Vídeo: Médico fala sobre passado, presente e futuro da cidade – Parte 1

José Antônio Hiesinger Rodrigues muito respeitado e admirado, devido à sua inteligência e humildade

Dando continuidade à série de entrevistas com personalidades locais a respeito do futuro do município, a Tribuna de Ituverava tem como entrevistado nesta semana, o médico e professor, José Antônio Hiesinger Rodrigues.
Ele relembrou a infância e juventude em Ituverava, faz uma análise da cidade no passado e sobre o que espera para Ituverava no futuro. Confira na íntegra:

Apresentação
Eu me chamo José Antônio Hiesinger Rodrigues, sou filho de José Franco Rodrigues, ex-diretor de escola em Ituverava, ex-professor e ex-vereador, e de Silda Vidoto Hiesinger Rodrigues, que foi diretora de escola, professora e secretária de Municipal de Educação. Sou casado há 32 anos com Roseli Rodrigues Brunheroti e tenho as filhas Aline Brunheroti Rodrigues, que cursa Moda, e a Júlia Brunheroti Rodrigues, que está no quinto ano de Medicina em Ribeirão Preto”.

Formação e atuação
Formei em 1976, pela Faculdade Federal de Medicina de Uberlândia. Depois fiz residência no Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto, posteriormente fiz pós-graduação, depois mestrado na USP e hoje sou médico assistente e professor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.
Trabalho também na cidade no Instituto de Radiologia, e nos finais de semana atendo da CLUII – Clínica de Ultrassom e Imagem de Ituverava, e no Hospital Maternidade de Ituverava (São Jorge).

Ligação com Ituverava
Sou natural de São José dos Campos, mas vim para Ituverava com 4 anos de idade, portanto sou joseense de nascimento, mas ituveravense de coração. Inclusive, hoje, com muito orgulho, tenho o título de Cidadão Ituveravense”.
Tenho muitas recordações, pois na época, lembro-me que a economia da cidade girava em torno da agricultura, especialmente o café. Meu pai dizia que era uma cidade tradicional de cafeicultores. Depois acabou o ciclo do café e vieram o do algodão, soja e milho. Vale fazer um destaque especial ao Grupo Maeda, que muito alavancou nossa cidade em termos agrícolas, gerando muitos empregos aos ituveravenses.
A pecuária de Ituverava, nos anos 60 e 70, era destaque nacional, porque nós tínhamos gado de corte e leite. Embora eu fosse pequeno, lembro-me de algumas pessoas das quais se falavam muito, como Nélinho [Manoel Pontes Neto], Alceu Ribeiro Bueno, Célinho Leite [Eucélio Garcia Leite] e Nelson Luiz Urias da Silva, donos de grandes rebanhos ituveravense. Há ainda tantos outros que acabo esquecendo, pois, como diz um político, não se deve falar nomes das pessoas, pois você sempre acaba esquecendo alguma. Mas esses nomes são lembranças que tenho, porque se destacam muito, apesar de isso fazer entre cinquenta e sessenta anos”.

Armazéns Gerais
“Ainda, naquela ocasião, além da agricultura e pecuária, lembro-me que o que movia Ituverava eram os Armazéns Gerais. Recordo-me de nomes como Gino Contart [Higino Antônio Contart], Flávio Cavalari, Jorgito Chaebub, Toufic Cury, entre outros. Também havia aquelas famílias tradicionais da cidade que movimentavam, não só a parte de agricultura, pecuária, mas o comércio local, como a família Trajano Borges, a família do Dr. Paulo Borges de Oliveira, Nenê Gato [Joaquim Ignácio Barbosa], Arlindo Alexandre Barbosa, dentre muitos outros. Na parte econômica, Ituverava estava muito bem representada”.

