Pandemia evidencia desigualdade social e problemas na educação

Conhecida por sua tradicional produção de pé de moleque, a cidade de Piranguinho, localizada no sul de Minas Gerais, a mais de 400 quilômetros de Belo Horizonte, tornou-se cenário de uma iniciativa de educação que chamou atenção em meio à pandemia de Covid-19.
Distante de seus alunos desde o início da quarentena, decretada em março, a pedagoga Andréia Maria Gomes Machado não poupou esforços para encontrar uma forma de continuar ensinando os alunos a distância — principalmente aqueles que, em uma cidade pequena e rural como Piranguinho, não possuem acesso à internet.
Essa é, afinal, a realidade de um a cada cinco brasileiros, segundo uma edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) que analisou o acesso à internet, à televisão e a telefones móveis no país. Com base em dados de 2018, o levantamento mostra que 79,1% dos lares do país têm conexão à internet. A porcentagem chega a 83,8% entre os domicílios em áreas urbanas, mas a apenas 49,2% na zona rural.
No geral, tanto os moradores das metrópoles quanto os do interior afirmam que os principais motivos para a não utilização da internet são a falta de interesse em acessá-la (34,7%), o alto custo do serviço (25,4%) e o fato de não saberem navegar (24,3%).
Levando em conta apenas os motivos da zona rural, no entanto, encontra-se uma quarta razão para a falta de internet: 20,8% das pessoas alegam que o serviço não está disponível onde vivem — em comparação, apenas 1% dos moradores das grandes cidades sofrem com o mesmo problema.

Piranguinho
Esse é o contexto da população de Piranguinho, estimada em 8.640 habitantes — dos quais 20 são alunos da turma do 5º ano na qual Andréia leciona na Escola Municipal Almerinda Valente de Lima. Para levar o conteúdo das aulas a todos os estudantes, a professora passou a imprimir atividades e disponibilizá-las em sacolas higienizadas que ficam penduradas na grade da sua casa.
“Como vivemos em uma cidade pequena e moro perto do centro comercial, praticamente todos os alunos sabem onde fica minha casa. Os que não conheciam, logo ficaram sabendo pelos colegas e pela proporção que a iniciativa tomou”, conta Andréia em entrevista à Galileu, uma das principais revistas brasileiras atualmente.
A ideia é que, quando os pais estiverem passando para ir ao supermercado ou à farmácia, eles peguem a sacola e levem para as crianças fazerem os exercícios em casa, ao longo da semana.
Aqueles que têm acesso à internet compartilham fotos das lições feitas por WhatsApp. Andréia corrige cada atividade, manda áudios de parabéns e explica o conteúdo novamente quando o aluno apresenta dificuldade. Os pequenos que não têm conexão de banda larga, contam com a ajuda de vizinhos para encaminhar os estudos.

Brasil offline
A simplicidade da estratégia de Andréia em plena era digital fez sucesso na comunidade piranguinhense: comércios começaram a doar produtos de higiene, como sabonete e álcool em gel, para rechear as sacolas.
A repercussão foi tamanha que Andréia foi chamada não apenas para contar sua história, mas também recebeu convite para fazer cursos e até republicar livros seus em formato adaptado para crianças com necessidades especiais.
A professora foi parabenizada inclusive por Fátima Freire, filha de Paulo Freire, patrono da educação brasileira e grande inspiração para Andréia. “Sempre o tive como referência nos meus estudos, a forma como ele traça propostas e práticas pedagógicas a partir da realidade de cada aluno”, diz a docente que, após 31 anos trabalhando em sala de aula, conseguiu se aposentar em agosto — mas pretende continuar a dar aulas em meio à pandemia.

