Pesquisa diz que dormir pouco torna as pessoas mais solitárias

“Contágio viral do isolamento social”. O nome é sofisticado, mas se você costuma conviver com pessoas que dormem pouco, provavelmente já experimentou isso. De acordo com pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, mesmo aqueles que estão bem descansados podem desenvolver sentimentos de solidão apenas conversando 60 segundos com alguém que é privado de sono.
Publicado na revista Nature Communications, esse é o primeiro estudo a sugerir que a privação de sono afeta não apenas o indivíduo que dormiu mal, mas também aqueles com quem ele interage. A privação de sono parece provocar em outras pessoas saudáveis sintomas semelhantes aos sofridos por indivíduos com transtorno de ansiedade social.
Em comparação com quando estão bem descansados, os indivíduos privados de sono são mais solitários. “A solidão é um assassino”, disse Matthew Walker, professor de psicologia e neurociência da UC Berkeley e autor sênior do estudo à revista Newsweek.
“Estar sozinho aumenta o risco de mortalidade em mais de 45%, o dobro do risco associado à obesidade. Além disso, a solidão aumenta significativamente o risco de desenvolver várias formas de doença mental, incluindo depressão, esquizofrenia, ansiedade e tendências suicidas”, ressalta.
Walker continuou: “Indivíduos solitários também são mais propensos a desenvolver demência prematuramente. Portanto, quaisquer forças que aumentem e/ou perpetuem a solidão são de grande importância pessoal, clínica, de saúde pública e com consequência social”.

Contágio 

Chama atenção, porém, como esse comportamento afeta os outros. “Um minuto conversando com uma pessoa privada de sono foi suficiente para fazer alguém se sentir solitário e ‘sofrer a transmissão viral da solidão”, afirmou Eti Ben-Simon, pesquisador do Walker’s Center for Human Sleep Science na UC Berkeley e co-autor do estudo.
A pesquisa consistiu em conectar pessoas a equipamentos de imagem cerebral e observar como eles reagiam a videoclipes de indivíduos com expressões faciais neutras se aproximando deles. Os exames revelaram que partes de suas redes cerebrais, geralmente desencadeadas quando os humanos sentem que seu espaço pessoal está sendo invadido, estavam acesas. Isso também amorteceu a parte do cérebro que encoraja os humanos a serem sociais.
Em uma parte separada do estudo, os pesquisadores recrutaram mais de mil participantes do mercado Mechanical Turk, da Amazon, para assistir a clipes dos participantes do estudo anterior, expressando suas opiniões e discutindo atividades.
Esses voluntários não sabiam se os ex-participantes eram ou não privados de sono e avaliaram o quão solitários eles pareciam e se gostariam de interagir com eles. Sem querer, classificaram os indivíduos privados de sono como mais solitários e menos desejáveis socialmente. Após cada clipe, os entrevistados avaliaram sua própria solidão. Os resultados revelaram que eles se sentiram mais solitários após o clipe de 60 segundos.
“Os seres humanos não foram projetados para ficarem sozinhos”, concluiu Walker. “O sono é uma ‘cola’ que, biológica e psicologicamente, nos une como espécie. Às vezes, precisamos recusar um evento social para garantir o sono de que precisamos. O oposto agora parece ser verdade. O sono nos reconecta com nosso círculo social — com nossos amigos, colegas, parceiros e até com estranhos”, completa.