Vídeo: Coordenadora do ASA fala sobre relação com Ituverava

Luiza Helena Ferreira acredita que investimentos em empresas será essencial para o futuro da cidade

A coordenadora do Grupo ASA, Luiza Helena Ferreira

Nessa semana, a Tribuna de Ituverava dá continuidade à série de entrevistas sobre o futuro do município. A entrevistada da semana é a coordenadora do Grupo ASA, Luiza Helena Ferreira, que falou sobre sua relação com a cidade, o trabalho voluntário que desenvolve e o que espera do futuro do município. Confira:

Apresentação
“Meu nome é Luiza Helena Ferreira, tenho 72 anos, nasci em Miguelópolis e sou a terceira filha de João Ferreira Bento e Amélia Ferreira Lima. Nós éramos em cinco irmãos, mas infelizmente três já partiram, então têm apenas o meu irmão João Luís Ferreira eu.
Nasci em uma fazenda e estudei em escola rural. Minha primeira professora foi a Dona Anita, que me alfabetizou e morou em minha casa por dois anos. Ela vinha todo fim de semana para Ituverava e na segunda-feira voltava para dar aula.
Nessa época, fiz até a quarta série. Depois de algum tempo, voltei a estudar, terminei o Ensino Fundamental, o Ensino Médio e o curso superior de Pedagogia, em Ituverava. Em seguida, comecei a dar aula no Capitão Inidio, depois fui para a William Amim e para a EMEF ‘Humberto França’, como professora substituta.
Foi nessa escola que, usando uma expressão popular, fiz minha ‘cama’. Depois fui para Mauá, onde fiz um concurso que, na época, reuniu 50 mil professores. Fui aprovada e fiquei três anos em Mauá, sendo que foi um aprendizado muito grande e até hoje tenho contato com meus alunos”.

Trabalho voluntário
“Naquela época eu já fazia trabalho voluntário: toda quarta-feira eu descia a favela e visitava três ou quatro alunos, sempre acompanhada dos alunos maiores. Na época, eu havia feita uma cirurgia na perna e acabei a ‘estragando’ lá, pois descia e subia pela favela, subia muitos degraus na escola e caminhava muito para pegar ônibus circular.
Infelizmente o que eu dizia aos meus colegas de trabalho era que nós, professores, estávamos cavando a nossa própria cova e um dia iríamos cair nessa cova e não teríamos condições de sair. Eu dizia ‘eu vou estar aposentada, mas veja bem o que vocês estão fazendo com o magistério e com o professor’, porque professor, para mim, é mãe, é ideal, é amor. E hoje nossas escolas, onde estão? Onde estão os nossos professores? Infelizmente chegamos nesse ponto”.

Carreira
“Por onde eu passei, eu sempre joguei uma sementinha e, graças a Deus, em todos os lugares floriu. Depois de três anos em Mauá, fui para Pradópolis, onde tive o meu melhor ano de magistério, porque lá a psicóloga e a assistente social queriam fazer um trabalho com crianças que vinham do Nordeste, que tinham pais que cortavam cana e que tinham dificuldade de aprendizagem. No segundo dia de reunião, eu levantei a mão e disse que queria fazer esse trabalho.
A escola na época era muito bem assessorada, pois a Usina São Martins pagava fonoaudióloga, assistente social, psicóloga, médicos, dentistas e tudo mais que fosse necessário. Consegui, inclusive, fazer viagens junto aos alunos para a Unicamp, o bosque, a Coca-Cola e o Shopping. Se as pessoas soubessem o que é ser professor e o valor que tem esse profissional, a situação estaria bem diferente desse caos”.

Experiências
“De Pradópolis, me mudei para Guaíra. Nessa época, minha perna deu problema e eu vivi mais de licença. No entanto, mesmo assim trabalhei bem em Guaíra durante um ano, em uma escola de elite localizada no centro, pois naquela época a escola pública tinha valor e eu, sendo prima da dona Altina, uma professora de matemática muito conhecida na cidade, fui muito bem recebida.
Peguei aulas nessa escola e em outra, mais afastada, em que as crianças tinham problemas de todos os setores. Eram realizadas diferentes, mas no final do ano tivemos uma festa em que os alunos da escola rica me ajudaram a levar alegra e diversão aos estudantes da escola pobre. Eles se vestiram de palhaço e fizeram uma bonita festa, que foi filmada e tenho a gravação até hoje.
Eu sempre rezei com meus alunos, sempre falei de Deus para eles e, inclusive, sou corintiana por causa de um aluno de Mauá, que não tinha companhia, já que ninguém queria ser corintiano. Então, no momento em que os alunos deveriam levantar a mão e falar sobre eles em um trabalho em sala de aula, eu levantei a mão e disse ‘Eu e o Fábio somos corintianos’, e o amor é lindo”.

