“Segundo Sol” alerta sobre doença pouco conhecida

Rochelle, personagem de Giovanna Lancelotti em “Segundo Sol”, portadora da síndrome de Guillain-Barré

Personagem Rochelle, interpretada por Giovanna Lancelotti, foi diagnosticada com síndrome de Guillain-Barré 

A vilã Rochelle, personagem de Giovanna Lancelotti em “Segundo Sol”, tem enfrentado uma doença pouco conhecida do público, mas bastante grave: a síndrome de Guillain-Barré.
A doença não tem uma causa única estabelecida, mas sabe-se que algumas condições podem precipitar uma reação imunológica que “agride” o sistema nervoso.
“Particularmente a capa dos nervos, que chama mielina. Essa mielina se descola do axônio. É como se fosse um fio desencapado e leva o paciente a apresentar alterações quer sensitivas ou motoras”, explica o neurologista Osvaldo Nascimento, da Universidade Federal Fluminense.
Os sintomas costumam ser motores. Na maioria dos casos, tem caráter ascendente, ou seja, começa pelos pés, “sobe” para as pernas e posteriormente atinge os braços. Há dificuldade para andar e manusear objetos, podendo chegar a paralisia da face, em que o indivíduo fica sem expressão facial.
Os sintomas sensitivos também podem estar associados à síndrome e podem ser desde dormência nos pés ou pernas e mãos, até mesmo dores distribuídas nestas regiões.

Reação imunológica
Algumas condições podem precipitar uma reação imunológica e essa reação “atacar” o sistema nervoso, mas não existe uma causa específica.
O Brasil registrou alguns casos de Guillain-Barré associados a infecção pelo vírus da zika. Isso acontece porque o zika altera o sistema imunológico e, em alguns casos, esta alteração ataca o sistema nervoso, levando à Síndrome de Guillan-Barré.
“Muitas pessoas apresentaram infecção pelo vírus zika e nem todas, apenas um percentual muito pequeno, e acabaram desenvolvendo a síndrome de Guillain-barré e outras complicações neurológicas relacionadas”, explica o neurologista.

Diagnóstico 

Não há um teste específico para o diagnóstico. Nascimento explica que síndrome é um conjunto de sinais e sintomas. No caso da Guillain-Barré, estes sintomas são clínicos nos primeiros dias, ou seja, não aparecerá em exames. Por isso, é difícil diagnosticar a síndrome.
“O médico precisa estar atento a isso, ao reconhecimento clínico. O neurologista tem uma intimidade maior com o diagnóstico, mas é importante que se considere que este paciente vai procurar a emergência, então é importante que o profissional da área de saúde tenha o conhecimento para ajudar a reconhecer e com isso direcionar para o tratamento médico adequado”, diz Nascimento.
O exame do líquido da espinha (líquido cefalorraquidiano) pode ajudar, mas somente após alguns dias. “As alterações vão surgir 10 dias, uma semana depois, quando há um aumento das proteínas no líquido. As proteínas ficam muito elevadas com as células normais. Essa dissociação: muita proteína, pouca célula, ajuda no diagnóstico”, explica.
Posteriormente, as alterações da condução nervosa também podem ser avaliadas. O exame de eletroneuromiografia, conhecido como os pequenos choques nos braços e nas pernas, acaba mostrando alterações indicativas de lesão da mielina.