Educação
“Na educação, tínhamos e temos até hoje o Grupo “Professor Antônio Josino de Andrade”, o Grupo Escolar Fabiano Alves de Freitas, e o Instituto de Educação “Capitão Antônio Justino Falleiros”. Foram uma base muito boa de educação e, principalmente, de amor aos símbolos nacionais, ao Hino Nacional e à Bandeira Nacional.
Recordo-me que dias atrás, atendendo uma paciente, ela me disse um fato que até me comoveu. Estávamos conversando de épocas passadas e atuais e ela me disse: Sabe, Dr. José Antônio, uma coisa que aprendi quando estava na Escola Fabiano e levo comigo até hoje é que quando ouço o Hino Nacional tocando nas partidas de futebol, fico sem conversar, ereta, em posição de respeito e tento passar isso para os meus filhos. Alguns até debocham de mim, mas foi essa base que aprendi, o respeito que devemos ter pelos símbolos nacionais”.

Colegial
O Instituto de Educação “Capitão Antônio Justino Falleiros”, tinha o Colegial, Científico e Clássico. Muitos profissionais de renome davam aula lá, como os professores Lannoy Dorin, João Beber Filho, Dr. Antônio Barbosa Lima, Manoel Lázaro Pereira, José Ferreira de Assis, Guido Krahenbuhl, Miriam Abud Francisco, Antonino Amendola, Nádia Chaebub, e tantos outros grandes mestres.
Qual a importância dessa base de educação que quero citar dos anos passados? É que naquela época, escola estadual era muito difícil em Ituverava. Já estávamos nos últimos meses, no terceiro trimestre do ano letivo, e muitos colegas tinham dificuldade e eram reprovados realmente. Então eles iam para Ribeirão Preto, para as escolas particulares para poderem ser aprovados, o que é o inverso do que acontece hoje.
Ituverava tem tradição no quesito educação, pois quantos colegas saíam direto daqui para a USP de Ribeirão Preto. Lembro-me do Miguel Moisés Neto, que hoje é médico assistente na área de Nefrologia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, e do Eurípedes “do Hotel Santa Rita”, que entrou direto no ITA, na Mackenzie e na Poli. Há ainda muitos outros que saíram daqui sem frequentar cursinhos e foram para grandes faculdades/universidades, só com aquela base de educação”.

Saúde
“Recordando a área da saúde, lembro-me que tínhamos a Santa Casa, e o antigo Hospital do Dr. Nelson [Nelson Soares de Oliveira]. Tínhamos também médicos de renome, como o próprio Dr. Nelson Soares de Oliveira, Dr. Eduardo Prado Figueiredo e Dr. Osvaldo Galvão Anderson. Depois tivemos o Dr. Archibaldo Moreira Coimbra, o Dr. Ecyr Alves Ferreira, o Dr. José Ângelo Sicca, e tantos outros. Na área farmacêutica, Alberto Morgan de Aguiar, então temos tradição em saúde”.

Jornalismo
“No jornalismo, como nós poderíamos esquecer do Sr. Adhemar Cassiano, fundador da Tribuna de Ituverava que em 2019 completou 70 anos. Fico até emocionado em falar sobre ele. Ainda tivemos, em anos subsequentes, o Moacir França, o meu pai José Franco Rodrigues, o José Mauricio Amendola e o escritor Celso Barbosa Sandoval.
Lembro-me também das reuniões no Bar do Katori (era instalado ao lado da Tina Butique, onde se discutia política, economia, o futuro de Ituverava e o futuro do país, por homens como o meu pai José Franco, Adhemar Cassiano, Moacir França, Cláudio César de Oliveira César e Dr. Nelson [Soares de Oliveira]. Lembro que depois fizeram até uma placa, o ou Terceiro Máximo Oficio Katori, porque tudo que se passava na cidade ou no país era referendado ali.
Lembro também desses anos passados, do Salão Rex, do Ernestinho Chiconeli [Ernesto Chiconeli], do Vagner Cabrini, do João Gonçalves Lino (“João Barbeiro”), dentre tantos outros. Tudo que se falava ou se sabia na cidade sobre política, em termos nacionais e internacionais, era discutido ali”.

