O dia seguinte à estreia

Ivan acordou sem se lembrar muitos detalhes sobre a noite anterior. Havia saído com a namorada e amigos para celebrar o sucesso da estreia da sua nova peça, uma atualização de Entre quatro paredes, de Sartre, no teatro municipal. Lembra-se de alguns flashes: risadas, garrafas de vinho, histórias que já contara um milhão de vezes, mas que nunca perdiam a graça.
Do lado da sua cama, matinha um pequeno caderno de anotações. Às vezes acordava no meio da noite com ideias incríveis, que certamente seriam perdidas caso não fossem imediatamente registradas. Sua primeira ação do dia, antes mesmo de se levantar, era olhar para a folha e ver se alguma ideia havia surgido durante a madrugada. Dessa vez, uma pequena anotação, com letra quase inelegível, dizia “Não é a primeira vez que você está vivendo isso. Ela não vai desistir. Fuja”.
– Eu preciso ser mais claro nesses pensamentos…o que é isso, afinal? – disse para si mesmo enquanto amassava o papel e se levantava para jogá-lo no lixo.
Nem todas as ideias que Ivan tinha durante a madrugada eram levadas adiante. Algumas, como aquela, simplesmente iam para o lixo após uma breve análise. As ideias apareceriam para Ivan com tanta naturalidade que ele poderia se dar ao luxo de descartar tudo aquilo que não soasse imediatamente como genial. E o sucesso em cada uma de suas peças teatrais dizia que ele estava no caminho certo.
Enquanto tomava o café da manhã – às duas da tarde – o interfone toca. Miguel, seu amigo do teatro e de todas as ocasiões da vida, anuncia a sua chegada em tom de brincadeira.
– E aí? Já se recuperou de ontem? Pronto pra outra?
Miguel entra e juntos comentam sobre a estreia da peça. Ambos ficaram surpresos com tanta procura, a ponto de discutirem sobre a possibilidade da realização de sessões diárias ao invés de dia sim, dia não.
– Cara, sonhei com você essa noite. Coisa boba – falou Miguel ao interromper um pensamento de Ivan sobre a peça.
– Ah é?
– Sim, foi meio estranho. Aqueles sonhos reais, não sei se você já teve essa experiência. A ponto de sentir cheiros, toques e, principalmente, medo.
– Medo? Então foi um pesadelo?
– Não sei bem…você pedia socorro. Dizia que estava preso no tempo. Que deveria fugir e…
– Espera…você me contou desse sonho ontem?
– Não, eu tive ele essa noite. Por quê?
– Porque escrevi algo parecido no meu caderno de anotações durante a madrugada…você sabe do que era pra eu fugir?
– Da Júlia…
– Lá vem você implicar com ela de novo…achei que isso já tinha passado…
– Não, relaxa. Já passou. Foi só um sonho. Só achei esquisito por ter sido tão real. E agora acho ainda mais esquisito por falar que você escrever algo parecido em seu caderno…
– Provavelmente ontem, enquanto estávamos bêbados, falamos de viagem no tempo e essas coisas. Então nós dois sonhamos com isso. Não seria a primeira vez que tivemos sonhos parecidos, certo?
– Certo…deve ter sido isso mesmo. De qualquer forma, sei que vai parecer loucura, mas é que na parte mais nítida do meu sonho, lembro de você pedir para que eu viesse até aqui te falar exatamente isso: o banho é o limite. É o último momento em que você poderá fugir. Depois disso, ou você morre ou cede.
– Cedo? Cedo ao que?
– Eu não sei. O meu sonho acaba aí.
– Bom, se você diz. Vou ficar mais atento aos perigos do banho – e gargalhou, embora tenha soado bastante falso.
Conversaram por mais uma hora, até que Miguel voltou pra casa. No resto da tarde, Ivan apenas inflou o seu ego ao ler críticas positivas sobre a estreia de sua peça.
Às seis e meia, Júlia chegou do trabalho. Era executiva de uma multinacional e uma das pessoas mais cultas que Ivan já conhecera. Brincavam que Júlia tinha mais conhecimento do que qualquer pessoa conseguiria obter mesmo se vivesse por cinco séculos.