Doença tem aumentado  no mundo todo desde 2015 

Como explica a neurologista Mirella Senise, a síndrome é uma doença autoimune inflamatória dos nervos, caracterizada por quadros de fraqueza muscular progressiva e ascendente, podendo levar à insuficiência respiratória e até mesmo ao óbito.
A síndrome é rara no mundo (1 caso para cada 100 mil), mas apresentou um aumento na incidência desde 2015, em todo o mundo. Os motivos para isso ainda estão sendo estudados.
Normalmente os pacientes apresentam antes uma doença bacteriana ou aguda viral, como uma simples gripe. Esse foi o caso da jornalista Renata Taffarello, que após uma infecção intestinal começou a desenvolver a síndrome. “Começou com dores nas costas, na parte dorsal. Procurei um ortopedista e depois um neurologista. Eles me diagnosticaram com protrusão discal”, conta.
Em poucos dias, Renata começou a perder a sensibilidade nas mãos e pés e decidiu passar com outro neurologista. Este deu o diagnóstico correto, feito a partir do exame de retirada de líquido da espinha e da eletroneuromiografia.

Fase Aguda

Segundo Mirella, o tratamento na fase aguda é baseado na administração de imunoglobulina para impedir a progressão da doença e fisioterapia para reabilitação.
Renata teve uma recuperação rápida e, em menos de dois meses, já tinha voltado a trabalhar. No período de reabilitação, fazia hidroterapia, fisioterapia e acupuntura quase diariamente.
Sequelas também ficam quando alguém tem um desenvolvimento muito progressivo da síndrome. “Conheci uma mulher que teve que aprender novamente a falar, andar e comer. Eu ainda tenho a falta de sensibilidade na ponta dos pés e sofro com um pouco de tensão muscular às vezes”, destaca Taffarello. As sequelas e o tempo de recuperação variam em cada caso.
Não existe prevenção específica para a doença, “Essa síndrome é considerada uma emergência médica e exige internação hospitalar assim que houver suspeita do diagnóstico”, reforça a médica.

Tratamento varia de acordo com  a situação clínica do paciente

O tratamento vai depender da situação clínica do paciente. Em alguns casos, o paciente pode ter paralisia da musculatura respiratória e alterações do ritmo cardíaco e precisa ficar internado da Unidade de Terapia Intensiva.
Geralmente, o tratamento é feito com imunoglobulina ou plasmaferese. “A imunoglobulina é administrada durante 5 dias e se aguarda a resposta clínica. Se isto não resolve, pode-se tentar, como é feito em alguns lugares do Brasil, a plasmaferese, ou seja, é quase uma troca do plasma para os anticorpos que não estejam envolvidos com a doença”, diz o neurologista Osvaldo Nascimento, da Universidade Federal Fluminense.
Segundo Nascimento, a maioria dos pacientes tem uma recuperação completa após o tratamento. “Cerca de 15% dos casos podem deixar alguma sequela e 5% podem chegar ao óbito por causa da gravidade, são muitas alterações a nível respiratório, cardíaco, permanência na UTI. Morre-se até mais por complicações e infecções intercorrentes”, explica.
A fisioterapia tem um papel importante para os casos mais graves da doença, especialmente os que precisam de internação na UTI.
“A fisioterapia serve para evitar que não haja atrofia muscular, que se mantenha a motricidade das pernas e dos braços, mas só fisioterapia não resolve o problema”, relata Nascimento.

Atriz

Em seu Instagram, a atriz Giovanna Lancelotti comentou sobre a experiência com a personagem. “Essa semana começa uma nova fase na vida da Rochelle. Acredito que na da Giovanna também. Esse processo foi muito intenso e transformador para mim. Sempre bom deixar claro que eu não acredito que doença seja ‘castigo’ pra ninguém. Aliás, conheço pessoas muito boas que passaram por traumas e superações lindas, mesmo ‘sem merecê-las’. Acredito que qualquer obstáculo, decepção ou até doença, vem para ensinar. A busca é transformar, superar e evoluir com isso. Vem pra fortalecer laços antigos. E criar novos! É isso que estou tentando passar nessa reta final: ESPERANÇA!”, escreveu.
A atriz disse ainda que recebeu diversas mensagens de pessoas que já tiveram a síndrome: “Vocês não têm ideia do quanto me ajudaram e incentivaram com isso. Gratidão e respeito máximo por vocês e pela garra para enfrentar esse desafio”, completou.