O sonho nunca esquecido

Em seu poder estavam as águas dos oceanos. Do movimento leve de suas mãos, as ondas fluíam. Algumas vezes eram grandes e poderosas, outras eram pura calmaria. De cima, olhava com doçura. Como poderia ela – outrora tão insignificante diante da imensidão do mar – estar controlando todos os oceanos daquela maneira? Sentia-se uma criança com um brinquedo novo. Com ele, poderia fazer qualquer coisa, a não ser, é claro, quebrar.
Mas obviamente não passava pela sua mente a possibilidade de estragar os oceanos. Durante toda a sua vida se encantava pelos mares, não só pela imensidão que eles possuíam, mas por simbolizarem força e fraqueza; bagunça e plenitude; perigo e relaxamento; prosa e poesia…
Marina gostava de coisas assim, ambíguas, ilimitadas e simbólicas. Gostava de olhar além do que se vê e ler mais as entrelinhas que as próprias linhas.
Puxou os oceanos como se formassem um belo tapete azul. Debaixo dele, via com os olhos brilhando diversos peixes e corais. Não os considerava como algo alheio à água, mas sim um complemento. Estava tudo conectado.
Por toda essa sensibilidade, Marina sabia que em suas mãos estava algo tão bonito, que por um momento quase chorou, mesmo sabendo desde o início que se tratava de um sonho. Ali estava uma fonte de energia, inspiração de poesia e o elo entre continentes. Por aquelas águas, casais apaixonados se olharam até se perderem de vista; vidas foram tomadas e outras encontraram motivos.
E por ali, na palma de suas mãos, corriam essas águas. Não precisou pensar muito para perceber que aquilo foi a coisa mais poderosa que já controlou. Achou bonito tudo aquilo, porém quando pensou no conceito de controle, aquilo não pareceu o mais certo a se fazer.
Nunca esqueceria aquele sonho, sabia disso. Foi uma das coisas mais mágicas que vivenciara ao longo de toda a vida. No entanto, pareceu inadequado controlar algo tão livre quanto a água, mesmo que em uma realidade alternativa. Marina não gostava de controlar. Ela venerava a liberdade e a dúvida.
Então, encontrou ali, em cima do tapete do oceano, um canto de terra, onde estava uma bela casa, simples e com um balanço no quintal. Novamente simbolismos ecoaram pela sua mente. Decidiu despertar daquele sonho, embora ele fosse lindo. A partir daquele dia, viveria como se estivesse naquela casa, balançando de um lado pro outro enquanto contemplava a água. Amaria a natureza com toda a intensidade, mas nunca a dominaria. O mesmo valeria para todas as pessoas que ocupassem o seu coração. Amor é assim.

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura.
Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais.
É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.