Iniciativa
“É realmente uma iniciativa que me tocou muito quando vi na televisão”, comenta o educador Ismael Rocha, diretor acadêmico do Institute of Technology and Education (Iteduc), plataforma digital criada para capacitar professores a utilizarem tecnologias e metodologias híbridas de ensino-aprendizagem.
Para Rocha, do ponto de vista de políticas públicas, o Brasil ainda tem muito a avançar no que diz respeito ao ensino híbrido, focando em metodologias que não se baseiem estritamente no uso da banda larga. “Em um país tão desigual quanto o nosso, é necessário investir em métodos que cheguem às comunidades mais distantes”, defende.

Desigualdade se potencializou
É bom lembrar que a desigualdade se potencializou nos últimos 15 anos. “Temos uma estrutura de telecomunicação extremamente sofisticada, que conta com uma rede de antenas parabólicas espalhadas por todo o território. Por meio delas, qualquer pessoa pode ter acesso a rádios e TVs estatais” exemplifica.
Para o educador, o ideal seria que essa estrutura fosse aproveitada em prol da veiculação de programas educativos, reforçando os estudos e entregando informações às regiões mais remotas do país. “É uma questão que depende da vontade política para que possamos implantar um sistema híbrido mais eficaz e adaptado à realidade dos brasileiros”, analisa Rocha, citando casos bem-sucedidos desse tipo de experimento.
A Estônia, o Uruguai e o México, por exemplo, são países que conseguiram aumentar o nível de escolaridade da população a partir de campanhas educacionais feitas por rádio e TV.
Por aqui, esses recursos ainda são pouco explorados. De acordo com a pesquisa Juventudes e a Pandemia do Coronavírus, realizada com 33.688 jovens de todos os estados do país, 7% dos estudantes têm assistido às aulas na TV aberta com a mediação de um professor e 4% o fazem sem a orientação de um docente.
É um número baixo levando em conta que 89% dos alunos têm aparelho televisivo em casa, segundo o levantamento, conduzido pelo Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) e organizações parceiras. Aliás, ele é o segundo mais comum nos domicílios, perdendo apenas para o celular, dispositivo que 97% dos participantes possuem.

Rádio
Quanto ao rádio, apenas 2% o utilizam para fins escolares. E temos bons exemplos de como ele pode funcionar nesse sentido. Em Maceió, alunos acompanham pela Rádio Difusora AM as aulas gravadas por professores da rede municipal.
As disciplinas são distribuídas entre os dias da semana e cada nível escolar conta com uma carga horária diferente: 30 minutos de conteúdo voltado para a educação infantil, e uma hora para cada metade do ensino fundamental. Estudantes da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (Ejai) também são contemplados pela programação diária.

Abismo de privilégios
“O que a pandemia tem feito é evidenciar a situação de desigualdade em que vivem os estudantes brasileiros”, avalia Adriana Dantas, membro do grupo de pesquisa Focus, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e colaboradora do Centro de Estudos Periféricos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O próprio levantamento do Conjuve demonstra isso, inclusive em termos raciais: 78% dos alunos brancos acessaram a internet por computador para assistir às aulas, enquanto apenas 54% dos estudantes negros e pardos fizeram o mesmo. O aparelho mais utilizado para navegar na internet é o smartphone — 98% dos alunos o usaram para esse fim, independentemente de raça.
É esse o dispositivo que tem ajudado boa parte da turma do 5º ano da professora Andréia a participar das aulas à distância. Antes matutinas, elas passaram a ocorrer à noite, pois é o horário em que os pais dos alunos já estão em casa e, com eles, o único celular disponível na família para fazer videochamadas.