Juventude
“Na época não tínhamos o WhatsApp, mas a comunicação era ‘boca-boca’. Um fato interessante da época, foi quando eu fazia o Tiro de Guerra, era o Cabo Hesinger, um dia foi disparado o alarme, saí correndo e vi um objeto voador não identificado que havia passado ali. Os dois rapazes da guarda não sabiam o que era, se era um disco voador, um satélite, um avião, mas viram passar e eu também vi, mas estava muito longe não dava para identificar o que era. Podia ser qualquer coisa, mas certamente era um objeto até então desconhecido. Pedi para o pessoal que estava de guarda junto comigo que não comentasse nada até porque isso de objeto voador não identificado é muito polêmico e muitas vezes chega a ser engraçado. Às 6h, tivemos a instrução, às 8h terminou e fui para a casa, pois às 13h começava a aula no colégio e eu estava no último ano do preparatório para faculdade.


Às 9h, o telefone toca, a Dagmar (in memoriam) que era nossa secretária atende e era o sargento Lecine querendo falar urgentemente comigo. Atendi e então o ouvir dizer ‘compareça imediatamente fardado, porque vi o Livro de Guarda e não tem nada escrito’. Eu disse então, ‘mas o que foi, sargento? Não aconteceu nada’. Ele me disse ‘aconteceu sim, o senhor está omitindo fatos. A cidade toda comenta que esta noite desceu um disco voador aqui no Tiro de Guerra e eu sou o último a saber’, era o primeiro fake news. As notícias corriam mais rápido que o WhatsApp de hoje e esse fato marcou muito e foi muito comentado na cidade toda. Em menos de meia hora, todos estavam sabendo”.


Cultura
“Em termos de cultura, antigamente, tínhamos dois cinemas: o Cine Regina e o Cine Rosário, que levavam filmes logo que eram lançadas, nos grandes centros. Tínhamos também a nossa Casa de Cultura que persiste até hoje. Lembro-me muito bem de espetáculos teatrais, com Maria De La Costa e tantos outros artistas famosos.
Foi onde eu comecei a namorar minha atual esposa Roseli [Rodrigues Brunheroti], em uma peça de teatro. Eu a convidei para o teatro e acabando o teatro começou então o nosso namoro no Centro Cultural de Ituverava.
Ainda falando em cultura, tínhamos o Vitor Martins, jamais podemos esquecer que em parceria com Ivan Lins fez a música ‘Minha Ituverava’ e tantas outras”.
*A segunda parte da entrevista será publicada na próxima edição da Tribuna de Ituverava.

A vida na cidade

“À noite, as famílias visitavam uma às outras, comentavam fatos locais, internacionais, e também tinham os jovens no Bar do Caiçara, o Pilec Bar, do Dig-Dim [Augusto César Ferreira]. Era uma outra realidade. Não quero ser saudosista, mas falo isso apenas para mostrar para o pessoal atual que Ituverava no passado, também foi muito importante, que também teve muita vida. Em termos políticos, tivemos aqui o Hélvio Nunes da Silva (‘Zito’), que levava o nome de Ituverava para a Assembleia Legislativa; o Lineu de Paula Leão, dentre muitos outros fatos que ficaríamos o dia todo comentando”.

