Valorizar a diversidade beneficia empresas e melhora a sociedade

É necessário adequar os processos seletivos as deficiências, como entrevistar uma pessoa surda com um intérprete em libras

Esta matéria sobre diversidade surgiu quando Lucas Vigarani da Silva, 16 anos, aluno do 2º Ano do Ensino Médio da Etec “Professor José Ignácio Azevedo Filho”, na coluna Raio X desta semana, respondeu sobre o assunto preferido na rodas de amigos e citou: “Diversidade e acontecimentos recentes”, o que mostra que os jovens estão atentos a este tema. Ele é filho de Ângela Regina Cantareli Vigarani e Marco Antônio da Silva.
Há tempos a preocupação com a diversidade é debatida em vários setores da nossa sociedade e, nas organizações, não é diferente. A Lei nº 8.213, de julho de 1991, conhecida como Lei de Cotas, obriga empresas com mais de 100 funcionários, o preenchimento de 2% a 5% das vagas do quadro de funcionários com reabilitados ou pessoas com deficiência. No entanto, aplicar a diversidade nas empresas, definitivamente, vai muito além.
Abrir as portas das organizações para a diversidade atinge todos os fatores de construção social: idade, nacionalidade, posição social e orientação sexual. Em um mercado cada vez mais globalizado, a diversidade em uma empresa vai além de respeitar e aceitar as diferenças. É fundamental entender que uma equipe com diversos perfis fica mais rica em talentos, melhora os resultados da empresa e contribui para o sucesso empresarial.
Em um ambiente empresarial no qual se respeita as diferenças, automaticamente haverá redução nos conflitos e maior engajamento dos colaboradores. Uma pesquisa da Harvard Business revela que os conflitos são reduzidos em até 50% em relação às organizações que não investem em diversidade.
Com a melhor convivência dentro da empresa, acolhendo as diferenças, também fará com que os colaboradores se sintam mais seguros e acolhidos. Valorizando as diferenças, há melhorias no clima organizacional, os colaboradores ficam mais criativos e liberam seus potenciais.
Ainda segundo a pesquisa da Harvard Business, empresas nas quais o ambiente de diversidade é reconhecido, os funcionários estão 17% mais engajados e dispostos a irem além das suas responsabilidades.

Equipe multidisciplinar
Além disso, empresas que investem fortemente em uma equipe multidisciplinar, principalmente em um país onde há uma multiplicidade de raças, religiões e etnias. Tal investimento traz uma boa visibilidade na comunidade — na qual a organização está inserida — e incentiva outras empresas a fazerem o mesmo.
Com todos os benefícios citados, a valorização da diversidade no ambiente empresarial também melhora os resultados finais e os lucros da empresa de maneira significativa. Conforme uma pesquisa da empresa de consultoria e gestão, McKinsey & Company, empresas com diversidade étnica e racial têm 35% mais chances de ter rendimentos acima da média do seu setor.
Ainda de acordo com a pesquisa, organizações com diversidade de gênero, têm 15% a mais de chances de ter rendimentos acima da média.
Dados
Atualmente, movimentos sociais, marcas e empresas têm trabalhado a diversidade, inclusão e a igualdade de gênero em nosso país. Até mesmo a publicidade também tem se reinventado, mudando seu olhar, tentando uma maior identificação com os diversos públicos. Mesmo com avanços, os dados da diversidade no Brasil ainda não são animadores.
A ONU afirmou que no ano passado que das 16,2 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza no Brasil, 70,8% são afro-brasileiras. Também somos o 5º país mais violento para mulheres no mundo, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. Além disso, de acordo com um estudo realizado pelo Fórum Econômico Mundial, no ritmo atual seriam necessários 95 anos para que mulheres e homens atingissem situação de plena igualdade no Brasil.
A cada hora, um LGBTQ+ é vítima de violência física no Brasil, e a cada 26 horas um LGBTQ+ é assassinado. Sendo que a expectativa de vida para uma pessoa trans é de 30 anos. A maioria das crianças com síndrome de down passa a infância isolada por não ser aceita nas escolas, jovens não conseguem empregos e idosos ficam em instituições.

