Novo coronavírus pode provocar mudanças no jeito de fazer filmes

A indústria do entretenimento foi fortemente afetada pela pandemia do novo coronavírus. Além dos teatros e cinemas fechados e do cancelamento de shows, quase todo o trabalho nos bastidores da cultura também teve que ser interrompido. Agora, Hollywood já começa a planejar sua reabertura, voltando aos poucos a rodar alguns filmes.
Todos os funcionários da indústria terão que se adaptar a uma nova realidade nos sets de filmagem. Em conjunto, os principais estúdios e sindicatos de cinema consultaram especialistas em saúde para lançar o relatório “O caminho seguro a seguir”.

Testagem em massa
Uma das principais recomendações é a testagem em massa da equipe. Para os atores e outros profissionais expostos diariamente nos estúdios, o ideal é que, no mínimo, três testes sejam feitos por semana. Para aqueles que podem se manter longe das câmeras e usar EPIs (sigla para “equipamento de proteção individual”), será necessário ao menos um teste semanal.
Para garantir a organização, cada estúdio deverá contratar um supervisor de segurança sanitária, que ficará responsável por coordenar a equipe de testagem e interromper as gravações caso identifique qualquer risco de infecção.
Além disso, deve ser criado um Departamento de Segurança da Saúde, com uma equipe para monitorar se as diretrizes do supervisor de segurança sanitária estão sendo cumpridas.

Equipe médica
Manter uma equipe médica à disposição, claro, tem seu custo. Estima-se que os estúdios precisarão desembolsar, no mínimo, US$ 1 milhão para isso. Mas esse é um cálculo relativamente baixo: o filme Jurassic World: Dominion, da Universal, cujas gravações devem retornar em julho, terá custo extra de US$ 5 milhões.
O valor inclui a contratação de equipe médica, montagem de instalações de higiene, tendas de testagem, EPIs e equipamentos avançados de limpeza.
Outra demanda que irá aumentar é a de cabeleireiros e maquiadores. Isso porque, idealmente, cada ator deverá ser acompanhado por um único profissional, evitando assim o compartilhamento de objetos. Os trailers em que eles trabalham precisão de um espaço maior, com salas espaçosas e sistemas de ventilação aprimorados – e, claro, quanto menos artistas compartilhando o mesmo trailer, melhor.

Adeus, muvuca
Pode esquecer a velha imagem dos sets de filmagem lotados. A Aliança Internacional de Empregados Teatrais (IATSE, sigla em inglês) e o Sindicato dos Atores dos EUA estão discutindo qual será o número máximo de pessoas permitido dentro dos estúdios. E por mais estranho que possa parecer, alguns funcionários vão fazer home office.
Roteiristas ainda deverão acompanhar as gravações ao lado do diretor, mas por videoconferência. Além disso, apresentações de figurino e maquiagem também devem ocorrer de forma remota. O ideal é ter a menor quantidade possível de pessoas dentro de um mesmo local.
Mas ao mesmo tempo que essas medidas garantam o emprego de muitos profissionais, uma boa parcela perderá oportunidades. Nas gravações pós-quarentena, não haverá espaço para figurantes (ao menos por enquanto). A equipe de efeitos visuais vai trabalhar em dobro para garantir as simulações de multidões ao fundo das cenas. E para diminuir a necessidade de gravar em locações externas, os profissionais terão que reproduzir cenários cotidianos dentro dos estúdios.

Imagem gerada por computador
Cenas de beijo, abraço, sexo e outras aproximações serão feitas por CGI (“imagem gerada por computador”, em inglês). Já quem for gravar cenas de ação, envolvendo lutas, precisará improvisar: a recomendação é que elas aconteçam à distância, como sequências de troca de tiros ou lançamentos de facas.
As exigências abrangem até simples diálogos, que serão feitos cada vez mais em telas divididas, com um personagem aparecendo de cada vez. Assim, as gravações podem ser feitas em momentos distintos, evitando uma possível propagação do vírus.

A experiência de quem já voltou a filmar
O primeiro filme a retomar suas atividades foi a sequência de Avatar. As gravações começaram no dia 16 de junho, na Nova Zelândia (país com a doença atualmente controlada). Avatar é um filme quase inteiro em CGI e com cenas feitas em estúdio, o que pode justificar seu retorno.
Outra recomendação para voltar aos trabalhos é a de reservar um hotel inteiro apenas para os funcionários envolvidos na filmagem. Doug Belgrad, produtor cinematográfico, explicou à Vulture que, para seu novo projeto rodado no Canadá, toda a equipe deverá ficar, inicialmente, em quarentena no hotel escolhido por duas semanas. Depois, devem sair apenas para gravar, praticando o auto isolamento nos quartos nos horários livres. Nas poucas locações externas que devem ser usadas, não será permitida a aproximação do público. Viagens para visitar a família nos dias de folga? Nem pensar. Por essa série de restrições, pode ser que alguns diretores de elenco tenham que se adaptar caso o estúdio queira dar continuidade ao serviço em meio à pandemia. Atores multimilionários, nível Angelina Jolie e Brad Pitt, não precisam se submeter aos riscos da Covid-19 para pagar suas contas. Isso dá a eles liberdade para esperar a chegada de uma vacina para voltar a trabalhar – e isso pode complicar a vida de cineastas que esperavam grandes nomes em suas produções.