O mundo de Mafalda

Criada há mais de cinco décadas pelo argentino Quino, a personagem Mafalda traz, através de suas tirinhas publicadas em jornais do mundo todo, diversas críticas à sociedade, de forma leve e bem-humorada.
Sempre questionadora, a menina baixinha de cabelos pretos traz profundas reflexões sobre política, abuso de poder, corrupção, entre outros temas que ainda hoje continuam atuais, não apenas em seu país de origem, mas em muitos outros, inclusive no Brasil.
Além de proporcionar reflexões aos que leem suas tirinhas, Mafalda conquistou uma legião de fãs no mundo inteiro. Um deles é o mestre em História, Douglas Biagio Puglia. Para ele, Mafalda se encaixa nos tipos de produção que conseguem vencer o aspecto do tempo.
“Essas produções, mesmo com o passar do tempo e da consequente mudança da sociedade, continuam válidas, pois as pessoas ainda aprendem com elas. Neste grupo podemos incluir a obra do argentino Quino: Mafalda”, diz.
Um dos pontos importantes das tirinhas de Mafalda, é que trouxeram uma nova concepção no segmento de histórias em quadrinhos. Devido à inteligência existente nas HQs de Quino, elas passaram a ser admiradas por adultos e não apenas pelas crianças como acontecia com a maior parte das tirinhas na época.
“Nesse caso, além de ter uma linguagem apropriada para públicos mais jovens também pode divertir e instigar pessoas mais velhas. Mafalda é uma obra que desperta um olhar diferenciado das pessoas em relação a sua realidade”, afirma.

Os Manolitos, as Susanitas e as Mafaldas
Na turma de Mafalda, cada personagem possuía suas próprias características. Dentre eles, se destacam a personagem principal, menina inteligente, idealista e crítica; seu amigo, Manolito, menino extremamente materialista, e Susanita, jovem superficial que apenas falava da vida dos outros e sobre o sonho de se casar.
Hoje, esses personagens continuam atuais. Os Manolitos estão aí, sobretudo, no poder, sacrificando qualquer coisa para obter mais dinheiro. As Susanitas estão frequentemente na mídia, mostrando o corpo e falando sobre futilidades que nada somam no aspecto intelectual. Já as Mafaldas, estão cada vez mais raras.
Para Douglas, isso ocorre porque a própria realidade conduz a essa situação. “Vive-se em um mundo que preza o valor material acima de tudo, então, pessoas que vão buscar somente a satisfação material são as mais comuns em nossa sociedade. Já as Susanitas se encaixam perfeitamente nas pessoas que gostam de receber informações já digeridas, sem nenhuma necessidade de se pensar ou refletir, ou seja, entra-se na perspectiva de que pensar dói”, afirma.
“Cada vez mais as pessoas preferem receber as notícias e simplesmente absorvê-las, e, muito possivelmente, esquecê-las. Cada vez mais, as pessoas têm acesso a fácil informação, o que se confunde com bem informado, formando assim, Susanitas”, diz.
Já as pessoas críticas, segundo Douglas, são raras, pela própria necessidade de ser informado e desconfiado e também pelo próprio preconceito que pessoas mais críticas sofrem. “Logo, as Mafaldas são minoria em nosso mundo imediato e de pouco tempo para reflexão”, completa.

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura. Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais. É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.