O encontro dos personagens secundários

Sentados em cadeiras numa sala apertada, alguns personagens secundários discutiam maneiras de conseguir alcançar o protagonismo. Essa não era a primeira reunião que eles faziam para buscar esse objetivo. Ao menos uma vez por mês se encontravam e a pauta era sempre a mesma. Dessa vez, o encontro tinha sido marcado para acontecer na casa de Luigi, o parceiro de Mario em diversas aventuras no universo dos games.
– Se pensarmos direito, cada pessoa é protagonista de sua própria história, então só temos que fazer com que as pessoas enxerguem isso – disse Milhouse, o amigo de Bart Simpson.
– Sim, eu concordo com você. Não queremos nada irreal. Somente um pouco mais de reconhecimento. Afinal, quantas vezes eu salvei a pele do Batman? – questionou Robin.
– Pois é, eu também salvei a pele do Luke diversas vezes – recordou Han Solo, de Star Wars.
– Bom, mas você nem deveria estar aqui, não é Han? As coisas estão mais fáceis para você agora. Você não é exatamente um de nós – disse Rony, amigo de Harry Potter, em tom de crítica em referência ao fato de que um filme sobre Han Solo será lançado em breve.
– Calma, Rony. Nós precisamos ficar unidos. Não é o momento para isso – alertou Tempestade, dos X-Men.
– Você tem razão, Tempestade. Contudo, tenho uma proposta bastante polêmica para apresentar a vocês hoje – falou Sam, de O Senhor dos Anéis, prendendo a atenção de todos.
– Pois então prossiga – falou o anfitrião Luigi.
– Bom, é que ao meu ver, nós estamos olhando por um ponto de vista equivocado, percebem? O que fazemos, enquanto coadjuvantes, é essencial. Nós não somos menos importantes por conta disso – argumentou Sam.
– Não sei. Isso me parece papo de autoajuda – criticou Max, de Stranger Things.
– Sei que parece, mas olhe por esse lado – retomou Sam – o que seriam dos protagonistas se não fosse por nós? Vocês acham mesmo que Simba recuperaria o seu trono se não fosse por Rafiki ou por Timão e Pumba? Acreditam que Chris aguentaria a escola Corleone se não fosse Greg? Pensa que Goku conseguiria salvar o mundo se não tivesse a ajuda de todos os seus amigos? Entendo que o reconhecimento muitas vezes não vem, mas isso tem um lado positivo…
– Qual? – questionaram diversos personagens secundários em uníssono.
– Com isso, não inflamos o nosso ego. Fazemos tudo o que fazemos sem esperar honrarias. E mesmo assim, elas vêm. Todos os dias, nós arrancamos risos, lágrimas e as mais diversas emoções de quem que nos acompanha. Acreditem em mim, as pessoas gostam de cada um de nós e entendem que temos relevância. Não precisamos de holofotes. Só precisamos ser nós mesmos. Após repensar muito, eu afirmo que continuarei ao lado de Frodo em todas as aventuras que surgirem. E peço, sinceramente, que façam o mesmo. Afinal, como disse Milhouse no começo da reunião: já somos protagonistas de nossa própria história…
E assim todos os personagens sorriram, se levantaram e deixaram o local com a sensação de que já não precisariam mais ter reuniões como esta.

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura. Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais. É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.