O dia em que meus personagens me visitaram

Ouviu uma respiração forte no quarto. Morava sozinho há dois anos, desde que a namorada o deixou. Não sentiu medo, mas curiosidade de saber quem estava ali. Acendeu a luz, certo de que não haveria ninguém. Enganou-se.
Olhou à sua volta. Conhecia cada uma daquelas pessoas, embora se lembrasse mais de alguns do que de outros. Eram todos os seus personagens que durante duas décadas de trabalho como escritor haviam sido mortos em seus contos, novelas e romances.
As expressões pesadas, fechadas, tortas… Notoriamente não estavam ali por um motivo agradável. No fundo, tinham razão. Muitas daquelas mortes eram dispensáveis, ou ao menos não precisavam ser tão dolorosas, sofridas e exageradas.
Ali estavam Chico, o garotinho morto em sua primeira novela; Isa, assassinada depois de sofrer um estupro coletivo em seu primeiro conto publicado numa antologia; Carlos, o anti-herói que morreu afogado ao tentar salvar uma criança em seu primeiro e fracassado romance; Mauro, o policial corrupto morto pelo próprio colega de profissão, que apenas gostaria de arrumar um motivo para prender um moleque; Silas, um autista que caiu do quinto andar de um prédio; Rogério, que se matou após ter sido traído pela namorada; e Paulo, morador de rua queimado por jovens de classe média em busca de aventuras.
Cada um exibia ao escritor as marcas causadas por suas linhas mal escritas. Via queimaduras, machucados, cortes e perfurações. Desabou-se em prantos. Não sabia que literatura era algo tão sério. Não fazia ideia de que personagens poderiam sair das páginas e se tornar reais. Não sabia que poderiam sentir. Se soubesse, faria tudo diferente.
Cada personagem vinha acompanhado de uma má lembrança. Possuía o hábito de extravasar na escrita a raiva que de vez em quanto lhe tomava. Quando sua namorada o deixou, criou a história de Isa; quando foi multado, criou a de Mauro. Matava em suas obras quem gostaria de matar na vida real. Pensou que o mal seria menor. Enganou-se novamente.
Só havia uma maneira de resolver aquilo. Ligou o computador, abriu o word e começou a digitar rapidamente. A história, que tomava forma sob olhares concentrados de seus personagens, narrava a morte do próprio escritor. Imprimiu uma cópia e colocou em cima do colchão. Encheu o copo, tomou de uma vez só. Deitou ao lado da história e sorriu para os seus personagens. Estava feito. 

 

Bruno da Silva Inácio é jornalista da Tribuna de Ituverava, especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura. Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais. É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.