Quando Hitchcock encontrou Edgar Allan Poe

Hitchcock, de modo lento e firme, diria a Edgar Allan Poe, em um diálogo hipotético, que os dois se tornaram referências no terror sem abordarem, de fato, esse tema. Melancólico, Poe responderia que a ironia é o que há de mais presente na existência de um homem, seja ele um célebre, um bêbado que mora na rua, ou até mesmo um célebre bêbado morador de rua.
O diretor discordaria, mas sem perder a classe: era a loucura o que havia de mais presente na medíocre vida de qualquer pessoa. Seu posicionamento estava bem claro em suas obras cinematográficas.
Também estava claro nos contos de Poe, no entanto, ele se manteria inexpressível, sem dar margem para que Hitchcock avaliasse se ele concordou ou discordou do que o cineasta acabara de dizer.

  • Mas e o ego? É bem presente em seu trabalho também, não? – indagaria o escritor, passando a mão em seu impecável bigode.
  • Desculpe-me, o que disse? – responderia Hitchcock, já sem tanta classe.
  • Sempre fiz o meu trabalho pelo prazer, pela necessidade de expressar o meu talento. Já o senhor, embora talentoso, fazia pela fama. Estava sempre nas primeiras páginas de jornais, além das aparições, se me permite, ridículas, que sempre fazia em cada um dos seus filmes.
  • Atribuo a sua reflexão à inveja, ou talvez ao excesso de álcool em seu organismo. Sua fama veio apenas depois de sua morte. Não questiono o seu talento, mas duvido que não inveje a fama que pude desfrutar enquanto estava vivo.
  • Acredite senhor, prefiro ter entrado para a eternidade por um reconhecimento tardio do que ter me colocado em evidência.
  • Aí que está, Sr. Poe, não me coloquei em evidência. Fui colocado em evidência em reconhecimento à minha genialidade.
  • Não critico o seu reconhecimento. Apenas a sua obsessão em alcançá-lo.
  • Desculpe, mas esse diálogo certamente não levará a lugar algum. Até breve, Sr. Poe.
    O escritor permaneceu em silêncio, assistindo o cineasta se retirar. Mais tarde, naquele mesmo dia, aquela conversa parecia ter ocorrido há anos. Poe tomava um copo de rum, pensando em como a fama teria sido inútil em sua vida desregrada, e Hitchcock assistia a um dos seus filmes. O fazia não pela história, não para analisar a sua obra, mas sim para se ver em cena. Colocar-se em evidência não era tão ruim, afinal.

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura. Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais. É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.