Quarentena tem aumentado casos de ansiedade e insônia

A busca na internet por “remédio para insônia” cresceu 130% no quinto mês de 2020

Entre abril e maio deste ano, a palavra “insônia” foi a mais procurada no Google

Os sinais de que a quarentena mexeu não apenas com o corpo, mas também com a cabeça dos brasileiros. No ambiente virtual, eles se revelam sob a forma da escalada na procura por assuntos e substâncias relacionados à dificuldade para dormir, que cresceram quase uma vez e meia no Google.
No mundo físico, esses indícios se concretizam sob a forma da disparada nas vendas de medicamentos das classes dos ansiolíticos, hipnóticos, estabilizadores de humor ou antidepressivos, que aumentaram em alguns casos até 80%. Uma realidade que agravou o quadro de parcela da população já adoecida mentalmente, como revelam dados do Ministério da Saúde.
Não parece por acaso que a venda dos medicamentos relacionados a distúrbios psíquicos tenha chegado a 3,76 bilhões de comprimidos nas farmácias brasileiras nos 12 meses terminados em maio deste ano.
O total equivale a 5,75% de aumento em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo os dados mais atuais da consultoria IQVIA, especializada no setor farmacêutico. Em maio, ainda de acordo com a empresa, o crescimento na comercialização de antidepressivos, especificamente, foi de 9,62%.

Balanço
No Brasil, balanço do Conselho Federal de Farmácia (CFF) dá conta de que a procura por fármacos anticonvulsivantes, que atuam contra a epilepsia, passou de mais de 6 milhões de unidades, em abril de 2019, para mais de 7,5 milhões no mesmo mês de 2020.
Quanto à venda de antidepressivos e estabilizadores de humor, usados nos casos de transtornos afetivos, como depressão, distimia (neurose depressiva) e transtorno afetivo bipolar, o índice saltou de mais de 7,6 milhões de unidades, no quarto mês do ano passado, para mais de 8,8 milhões em abril de 2020.
Além da evolução nas vendas de ansiolíticos e antidepressivos no período da pandemia, também aumentou substancialmente nesses meses o consumo dos fitoterápicos que aliviam sintomas de ansiedade e insônia.

Demanda por fitoterápicos
Levantamento da subsidiária brasileira da farmacêutica Aspen Pharma mostra que em maio de 2019 a demanda por fitoterápicos que comercializa, entre os dois que produz à base de passiflora, era de 118 mil unidades, chegando agora a 188 mil vendidas, aumento de 59%.

Insônia
Entre abril e maio deste ano, quando estiveram em vigor medidas mais rígidas de isolamento social devido à pandemia, a palavra “insônia” foi a mais procurada no Google, um tema comumente associado às agruras da quarentena. A busca na internet por “remédio para insônia” cresceu 130% no quinto mês de 2020.
É constatado ainda um crescimento da procura virtual por fármacos que agem no sistema nervoso central, para tratamento de depressão, pânico, ansiedade e estresse, entre muitos outros desequilíbrios. Um cenário perigoso quanto ao ato da automedicação, em alguns casos. Tudo relacionado à insegurança que paira nesses tempos sombrios.
Mesmo antes da pandemia, o Brasil já era considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) o país mais ansioso do mundo. Mapeamento da entidade dá conta de que, no fim de 2019, 19,4 milhões de brasileiros tiveram diagnóstico de transtornos ansiosos, incluindo fobias, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), estresse pós-traumático e ataques de pânico.

Problemas emocionais
Quase 10% da população brasileira convive com problemas emocionais ligados à ansiedade, e o Brasil também é o país na América Latina com o maior índice de indivíduos com o desequilíbrio – no mundo são 264 milhões de pessoas.
Quanto à depressão, 12 milhões de brasileiros apresentam a doença, ainda segundo o levantamento do ano passado.
Nos últimos anos, a incidência de depressão aumentou 18% no mundo e quase 6% no Brasil.

Dicas para lidar com a ansiedade na pandemia

Dica 1:
Realizar a respiração quadrada, uma tarefa que consiste em inspiração, pausa cheio, expiração e pausa vazio. O movimento pode ser feito da seguinte forma: inspiramos contando até quatro, seguramos o ar nos pulmões por mais quatro segundos, expiramos por mais quatro segundos e seguramos sem ar contando até quatro.
É importante que a respiração quadrada seja realizada enquanto treino e não somente nos picos de ansiedade.

Dica 2:
Entender que a ansiedade atinge um ápice, mas depois abaixa naturalmente, lembrando que o ápice depende da história de vida e da construção psíquica de cada um.
Por isso, é importante reconhecer quais os sinais do corpo e da mente que já estão em sofrimento: ficar sem ar, respiração mais curta e pensamentos acelerados são exemplos comuns.