Mudanças
“Foi nesse período que minha perna deu muito problema. Fiquei de licença até que os médicos me mandaram para casa aposentar. Eu peguei o Hospital do Servidor Público e coloquei de cabeça para baixo: vieram psicólogas, advogados e um pessoal do Arnaldo Jardim que não lembro agora. Todos vieram me ajudar, pois eu não queria licença, eu queria operar e ficar boa. Mas infelizmente não pude operar até hoje, ou felizmente, não sabemos os desígnios de Deus.
Dr. Ecyr, meu baixinho querido, amigo de meu pai, meu irmão, muita saudade dele, me trouxe para um cargo comissionado que tinha na Delegacia de Ensino. Fiquei um ano e meio na delegacia, mas não dei conta. Eu não gosto de papel, eu gosto de gente. Papel não foi feito para mim, então agradeci o Dr. Ecyr e me readaptei para começar a trabalhar na escola ‘Fabiano Alves de Freitas’, onde encontrei a Maria do Carmo Amorim, excelente profissional, e começamos a trabalhar com as crianças que precisavam de reforço e apoio. Eu saía do ‘Fabiano’ de bengala e ia perto da Rodoviária atrás de dois alunos que, infelizmente, sabíamos que estavam envolvidos com drogas. Um deles está no plano espiritual e o outro está preso. Depois de vinte anos, a mãe apareceu aqui outro dia para me agradecer pelo que fiz pelos filhos, mas infelizmente ela também não deu conta de resolver a situação”.

Trabalho voluntário
“Comecei o trabalho voluntário em Ituverava onde hoje é a Creche do Bicão, local em que distribuíamos, aos sábados, leite e pãozinho com carne à população carente. Também rezávamos, falávamos de Deus e ouvíamos os problemas deles. Foram 16 anos e éramos um grupo grande coordenado pelo José Abud, que também já está no plano espiritual. Nesses anos, todos os sábados, independente de chover, fazer frio ou fazer calor, nós estávamos lá.
Também coordenei a Feira do Livro Espírita, o que me traz muita saudade de Sr. Adhemar Cassiano, que divulgava a Feira para nós. Ele sempre me atendeu com muito carinho e nós conversávamos bastante”.

Aulas particulares
“Como falei anteriormente, tinha feito minha ‘cama’ na escola Humberto França e quando voltei para Ituverava, comecei a dar aula particular. Foi uma benção, pois eu trabalhei com alunos especiais, consegui alfabetizar um com síndrome de down e outro com déficit de atenção, sendo que esse último hoje é funcionário da prefeitura e tirou carteira de habilitação. Os dois são os amores da minha vida e emocionaram os familiares quando conseguiram ler e escrever para os seus pais.
Trabalhei também com alunos ‘normais’, dando reforço. Só parei por dois motivos: eu achei que estava defasada para trabalhar com ‘especiais’ e, por conta do Grupo ASA, que estava começando naquela época com minha irmã e eu, trabalhando com apoio espiritual”.