Poucos cargos de liderança
Ao longo de gerações, mulheres e negros também têm lutado por igualdade na sociedade e dentro das empresas. Mesmo com o feminismo ganhando cada vez mais espaço no país, elas ainda precisam enfrentar desafios como as desigualdades salariais, pouca representatividade nas empresas e a violência contra o gênero. Se tratando de uma mulher negra então, tudo fica mais difícil.
De acordo com uma pesquisa da PNAD Contínua, em 2018 o número de mulheres no Brasil é superior ao de homens. Enquanto a população brasileira é composta por 48,3% de homens, 51,7% são mulheres. Porém, elas representam somente 13,6% das vagas de liderança e recebem 70% da massa salarial obtida pelos homens.
Mesmo após mais de 130 anos da abolição da escravatura no Brasil, os negros enfrentam a luta pela igualdade, e muitos desses desafios estão relacionados ao mercado de trabalho. Mesmo representando 54% da população brasileira, eles ocupam apenas 4,7% das posições de lideranças nas empresas.
Esses dados foram divulgados por uma pesquisa realizada pelo Instituto Ethos e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Analisando a composição racial, social e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil, eles concluíram que, quanto mais se sobe na pirâmide dos cargos, menos representativa se torna a presença de negros e pardos.

LGBTQ+
Para quem ainda não sabe, LGBTQ+ é a sigla destinada para a comunidade formada por lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e queers. Essas pessoas lutam constantemente pela igualdade de direitos, porém, muitas acabam sendo excluídas ou nem mesmo convidadas para processos seletivos somente pela sua orientação sexual.
Estudos revelam que empresas com pessoas LGBTQ+ em cargos de alto escalão tem uma performance 61% maior em comparação a empresas sem profissionais de diferentes orientações sexuais, especialmente em áreas de responsabilidade social corporativa, recursos humanos e qualidade da força de trabalho.
Para entender um pouco do cenário atual de líderes LGBTQ+ em nosso país, um estudo da ONG americana OutNow revela que 1 em cada três gestores gays no Brasil já não sente medo de se esconder para seus líderes e pares, por exemplo.

Avanço
Parece pouco se compararmos com países como a Austrália, onde essa taxa chega a 51%, mesmo assim esses números já revelam um pequeno avanço, graças a empresas que valorizam a diversidade no Brasil.
Mesmo obtendo avanços, ainda existem muitos desafios a serem alcançados. Uma pesquisa feita com 230 profissionais LGBTQ+ de 14 Estados brasileiros, na faixa etária de 18 a 50 anos, revela que 41% dos LGBTQ+ afirmam ter sofrido discriminação por sua orientação sexual ou identidade de gênero no ambiente de trabalho; 33% das empresas não contratariam pessoas LGBTQ+ para cargos de liderança; 61% dos funcionários LGBTQ+ optam por não revelar sua sexualidade a gestores e colegas de equipe.

RH têm papel fundamental
Tratar a diversidade nas organizações ainda é um fator que gera muitas dúvidas e inseguranças não só aos empresários, mas também aos gestores de Recursos Humanos. Entender que trabalhar com colaboradores de diversos perfis hoje em dia não é mais uma opção, e sim, uma necessidade essencial para o sucesso de sua empresa
O primeiro passo é trabalhar com seus colaboradores essa nova cultura, reforçando o código de conduta de respeito ao próximo. Também é necessário que líderes influenciadores e motivadores trabalhem a inclusão do profissional na equipe com tratamento igualitário perante aos demais colaboradores.
Cabe ao RH fazer um levantamento de quão diversificada é a sua empresa. Caso a organização tenha um histórico de comportamentos discriminatórios, deve propor uma mudança nessa cultura por meio de campanhas educativas de conscientização, treinamentos específicos e até mesmo dinâmicas e palestras que trabalhem a inclusão no ambiente empresarial.

Colaboradores com necessidades especiais
Em relação a colaboradores com necessidades especiais, podem ser necessárias algumas adaptações físicas na empresa como, por exemplo, portas largas, corredores amplos, rampas, entre outras estruturações para cadeirantes. Já os profissionais com deficiência auditiva precisarão que a equipe saiba se comunicar por meio da linguagem de sinais.

Processo seletivo igualitário

Realizar um processo seletivo que valorize a diversidade com a inclusão de pessoas de diferentes origens, crenças, etnias, classes sociais, entre outras diferenças, no ambiente empresarial pode ser um desafio para o setor de RH. Por isso é necessário estudo, estrutura e planejamento.
Muitas vezes, o profissional de recursos humanos não está preparado para selecionar e recrutar pessoas com deficiência, mas o fazem de forma inadequada, apenas porque é lei. Por isso, é necessário adequar os processos seletivos as deficiências, como entrevistar uma pessoa surda com um intérprete em libras. Da mesma forma, é preciso estudar as leis trabalhistas e as que abordam temas relacionados às minorias.
A diversidade nas empresas traz resultados financeiros e ajuda na solução de desafios que não seriam possíveis se todos tivessem as mesmas características e vivências semelhantes. Além também de trazer ganho cultural e contribuir para o respeito ao próximo e uma visão mais igualitária da sociedade.