Pesquisa diz que jovens querem participar de decisões na escola

Os jovens percorrem trajetórias de vida diferentes, demandam que a escola saiba respeitar suas características e entendem que o ensino que recebem precisa melhorar muito para ser considerado de qualidade. Essas conclusões fazem parte de uma nova pesquisa divulgada pelo CENPEC (Educação Cultura e Ação Comunitária), durante o 4º Seminário Internacional de Educação Integral, promovido pela Fundação SM, em São Paulo (SP).
Intitulado “Participação e engajamento de jovens e suas repercussões em sua vida escolar: os caso das ocupações de escolas em São Paulo (2015)”, o trabalho investiga processos e condições sociais ligados à participação e ao engajamento juvenil, além de entender os efeitos desse engajamento na vida escolar.
De acordo com Mônica Gardelli Franco, superintendente do CENPEC, o foco não foi estudar o fenômeno das ocupações, mas os jovens do ensino médio que se envolveram e foram impactados por elas. “Nós entendemos naquele momento que esse universo poderia nos dar pistas sobre o perfil que pode determinar atitudes de engajamento e participação dos jovens”, afirmou.

Metodologia
Para fazer essa análise, foram pré-selecionados 70 jovens que estiveram envolvidos nas ocupações das escolas em São Paulo. Dentro desse grupo, composto por participantes de diferentes posições sociais, locais de moradia e localização da escola, cor/raça, gênero, trajetória escolar, entre outros critérios, foram selecionados 11 jovens, que participaram de entrevistas em profundidade com questões divididas em três blocos: antes, durante e após as ocupações de 2015.
Por fim, o estudo chegou a quatro jovens com os casos mais representativos, que foram ouvidos com mais profundidade para elaboração de um retrato sociológico. “A gente procurou assim ter um grupo que fosse o mais representativo, heterogêneo e diverso possível”, explicou Joana Buarque, pesquisadora da Diretoria de Pesquisa e Avaliação do CENPEC.

Insatisfação com a escola
Entre outros destaques, a pesquisa demonstrou que para os jovens existe uma grande insatisfação com a escola. “Todos eles esperam muito mais da escola. Eles têm consciência de que o direito à educação pública de qualidade lhes está sendo negado”, pontuou a pesquisadora.
Os jovens também demonstram seus incômodos caráter de homogeneização da escola. Eles entendem que ela precisa tratar todos como iguais, mas também querem ser considerados nas suas diferenças. “Na escola, esses jovens querem poder explorar os seus projetos de vida e pensar como podem experimentar possibilidades distintas de escolarização.”

Valor para as famílias
A pesquisa também identificou que para as famílias dos jovens ouvidos a escola representa uma possibilidade de recuperar a posição social perdida. Elas também se destacam pelo investimento na educação dos filhos. “Os jovens vêm de famílias que dão um valor muito grande à educação, por mais que tenham experimentando um processo de declínio social. A escola surge então como meio para frear esse processo. Por isso, essas famílias matriculam seus filhos em cursos complementares e vão atrás de bolsas de estudo em escolas privadas”, analisou Joana.

Relação com gestores e professores
Entre os achados, o estudo também mostra que os jovens pouco mencionam a figura do gestor, tanto o gestor público da educação quanto os gestor escolar. “Quando isso acontece, quase sempre é de uma forma negativa e impeditiva à participação e ao engajamento”, afirmou a pesquisadora. Já os professores, são vistos como mais próximos e mais abertos a um diálogo.

Escola dos sonhos
Para os jovens, a escola desejada deveria favorecer a autonomia. “Foi identificado que os jovens querem ampliar seus processos de participação dentro da escola, em grêmios ou coletivos, e participar na criação dessa educação que seja uma educação de fato significativa para eles e para o seu desenvolvimento.”