País terá 19 milhões de idosos com mais de 80 anos em 2060

Com os “superidosos”, com mais de 80 anos – estão sendo usadas uma nova nomenclatura: a quarta idade

Houve uma época em que completar 30 anos de idade era algo raro para o ser humano. As doenças sem medicamentos eficazes para tratá-las e os perigos de um mundo hostil e ainda pouco desbravado impediam nossos antepassados de chegar a completar sequer três décadas de vida.
O tempo passou, a tecnologia e a medicina avançaram, a alimentação melhorou e os cuidados com o corpo e a saúde ganharam mais importância. O resultado dessa equação vem dando à nossa espécie os “superidosos”, homens e mulheres com mais de 80 anos – uma barreira de idade nunca tão frequentemente ultrapassada. Diante disso, especialistas começaram a usar uma nomenclatura inédita para encaixar os novos velhos: a quarta idade. De acordo com dados da mais recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país fechou 2018 com cerca de quatro milhões de pessoas na quarta idade, número que representa 1,97% da população de pouco mais de 208 milhões de habitantes.

Expectativa de vida
Essa parcela etária de brasileiros deverá saltar para 8,36% em 2060, aproximadamente 19 milhões dos 228 milhões de habitantes previstos. A expectativa média de vida do brasileiro ao nascer também vem aumentando com o passar das décadas. De 45,5 anos em 1940, para 76,3 anos em 2018, com um pico de 81 anos em 060, segundo projeções do IBGE.
Durante boa parte da nossa história, a maioria da população foi formada por jovens. O Brasil não tem experiência em ser um país de pessoas experientes. O desafio agora é enfrentar os novos problemas sem esquecer as antigas barreiras.
Até a década de 1980, a população brasileira tinha o aspecto de uma pirâmide: muito mais jovens do que idosos. Mas esse formato foi mudando e, mais do que nunca, o Brasil está próximo de se tornar um país de idosos.

Pesquisa

A pesquisa divulgada na última semana também revela outra mudança: o aumento do número de pessoas que se declaram pretas ou pardas, de acordo com a nomenclatura oficial do IBGE. Em 2012, as pessoas declaradas brancas eram 46% da população, caindo para 43% em 2018. No mesmo período, os que se reconhecem como negros subiram de 7% para 9%. O percentual dos que se dizem pardos subiu de 45% para 46%.
“A gente percebe, principalmente, o crescimento das pessoas pretas e pardas, que pode, sim, estar ligado a políticas afirmativas de conscientização, trazendo uma outra perspectiva cultural para essas pessoas. A ponto delas se declararem pertencendo a uma cor ou outra”, afirma Adriana Beringuy, analista da PNAD Contínua/ IBGE.

Instituições de Ituverava tratam idosos com carinho e dignidade

Membros do Centro de Convivência da Terceira Idade: Qualidade de vida

Ituverava tem uma população preocupada em oferecer um envelhecimento digno às pessoas. Nesse aspecto, duas instituições do município merecem ser destacadas: o Centro de Convivência da Terceira Idade e o Abrigo de Idosos “Comendador Takayuki Maeda”.
Mantido pelo Lions Clube de Ituverava, o Abrigo de Idosos “Comendador Takayuki Maeda” tem atualmente 40 moradores, sendo 21 do sexo masculino e 19 do sexo feminino. A entidade conta com 36 colaboradores com vínculo empregatício e 2 profissionais médicos voluntários.
Os idosos recebem assistência médica voluntária e enfermagem 24 horas. O Abrigo também conta com nutricionista, fisioterapeutas, assistente social, serviços de lavanderia, rouparia e limpeza, transporte em caso de locomoção para assistência médica mais especializada ou de urgência, acomodação em apartamentos com dois leitos e com banheiro, em alas separadas para homens e mulheres. Eles recebem cinco refeições diárias, almoço e jantar, café da manhã, da tarde e lanche à noite, além de frutas diversas entre os lanches.
A entidade é mantida, principalmente, por meio da renda arrecada no Leilão de Gado Beneficente, realizado uma vez por ano, e através da Campanha Sócio Contribuinte, em que 250 pessoas destinam mensalmente a quantia de R$ 70. Elas concorrem a um prêmio mensal no valor de R$ 1 mil e a um prêmio anual no valor de R$ 25 mil.

