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol), em Campo Grande (MS), onde ela residia atualmente.
No entanto, a mulher que só teve o segredo descoberto agora, após se passar por homem durante 50 anos, viveu algum um tempo em Ituverava. Moradoras de Ituverava, a aposentada Sirlei Costa Domingos e a irmã dela, Marta Lúcia Domingos, contam que conheceram o pintor, que morou em Ituverava na Vila São Jorge na década de 1970 com a mulher, Maria Olina de Souza Apollo, e uma filha adotiva. Naquela época havia poucas casas no bairro.
Sirlei relembra que a família era muito educada e reservada, porém ressalta que desconfiava das atitudes de Lourival. “Ele era um homem, bem mulher. Pelo jeito dele, pela maneira de conversar era muito delicado. Estava na cara, ele era muito, muito esquisito. Ele penteava o cabelo para trás – meio esbranquiçado – e o jeito dele era muito estranho”, afirma.
Na casa onde Lourival morou, a conta de água continua registrada no nome dele. Ainda segundo Sirlei, o imóvel pertencia ao agropecuarista Joaquim Menezes, mas foi doada à família do pintor.
“Ele morou com essa senhora e só tinha duas crianças na época. Conversava pouco, porque não dava muita chance. Até a minha mãe que ficava em uma cadeira de rodas falava ‘Sirlei, esse homem é estranho’. Tinha busto, o jeito de andar era meio jogadão”, diz.

Discreção
Marta também afirma que a família do ex-vizinho era muito discreta, mas lembra que, certa vez, a mulher do pintor revelou que os dois dormiam em camas separadas. Ao ser questionada sobre a vida íntima do casal, Maria Olina teria desconversado.
Atual moradora da casa que pertencia a Lourival, a salgadeira Emiliana Cristina Machado Barbosa conta que a mãe comprou o imóvel em um leilão. Ela diz que não conheceu o pintor, mas ficou surpresa com a descoberta de ele era uma mulher.

História
Para entender a história de Lourival é preciso voltar 50 anos no tempo e a primeira parada é em Goiânia. Foi na cidade que ele conheceu a primeira companheira, Maria Olina de Souza Apollo, com quem registrou quatro filhos.
De Goiânia o casal se mudou para Ituverava. Lourival e Maria Olina se separam e ele seguiu sozinho para Cuiabá. Segundo a Delegada de Polícia Christiane Grossi, que investiga o caso, nesse meio tempo ele conheceu uma cuidadora, que depois se tornaria sua companheira.
De Cuiabá o casal se mudou para Campo Grande, onde Lourival trabalhou como pintor de paredes, corretor de imóveis e chegou a abrir uma empresa. Ele também era médium em um centro espírita. Na cidade viveu com a cuidadora, que o acompanhou por quase 40 anos. Ele assumiu a filha dela e os dois adotaram mais um menino.
Ainda de acordo com a delegada, a investigação aponta que sempre houve um grande companheirismo entre Lourival e a cuidadora, mas não existiu de fato uma relação como se fossem marido e mulher. “É como se fosse um acordo de convivência entre ambos e juntos criaram os filhos”.

Desconfiança
Para a polícia, a cuidadora tinha desconfianças sobre Lourival. A vizinha e amiga da cuidadora, Ivaldirene Monteiro dos Santos, disse que ela chegou a comentar que quando Lourival já estava doente tentou dar um banho nele por diversas vezes, mas que ele não aceitava. Quando concordou, ela encontrou uma faixa amarrada aos seios dele.
Alguns exames feitos no corpo de Lourival, pelo IMOL, indicam que foram encontradas lesões na pele, na região das mamas, que são compatíveis e característicos de que ele usava faixas ou outras roupas apertadas com o objetivo de disfarçar a presença das mamas.
Muito reservado e mesmo com problemas de saúde, Lourival não gostava de médicos. Ele também não usava shorts ou camisetas, só tomava banho de portas fechadas e dizia ter perdido os principais documentos, carregando consigo apenas um CPF.
“Lourival tomava muito cuidado para não ser visto nu, tanto que para tomar banho ele trancava a porta do quarto e do banheiro. Para dormir, ele dormia de calça e de cinto muito apertado”, diz a delegada que investiga o caso.

Investigação

O pintor dizia para vizinhos e amigos que era de Palmeira dos Índios (AL). O nome da cidade, inclusive consta na certidão de nascimento de uma das filhas, Glaydiany Apollo de Sá, nascida na Santa Casa de Ituverava em 27 de dezembro de 1979.
Mas, dias antes de morrer, o pintor contou à cuidadora que sua verdadeira identidade era Enedina Maria de Jesus, que nasceu em Bom Conselho (PE), filha de Cícero Gomes da Silva e Tertuliana Maria de Jesus.
Agora, a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul tenta descobrir quem foi, de fato, Lourival Bezerra de Sá, a mulher que se fez passar por homem. As impressões digitais coletadas do corpo foram enviadas para todo o país.