Hoje, ela parecia mais radiante do que nunca. A pele pálida, os lábios vermelhos, os olhos castanhos e o cabelo preto. Tudo nela estava convidativo.
Sentou-se ao lado de Ivan no sofá. Conversaram por alguns minutos e se beijaram intensamente, como se não se vissem a meses. As mãos de Ivan começaram a passear pelo corpo de Júlia,
– Espera! Vou tomar um banho antes.
– Então essa provavelmente é a última chance de eu fugir, né? – disse Ivan enquanto ria, dessa vez sem que soasse falso.
– Oi?
E Ivan contou sobre a visita de Miguel e o seu sonho maluco. Contou também sobre as anotações que encontrara pela manhã, em seu caderno. Júlia ria muito. Havia encontrado mais graça naquela situação do que Ivan poderá supor. Saiu do banheiro enrolada na toalha e o namorado a seguiu até o quarto. Começou a acariciá-la enquanto a beijava, já sem a toalha em seu corpo.
– Sabe o que nunca gostei no Miguel?
– Esquece isso. Não é uma boa hora pra falar dele…
– Mas me diga. Você sabe?
– Não. O quê?
– O fato de ele ser tão intrometido.
E quando disse isso, o corpo de Júlia foi esquentando, a ponto de a mão de Ivan se queimar. Ele se afastou lentamente, sem entender se aquilo estava, de fato, acontecendo.
– Você sabe por que te escolhi, Ivan? – questionou Júlia com o sorriso estampado no rosto, os olhos totalmente escurecidos e corpo repleto de vapor à sua volta.
– O que tá acontecendo? Você tá me assustando!
– Eu te escolhi porque uma questão meramente biológica. Não me importo com suas peças cretinas, com seu ego de artista ou com sua mente criativa. O que me importa é que meu pai, a cada duzentos anos, faz essa brincadeira comigo. Ele esconde em meio a toda a humanidade alguém que possa me engravidar. Então, a minha função é encontrar essa pessoa, construir um relacionamento com ela e convencê-la a procriar. Assim, damos à humanidade, a cada duzentos anos, um novo príncipe das trevas. E dessa vez, você será o papai. Me diga, Ivan, está feliz em trazer à Terra o neto de Lucífer? – e abriu novamente aquele sorriso diabólico.
– Isso é loucura…
– O único problema é que no dia em que posso engravidar, o que acontece bem raramente, fico em minha forma natural. Continuo linda, como você pode ver, mas o meu corpo fica com temperaturas bem altas. Você se queimará bastante durante nosso ato. Mas o que seria da luxúria sem alguns machucados, não é?
– Eu só posso estar sonhando…
– Foi exatamente isso que você disse ontem!
– Ontem?
– Não ontem literalmente. Mas é que já passamos por isso antes. Eu conto a minha história, você se nega a ter um filho comigo, eu te mato e você acorda no mesmo dia. E começamos tudo outra vez, com algumas variações, é claro. Miguel sempre vem aqui tentar te avisar. Você mesmo, de alguma forma, tenta se avisar através do caderno de anotações. No começo, eu achava que nunca perderia a graça viver esse dia, mas agora estou mudando de ideia. Já estou meio entediada e você não tem muitas escolhas. Então, vem cá. Estou ardendo por você – e gargalhou pela piada infame.
– Isso não vai acontecer – gritou Ivan enquanto corria para fora do quarto.
A porta rapidamente se fechou, impedindo a sua passagem. Virou-se para trás e Júlia – ou seja lá qual fosse o verdadeiro nome da criatura – estava bem na sua frente. Os olhos negros demonstravam impaciência.
– Bom, já que prefere assim – esbravejou enquanto arremessava Ivan na janela do quarto.
Com o impacto, o vidro foi quebrado, machucando Ivan em vários locais. Júlia se aproximou, retirou o maior pedaço de vidro da janela e olhou Ivan com aquele que, até então, ele suponha ser o seu olhar carinhoso.
– Vejo você amanhã, meu amor. Espero que dessa vez faça a escolha certa – e fincou o vidro no pescoço do namorado.
Agora Ivan realmente sabia que aquilo estava acontecendo. O sangue e a dor eram reais, só não tão reais quanto a certeza de que viveria novamente aquele dia amanhã…

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura.
Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais.
É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.