Centro de Convivência

O Centro de Convivência da Terceira Idade, mantida pela Prefeitura, através da Secretaria Municipal do Bem-Estar e Integração Social, oferece atividades esportivas e recreativas, como atletismo, bocha, buraco, damas, dominó, tênis, tênis de mesa, voleibol adaptado, natação, coreografia, dança de salão, malha, truco e xadrez.
Os idosos frequentam livremente o local, participam das atividades e, eventualmente, de festas e solenidades promovidas no local.

País se prepara para os desafios do envelhecimento populacional

O Brasil, país antes considerado jovem, vive o aumento da expectativa de vida, que está mudando esse quadro. Até 2060, a população com 80 anos ou mais deve somar 19 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Até lá, o país tem o desafio de promover a valorização das pessoas mais velhas e garantir políticas para que elas envelheçam com qualidade.
Vice-presidente do Conselho Nacional da Pessoa Idosa (CNDPI), Bahij Amin Auh afirma que a mudança começa com educação. “O Brasil conquistou a vitória de aumentar a longevidade da sua população. Hoje, vive-se mais – a média de expectativa de vida da população brasileira é de mais de 75 anos. Agora, é preciso um amplo programa educacional, para que toda a população tenha noções básicas sobre o processo de envelhecimento, para que valorize e respeite a pessoa idosa”, afirma.
Hoje, já há previsão legal, inclusive no Estatuto do Idoso, de 2003, para que os sistemas escolares trabalhem conteúdos sobre esse tema, mas, segundo Auh, isso não tem sido feito. Representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ele diz ainda que a promoção dessa valorização passa pela garantia de mais informações para os idosos acerca dos seus próprios direitos.

Desafio
Outro desafio do país é aumentar a oferta de políticas públicas que garantam que a população idosa envelheça de forma ativa. “Não adianta um corpo vivo. É preciso que a mente e as relações das pessoas idosas estejam em atividade”, afirma.
Uma das questões mais relevantes para ele é a política de acolhimento. Diante de mudanças nas configurações sociais, muitos idosos passaram a ficar sem companhia em casa e sem receber os cuidados necessários, conversar ou contar com o apoio da família para desenvolver atividades.
Políticas de acolhimento
De acordo com dados do Sistema Único de Assistência Social (Suas), há, no Brasil, 1.669 instituições de acolhimento de idosos. Muitas pessoas conhecem apenas as instituições de longa permanência, conhecidas popularmente como asilos.
Não obstante, existem outros modelos em funcionamento no país, como os centros de convivência, onde idosos que têm autonomia praticam atividades recreativas e aprendem novos ofícios, e os chamados centros-dia, que em geral recebem pessoas que precisam receber algum tipo de atendimento terapêutico.
Tais opções ainda são restritas e estão concentradas em grandes centros urbanos, mas podem ser saídas para a situação vivenciada por muitos idosos que não têm companhia e também para os membros de famílias que precisam ou desejam trabalhar fora de casa, mas têm responsabilidades com os mais velhos.
Atualmente, cerca de 60 mil pessoas usam os diferentes serviços de acolhimento existentes. Apesar de o número ser expressivo, ainda há desconhecimento sobre os serviços e também preconceitos. É muito presente a ideia de que as pessoas acolhidas nessas instituições são aquelas que não têm mais família e que, por isso, o atendimento dado não é adequado e não respeita a individualidade delas.

Formação profissional

Outro desafio para que os idosos recebam atendimento de qualidade é a qualificação profissional de quem trabalha com essa população. “As profissões ligadas aos cuidados com os idosos são as profissões do futuro. O envelhecimento da população vai gerar o aumento das oportunidades de trabalho para pessoas que cuidem dos idosos”, alerta Bahij Amin Auh.
Tal percepção, contudo, ainda não foi absorvida a contento pelas instituições de ensino. Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo, Carlos André Uehara avalia que muitos profissionais em atuação não receberam formação com um olhar gerontológico. Exemplo disso é a abordagem que infantiliza o idoso, que ele considera inadequada.
Além disso, Uehara explica que o modelo de atenção à saúde atual é baseado na busca da cura de doenças agudas, enquanto cresce o número de idosos que convivem com doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e doenças respiratórias. Nestes casos, o que resolve “não é uma consulta de 2 minutos, que passa remédio e marca retorno. É preciso mais acompanhamento”.