Relatório diz que universidades não sabem lidar com o assédio

Pode ser exagero” e “Não vai dar em nada” são duas frases bem comuns quando se fala de assédio sexual dentro dos muros de uma faculdade. O fato é que em (quase) nenhum lugar do mundo as universidades sabem lidar com o problema. E o relatório recém-divulgado pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA, baseado em dois anos de pesquisas, afirma que mudanças radicais precisam acontecer, e o mais rápido possível.
Quando falamos de cursos específicos, o panorama ainda é mais grave. As ciências exatas possuem campus universitários hostis para mulheres, segundo o relatório – que pontua, ainda, que a situação é similar na medicina.
De acordo com a pesquisa, as fontes de assédio e sexismo são múltiplas: ele pode partir de professores, colegas, e até pacientes, deixando tanto estudantes como profissionais mais vulneráveis. E o resultado é pessimista: “Não há evidências de que as políticas, procedimentos e abordagens atuais das universidades resultaram em uma redução significativa no assédio sexual”, afirma o texto.
O documento, composto de 311 páginas, é um marco político. É o primeiro relatório que une essas três organizações para falar de um assunto sério, de gênero, e que exige uma autocrítica intensa – afinal, as academias tiveram que admitir e estudar dificuldades graves que acontecem dentro de suas próprias instituições.

Polêmicas
Uma das grandes polêmicas é como tratar casos em que membros das Academias de Ciências – pessoas que costumam ter razoável prestígio em suas áreas de atuação – são oficialmente condenados por assédio sexual nas universidades em que atuam. Isso já é realidade. As condenações já existem – mas está longe de existir consenso sobre como as Academias devem se posicionar. Expulsar os membros? Puni-los de outra forma? Ambas as alternativas são complexas, além de demoradas.
A publicação do relatório, portanto, é um sinal do compromisso das Academias com o problema – ainda que estejam longe de resolvê-lo. É um ponto positivo, porque traz o prestígio dessas instituições para dar respaldo ao debate.
“Relatórios das Academias Nacionais carregam um peso substancial”, confirma Carol Bates, reitora associada da Faculdade de Medicina de Harvard (e co-autora do artigo “É hora de tolerância zero para o assédio sexual na medicina acadêmica”).

O que diz o relatório
De acordo com os dados apresentados pelo documento, a área de pesquisa acadêmica é a ocupação com o segundo índice mais alto de assédio sexual. Só perde para trabalhos em bases militares.
58% dos funcionários (entre mulheres e homens) admitem que já sofreram assédio, diz o relatório. O documento também menciona que cerca de 20% das estudantes de ciências, mais de 25% das estudantes de engenharia e mais de 40% das estudantes de medicina afirmam ter sofrido assédio de professores ou funcionários.
Qual seria a grande limitação na reação das universidades a esses problemas? Segundo o relatório, muitas instituições acabam não se preocupando em criar normas e medidas contra o assédio que sejam específicas ao ambiente universitário. Elas se atêm a garantir que nenhuma lei esteja sendo descumprida. E só. Nisso, acabam não intervindo na raiz local do problema.
Isso está, aos poucos, mudando. “Nós realmente temos que ir além da mentalidade de conformidade legal e pensar sobre as maneiras pelas quais podemos mudar o ambiente”, afirma Paula A. Johnson, presidente do Wellesley College e co-presidente do comitê que produziu o relatório.

Três tipos de assédio 

Três tipos de assédio sexual são identificados na pesquisa: coerção sexual (quando avanços diretos são feitos contra a vontade de alguém, que é pressionado a ceder ou se manter em silêncio), a atenção sexual indesejada (atitudes inapropriadas que criam um ambiente hostil e ameaçador à pessoa que é alvo do assédio) e assédio sexual por gênero (que é quando uma pessoa é tratada ou avaliada de forma distorcida e desigual com base no seu gênero).
Como esses três tipos de assédio se manifestam? Segundo o documento, as formas mais comuns de assédio na academia são comportamentos verbais (comentários e brincadeirinhas) e não verbais hostis, objetificação, exclusão e atribuição de inferioridade para as mulheres.
As consequências físicas do problema também são mencionadas no relatório: vítimas mencionam sintomas como depressão, distúrbios do sono, estresse cardíaco e até transtorno de estresse pós-traumático. O caso se agrava quando se trata de mulheres negras, lésbicas, bissexuais ou transexuais.
Essas doenças são mencionadas porque têm impacto direto na produtividade de qualquer profissional – e, na academia, a ideia da “ênfase no mérito” e na produtividade é especialmente forte para o progresso da carreira.
O problema é que essa percepção de que “mérito” é uma medida totalmente objetiva acaba reforçando injustiças, como diz o documento: “o sistema de meritocracia não leva em conta os declínios na produtividade da mulher [que sofre assédio] como resultado do assédio sexual. Isso pode fazê-la questionar seu próprio valor no campo científico”.
O relatório, porém, não traz só conclusões tristes sobre a situação. Oferece também algumas soluções plausíveis. Uma das sugestões importantes é a revisão dos sistemas de orientação acadêmica. O orientador é uma figura chave para o progresso de qualquer carreira científica.
Cria-se, naturalmente, uma hierarquia entre o orientador, um pesquisador sênior, e seu orientando, que só está começando. Nesse cenário, essa revisão precisa criar formas de proteger a(o) orientanda(o) caso surja, em meio a essa relação tão vital, uma situação de assédio.
A universidade precisa, ainda, promover confiança e credibilidade suficientes para que a vítima de um assediador de prestígio se sinta segura de que, se levar a denúncia até o fim, ainda terá uma carreira para onde voltar (e onde crescer) depois disso tudo. Só assim para quebrar a espiral do silêncio.