Quarentena alterou os hábitos alimentares de 40% das pessoas

Com restaurantes fechados ao público, quase todo mundo passou a fazer as refeições em casa. Até quem recorreu ao delivery, abrindo brechas para variações no cardápio, tornou-se mais dependente da comida de casa. Mesmo agora, com a flexibilização da quarentena e o retorno gradual ao trabalho, nada indica que a situação vá mudar tão cedo neste quesito.
Em muitas cidades, os restaurantes ainda deverão demorar algumas semanas para reabrir – e, quando o fizerem, provavelmente o esquema será bem diferente, com maior distância entre as mesas e outras medidas de proteção aos clientes.
É provável também que boa parte da clientela potencial, ainda temerosa do contágio, continue a comer mais em casa, fazendo pedidos ocasionais pelo delivery. O melhor, então, é se acostumar ao “novo normal”, cuja duração é difícil prever no momento, e tirar o melhor proveito disso.
A questão é que nem sempre comer em casa é sinônimo de uma alimentação de melhor qualidade e mais saudável. Muitas vezes, estar em casa acaba sendo uma espécie de passaporte para todos os tipos de excessos.

Vontade de comer
A pesquisa, feita por telefone com mais de 2 mil pessoas de todo o País, incluía uma única pergunta para apurar se o entrevistado passou a comer mais ou menos. Não dá para separar, portanto, quantos estão comendo melhor e quantos, pior. De qualquer forma, o levantamento traduz em números o que já se podia deduzir a olho nu: quase metade da população afirma ter mudado os hábitos alimentares durante o confinamento.
Outro estudo, realizado por um grupo de pesquisadores das áreas de endocrinologia, patologia e psicologia, reforça os dados apurados pelo ministério e vai além. Segundo a pesquisa, que ouviu 1.470 pessoas por meio de um questionário online, um em cada dois entrevistados sentiram mais vontade de comer, mesmo quando não estavam com fome, e 23% ganharam peso. Pelo levantamento, o ganho médio de peso foi de 2,6 kg.
O intervalo oscilou entre um mínimo de R$ 1,1 kg e um máximo de 12 kg no período.

Buscas do Google
Um mergulho nas buscas do Google permite entender melhor por que tanta gente engordou na pandemia. O Google não divulga números, mas informa que as receitas mais buscadas no Brasil desde 15 de março, foram, pela ordem, as de panqueca, brownie, bolo, pudim e pão, todas com altos índices de calorias.

Meio termo
Surpreendentemente, ao contrário do que se poderia imaginar no início da pandemia, um número considerável de brasileiros tem conseguido fazer refeições mais balanceadas, comendo mais vegetais, legumes e frutas, e está até fazendo mais exercícios, para compensar eventuais abusos na quantidade e para se proteger dos efeitos da doença em caso de contágio. De acordo com um estudo da FAO (agência da ONU para agricultura e alimentação), a obesidade é um dos principais agravantes dos males causados pelo coronavírus.
A dona de casa Cláudia Fátima Nassar Reis e o consultor de empresas Rogério Vargas Reis, ambos de 55 anos, que moram no bairro do Morumbi, em São Paulo, são exemplos emblemáticos das mudanças ocorridas com a alimentação dos brasileiros, especialmente de classe média e média alta, durante a quarentena
Para Cláudia, a alimentação mudou para pior. Para Rogério, para melhor. Com as restrições de convívio social, ela parou de fazer ginástica duas vezes por semana, com um personal trainer, na academia do prédio em que mora.
Ele passou a correr pelas ruas do bairro todos os dias.
Resultado: Cláudia afirma que engordou de três a quatro quilos, mesmo ela caminhando cerca de 5 km por dia, enquanto Rogério conseguiu manter o peso, nos três meses de isolamento social praticado na cidade.

Ansiedade

“As pessoas estão há muito tempo dentro de casa e muitas vezes acabam descontando a ansiedade na alimentação”, diz Marcia Nacif Pinheiro, professora do curso de Nutrição da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.
“Quando a gente está em casa e há muitos alimentos disponíveis, fica fácil ir até a geladeira, até o armário, e beliscar o tempo todo. No trabalho, a gente tem horários específicos para se alimentar, tem a hora do almoço, às vezes um intervalo para um café, e consegue manter uma rotina mais rigorosa.”
Ainda não há pesquisas aprofundadas e com rigor metodológico sobre a alimentação na pandemia. Mas um levantamento realizado pelo Ministério da Saúde no fim de maio aponta que quatro em cada dez brasileiros alteraram os hábitos de alimentação, para o bem ou para o mal.