Cidade contra Cidade
“Recordo também que em maio fez 50 anos, que nossa cidade participou do programa ‘Cidade contra Cidade’, com o Sílvio Santos. Era um programa em que cidades competiam entre si, eram escolhidas cidades semelhantes, do mesmo tamanho, mesma população e Ituverava foi participar do programa contra Olímpia e ganhamos. Um fato interessante para mostrar é que, desde aquela época, Ituverava já tem um povo unido e que gosta de levar o nome da cidade para frente, como acontece até hoje. No programa Cidade contra Cidade, fazia-se uma arrecadação e se dava um cheque que era destinado à Santa Casa da outra cidade. A cidade que desse o maior dinheiro, ganhava uma ambulância do Sílvio Santos e era citada nos programas como a cidade que teve maior arrecadação. Se fossemos transformar a moeda daquela época na atual, Ituverava havia arrecadado cerca de R$ 100 mil enquanto Olímpia havia arrecadado cerca de R$ 25 mil. Mesmo cidades maiores como Ribeirão Preto e Franca não haviam alcançado um valor tão alto, o que demonstra a união do povo ituveravense. A arrecadação foi conseguida com pedágios aqui na cidade, com livros de ouro e com rifas. Ituverava então ficou em destaque na antiga TV Tupi, não só quando ganhamos, quando tive o orgulho de participar de uma dessas provas, mas mostrar também que durante dois ou três meses Ituverava foi a cidade que mais havia arrecadado dinheiro.
Muita gente não acreditou, na época tinha um colega meu de Olímpia, o Horácio, hoje médico, que não acreditava em uma cidade como Ituverava ser capaz de ter arrecadado tanto, de o povo ser tão unido, tão solidário. Certo dia ele me convidou para ir até Olímpia. Entrei na Santa Casa e fiquei até emocionado, pois em uma grande ala da instituição está escrito ‘Esta ala da Santa Casa de Olímpia foi doada pelo povo de Ituverava’. Isso sem dúvida é um grande motivo de orgulho”.

Esportes
“Em termo de esportes, na época tínhamos a nossa gloriosa Associação Atlética Ituveravense. Nem sei quantas partidas de futebol assistimos, vieram times como a Internacional de Limeira, Inter de Bebedouro, Votuporanguense, Francana, Batatais e Ituverava, que era um timaço. Contava com o Vila Lobos, que era da antiga seleção peruana, tinha o Sudaco, que depois foi para o Batatais e depois para o São Paulo, e os pratas da casa, Carlito Santigo o Pilo [Odalmiro Zamoiri], Cuié [José Carlos de Freitas]e o Gibi [Antônio Mendes], que fez uma partida memorável contra Votuporanguense em uma decisão. Também não posso deixar de citar o Macarão [Paulo Nunes]. Para o pessoal que não viveu essa época, o Gibi seria hoje o Soteldo do Santos, com 1,60 m de altura. Na época, ele jogava contra o Votuporanguense em uma decisão de campeonato e tinha o irmão do Ditão, do Corinthians, de 1,90 m de altura, jogando pela Votuporanguense e ele subiu de cabeça e marcou dois gols de cabeça por cima e deu um show de bola.
Não era fácil como hoje, sustentar um time de futebol, mas o médico Dr. Ecyr Alves Ferreira, assim como o massagista, Homero Perez e o pai do Vitor Martins [Hebaldo Martins] que era o treinador, que trabalhavam com muito amor. Lembro-me que por volta de 1971, o Eduardo [Borges de Oliveira] filho do Dr. Paulo Borges de Oliveira, família tradicional, ganhava o campeonato de Tiro em Varginha, Minas Gerais, elevando o nome de Ituverava para o Brasil. Depois veio o Gustavo Borges, o nosso medalha de prata, que é o nosso ouro de Ituverava.
Falando dos clubes de Ituverava no passado, na época tinha a piscina do Dr. Haley [Haley Henares], onde todos iam aprender a nadar. Depois veio a Associação Atlética Ituveravense, onde haviam os bailes promovidos pelo Lions Clube, pelo Rotary Club, o Baile da Balança que todos compareciam, e também lembro-me muito bem quando Roberto Carlos, já ídolo nacional, se apresentou na Associação Atlética Ituveravense e isso alavancava o nome de Ituverava cada vez mais. Lembro-me de quando o Roberto Carlos, em um programa de TV, citou Ituverava falando que na próxima semana estaria se apresentando aqui na cidade, então Ituverava sempre foi valorizada culturalmente pelos cidadãos que existiam”.