Futuro dos estudantes
Dantas, que é doutora em sociologia da educação, preocupa-se com as consequências desse cenário sobre o futuro dos estudantes, principalmente no que diz respeito ao ingresso de alunos de escolas públicas no ensino superior.
“Agora, as desigualdades materiais e de oportunidades entre estudantes da rede pública e privada estão cada vez mais evidentes, seja pela falta de um equipamento com acesso à internet em casa ou de apoio para enfrentar o vestibular”, afirma.
Dados anteriores à pandemia já mostravam uma esmagadora vantagem entre alunos da rede privada no ingresso às universidades. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS) 2018, somente 35,9% dos estudantes de escolas públicas entram em uma faculdade, porcentagem que chega a 79,2% entre os alunos de instituições particulares.
Outros números podem ajudar a enxergar a real dimensão da desigualdade entre as redes de ensino. De acordo com a Pnad Educação 2019, mais de 80% dos estudantes brasileiros estão matriculados em instituições públicas. Ou seja, apenas um a cada cinco alunos estuda na rede privada — e, mesmo assim, ela é responsável por formar quatro em cinco futuros universitários, como mostra a SIS 2018.
Na visão de Dantas, esse é o resultado de um processo histórico que tem valorizado a rede privada de ensino desde o século 19. Voltada para formar os filhos da elite, a educação particular permanece até hoje como sinônimo de privilégio — uma vantagem cada vez mais insustentável para famílias de estudantes.

Aumento do desemprego
Com o aumento do desemprego no país desde o início da pandemia — a taxa de desocupação foi de 12,2% no primeiro trimestre de 2020 para 13,3% no segundo, de acordo com a Pnad Contínua —, muitas famílias têm tirado seus filhos da rede privada por não terem condições de pagar as mensalidades.
Um levantamento feito em junho pela Editora do Brasil com 821 escolas particulares do país mostra que 60,1% dessas instituições já haviam perdido pelo menos 10% dos alunos matriculados este ano. Cancelamentos e inadimplência são as maiores ameaças à sobrevivência de escolas de pequeno e médio porte durante a pandemia.
“Havia uma expectativa de que o Estado pudesse dar algum suporte a pequenas empresas durante a pandemia, mas o que vimos foi que elas ficaram desassistidas, inclusive escolas menores, de bairro, principalmente nas periferias”, diz Dantas. “No fim das contas, os donos dessas escolas estão em uma situação de insegurança muito parecida com a dos pais que perderam o emprego”, completa.

Suporte essencial
Instituições privadas com caráter social, por outro lado, têm tido um importante papel no combate à pandemia de Covid-19 em zonas de alta vulnerabilidade. “Muitas vezes, somos o único órgão a oferecer um atendimento integral à população de extrema pobreza”, afirma Viviane Flores, coordenadora educacional do Marista Escolas Sociais. Presente em três Estados, a rede promove educação gratuita a quase 8 mil crianças.
Desde o início da pandemia, ela tem realizado campanhas de arrecadação e doações de materiais escolares e cestas básicas às famílias dos alunos. Em unidades da periferia de São Paulo, foram feitos 3,6 mil testes de Covid-19.
Na Marista Escola Social Ecológica, localizada em Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba, um importante trabalho de conscientização sobre violência infantil foi realizado por alunos. “Ao longo desses meses, nós percebemos que uma das maiores necessidades das famílias é serem ouvidas, por isso temos mantido um contato cada vez mais próximo e debatido temas que fazem parte da realidade delas”, reflete Flores.

Escola física

Mas a pandemia não acentuou apenas os aspectos ruins do sistema educacional brasileiro: ela também revelou o que realmente é essencial ao ensino. “Esse período tem reforçado a importância da escola física, seja como um equipamento cultural, que muitas vezes é o único de uma região; seja como ambiente de estudos, já que, em casa, poucos alunos têm um espaço adequado para sentar e estudar”, avalia Adriana Dantas.
Para Ismael Rocha, a situação também tem acelerado o processo de expansão das ferramentas digitais, a capacitação de professores e a “morte” do ensino tradicional, que já vinha agonizando há décadas no Brasil, na opinião do especialista. Ele acredita que é um equívoco continuar avaliando estudantes com base em testes, como é o caso do Enem e de outros vestibulares.
“É preciso encontrar uma maneira de conseguir examinar os alunos de forma integral, e não apenas se basear no desempenho de uma prova”, propõe o diretor do Iteduc.