Primeiros passos do ASA
“Soube do ônibus que levava pacientes para fazer tratamento de câncer em Barretos e fiquei sabendo da existência da Rita e da Lili, da Sólida Seguros. Fui atrás delas, pois a Lili fazia tratamento em Barretos e eu tinha a ideia de montarmos algo aqui. Elas me informaram que será montada em Ituverava a AVCC (Associação de Voluntários de Combate ao Câncer), o que me deixou muito feliz. Queria colocar essa informação nos jornais, na Tribuna, Progresso, queria estourar a boca do balão, porque eu sempre sou muito agitada. Mas a Rita falou que gostaria de convidar a turma de faculdade dela, então convidamos cerca de 6 ou 8 pessoas para essa reunião e ela foi ótima. Foi no Salão Nobre da Faculdade, não pudemos colocar nos jornais, porque a Rita não permitiu, mas lá nasceu a AVCC em Ituverava, tendo a Rita como presidente.
Nós fizemos a primeira reunião, fizemos a segunda reunião e eu só pedi à Rita para que fosse na minha casa, pois a maioria das pessoas poupa dinheiro, eu poupo perna. Na segunda reunião, ela pediu que eu fosse, pois, caso contrário, eu não poderia pegar o cargo, pois a Lili estava fazendo tratamento. A Lili é uma linda mulher, e estava fazendo faculdade. Então, eu disse ‘Rita, coloca em reunião, se o pessoal topar, tudo bem’. Isso foi em abril de 2000”.

Grupo ASA
“Em 21 de Abril de 2000, nasceu oficialmente o Grupo ASA, no papel, com estatuto, com CNPJ, e essa burocracia que eu não gosto, mas que infelizmente tem que ter. Eu continuo presidente até hoje, já tive vontade de sair, já deixei, já falei ‘tal dia vai ter reunião de presidência’, mas de uns quatro anos para cá, eu disse ‘vou ficar’. Barretos não gosta muito disso. Eles gostam que a presidência mude, mas nós estamos ajudando Barretos e não Barretos nos ajudando.
Estamos no ASA, que ficou mais de 12 anos na minha casa. Eu não tinha garagem, eu não tinha sala de hóspedes, eu não tinha sala de visitas, o que deixou minha casa limitada. Estava tudo muito apertado na minha casa. Eu gostaria que os pacientes nos visitassem, mas em casa eu achava difícil, até que certo dia eu vi esse terreno, que era uma ‘Floresta Amazônica’, e falei ‘olha, esse terreno vai ser do ASA’.
Tivemos uma proposta, eu e o Rivaldo da Colorado Máquinas, que era a seguinte: se nós vendêssemos 10 consórcios de um trator, nós ganharíamos uma moto. Nós gastamos um ano e meio para vender esses consórcios. O último eu comprei, pois já não aguentava mais. Então eles mandaram a moto, que era muito boa, mas na época valia cerca de R$ 5 mil reais. Tínhamos uma reserva, mas não era suficiente. Então a Marta Macedo, tesoureira do Grupo ASA, e eu resolvemos fazer uma rifa. Nós fizemos dez mil números de uma rifa a R$ 2 e demos um prazo para o pessoal vender, como empresários, voluntários e até mesmo os nossos pacientes. Vendemos todas as rifas em um mês e meio e, com o dinheiro, conseguimos comprar o terreno”.

Eventos e obras
“Começamos a fazer bazares, chás beneficentes e festivais de bolos, sendo que me recordo que um deles, um empresário comprou o bolo feito pela esposa por R$ 600, o que nos ajudou muito.
Outro momento que me marcou foi quando eu estava na Prefeitura, bastante preocupada com a construção da sede, aguardando ser atendida pelo Rafael da Silva, que nos ajudou bastante. Então, um empresário que eu sequer conhecia me viu naquela situação de preocupação, conversou comigo e ficou comovido. No domingo seguinte, ele foi até a minha casa, acompanhado da esposa e do filho, entrou e disse que arcaria com as despesas de cimento, pedra e areia durante toda a construção. Foi por isso que construímos rápido, porque o amor é lindo.
Construir a sede do Grupo ASA é um sonho. Hoje a entidade é minha vida e fazemos dois bazares solidários da pechincha, sempre com grande ajuda da população, para que possamos vender itens de qualidade a preços baixos. Quando sobra peças, as encaminhamos para a população de uma favela em Barretos e para uma igreja em Uberaba.
Esse bazar ajuda muita gente na parte financeira. Inclusive, faremos em outubro, o 19º Bazar da Pechincha. O primeiro foi na sala de reunião, com piso no cimento, só tinha as paredes, no sol. Já hoje o nosso bazar é famoso. Brinquei com o Azor de Faria que o bazar que vai ficar internacional, pois já vêm pessoas de cidades da região como Guará, Aparecida do Salto, São Benedito da Cachoeirinha, Aramina e Igarapava, mas também recebemos doações da Alemanha e o amor é lindo.
Fazemos anualmente dois chás beneficentes que também ajudam muito. Mas o que mais gosto é a Campanha de Doação de Sangue. No dia 11 de agosto, por exemplo, nós fizemos a 54ª Campanha de Doação de Sangue e foram 47 pessoas para doar. São 54 campanhas para Barretos e quando nós fizemos a 50º, liguei para Barretos conversei com o chefe do hemonúcleo e disse que eu queria fazer uma camiseta em comemoração às doações. Então, ele me disse ‘é uma honra ter o trabalho do Grupo ASA, pois cada doador salva três vidas, então, nessas 50 campanhas, vocês já salvaram mais de 6 mil pacientes’.
Também é importante lembrar que, na época do Leite e Pão, eu também ajudei no Lar Francisco de Assis, durante oito anos, servindo sopa solidária”.