Dica 3:
Trilhar um caminho de autocompaixão em vez de julgamento. Um exercício importante neste momento é pensar sobre você o mesmo que se pensa de uma pessoa querida. Por exemplo: se algo negativo acontecesse com alguém que gostamos, o que falaríamos para essa pessoa? Em vez da cobrança dura, é importante visualizar quais conselhos de compaixão poderiam ser aplicados para nós mesmos.

Dica 4:
Por fim, vale dizer que embora muitos consigam conduzir sozinhos melhorias relacionadas à ansiedade, é natural precisar de ajuda profissional – e não há nenhum mal nisso

Depressão dos pais durante quarentena afeta crianças

Para a maioria dos pais, dizer que a quarentena devido à pandemia de Covid-19 é estressante seria um eufemismo dramático. A combinação de pressão financeira, perda de cuidados infantis e preocupações com a saúde é extremamente desafiadora para as famílias.
Prevê-se que os problemas de saúde mental aumentem dramaticamente como efeito secundário da Covid-19 e das medidas que foram postas em prática para contê-la.
As consequências em longo prazo para as crianças do aumento de estresse, ansiedade e depressão dos pais estão apenas começando a ser compreendidas.
No entanto, pesquisas anteriores nos dizem que crianças expostas a esses problemas têm maior probabilidade de ter problemas de saúde mental, além de desenvolverem um risco aumentado de problemas de aprendizagem e comportamento e redução da mobilidade econômica ao longo da vida.

Estudos
Em estudos atuais, foi observado que mães grávidas e aquelas com filhos pequenos estão experimentando aumentos de três a cinco vezes nos sintomas de ansiedade e depressão autorrelatados. Um histórico de doenças mentais, conflitos domésticos atuais e estresse financeiro foram associados a pior saúde mental das crianças.
Em crianças pequenas, esses números são especialmente preocupantes, pois elas são altamente vulneráveis a doenças mentais maternas devido à sua dependência quase total de cuidadores para atender às necessidades básicas de saúde e segurança.
Altas taxas de doença mental dos pais combinadas a crianças passando mais tempo em casa devido à Covid-19 apresenta riscos múltiplos, incluindo alterações na função do sistema de estresse infantil, taxas mais altas de problemas de saúde física e deficiências cognitivas.

Estresse parental
O estresse parental associado à doença mental pode levar a interações negativas, incluindo disciplinamento severo e tratamento menos responsivo às necessidades dos filhos. Para os pais, a depressão contribui para problemas de saúde e baixa qualidade de vida.
O suicídio é uma das principais causas de morte de mulheres em idade fértil – números que pode aumentar caso os altos índices de problemas de saúde mental continuem sem solução.

Sistema precisa de melhorias urgentes
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros líderes do bem-estar infantil destacam a natureza crítica de priorizar os serviços de saúde mental dos pais, permitindo que desenvolvam a capacidade de atender às necessidades de saúde e desenvolvimento dos pequenos.
Isso porque, lidar com a doença mental dos pais não apenas atenua os efeitos prejudiciais à saúde infantil, mas também desenvolve a capacidade dos pequenos de lidar com fatores de estresse, como transições escolares e outros eventos imprevisíveis.
Existem tratamentos eficazes para doenças mentais dos pais, mas as dificuldades de acessá-los tornaram-se ainda maiores durante a Covid-19. As barreiras existentes, como o alto custo da psicoterapia e das demandas de creches, foram exacerbadas devido ao distanciamento físico, fechamento de serviços existentes e fechamento de creches e escolas.

Tratamento formatos online
Mudar as opções de tratamento para formatos online também tem sido um processo vagaroso que requer, além de investimentos substanciais para ser fornecido em larga escala, o refinamento do programa em resposta às necessidades atuais.
Outro problema é que a maioria dos modelos de telessaúde existentes não tratam simultaneamente a doença mental dos pais e seus riscos [na criação dos filhos] — mesmo existindo evidências substanciais da importância de abordar ambos.
Embora muitas das causas da saúde mental precária dos pais estejam fora de nosso controle, existem pequenos passos que podem ser tentados. O primeiro é acreditar que suas emoções fazem sentido.
Esse é um momento de dificuldade sem precedentes que vem com estresse, tristeza e ansiedade. Você não está sozinho nesses sentimentos e [nem é o único] se perguntando sobre o que virá a seguir. Muitos outros pais também estão se sentindo angustiados e tentando resolver o problema de como cuidar de si mesmos e de suas famílias.