Desemprego
“A situação do desemprego é muito séria no Brasil inteiro, mas acho que a solução aqui em Ituverava seria que as empresas investissem aqui, afinal, temos as faculdades que capacitam os jovens. Mas e quando o jovem termina a faculdade? Para onde ele vai? Então precisamos de empresas sólidas, firmes e de empresários que ainda possam acreditar que a nossa cidade tem potencial de melhorar em 100%.
Temos que trazer empresas, assim como acontecia antigamente, quando não havia ninguém desempregado. Nossa expectativa agora é que os empresários e os órgãos públicos invistam no desenvolvimento de empregos. Precisamos de um distrito industrial e de incentivo. Já perdemos empresas para outras cidades, então precisamos investir e acreditar nesse distrito industrial. Tudo pode acontecer, basta ter boa vontade, acreditar e confiar porque a providencia divina vem”.

Saúde

“A nossa saúde é excelente. Temos a Santa Casa, o AME, o Hospital São Jorge e a Unimed Norte Paulista, que, felizmente, tem muitas pessoas conveniadas, que não precisam do SUS. No entanto, nosso SUS precisa de melhorias e mais atenção. Ele está carente de amor e de profissionais.
Vale lembrar que nossa situação ainda é muito melhor que a de outras cidades, mas acredito sempre que dias melhores virão e temos que procurar sempre evoluir. Quando você confia, você faz e você recebe”.

Tribuna de Ituverava

“Em relação aos 70 anos da Tribuna de Ituverava, primeiramente quero fazer uma homenagem ao Sr. Adhemar Cassiano, que me ajudou muito a divulgar a Feira do Livro Espírita. Depois nós montamos o ASA e ele também nos ajudou, portanto, minha eterna gratidão ao Sr. Adhemar e à sua família. A Tribuna de Ituverava está de parabéns e peço que continuem nos ajudando nas divulgações, pois até agora sempre nos ajudaram, seguindo os passos do Sr. Adhemar, que era uma pessoa muito educada, fina, que dava gosto em conversar, com sua voz baixa, que cativava e conquistava.
Parabéns, Tribuna de Ituverava, pelos 70 anos e que possam continuar na caminhada do Sr. Adhemar Cassiano. E, se lá na frente, encontrarem algum empecilho, que sejam firmes e fortes e passem por esse problema, afinal, a Tribuna é um presente de Deus para Ituverava”.

Ituverava

“Ituverava antigamente era uma cidade acolhedora, promissora, uma cidade de futuro, que estava perto de Ribeirão Preto e ao lado da Via Anhanguera. Naquela época, o pessoal fazia, investia e tivemos, durante muitos, anos o Sr. Takaeuki Maeda, que empregou muita gente.
Eu não morava aqui, morava em Miguelópolis, vim para cá em 80, em 83 eu saí e voltei em 89 mais ou menos. Mas mesmo assim, lembro-me muito da praça onde hoje é o Centro Cultural, onde meu avô morava em frente, o Sr Américo Brasiliense da Mota, então naquela época era uma cidade gostosa. Na década de 80, quando mudei para cá, era diferente de hoje, era uma cidade segura, que tinha empregos, tínhamos empresas, muita coisa fechou, muita coisa foi embora, mas era uma cidade muito boa, pena que ela não conseguiu a manter a mesma caminhada nos dias de hoje”.