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Saúde

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08/07/2013

CLÍNICA TRATA FAMÍLIA DE PACIENTES COM DIAGNÓSTICOS IMPACTANTES

De acordo com psicólogos, quando se trata a família, acaba provocando efeitos no paciente

O objetivo da nova modalidade médica é olhar especificamente para o trauma que desestruturou o paciente e sua família

Quando diagnóstico impactante de doenças graves – como câncer ou mal de Alzheimer – é descoberto, geralmente desestrutura o paciente e sua família. Junto com a dor, também podem surgir a negação – por parte do doente ou dos familiares – e culpa.

Foi para tratar especificamente parentes que se sentem despreparados para lidar com um diagnóstico difícil, a psicóloga Cláudia Barroso e a psicanalista Sonia Pires criaram o Bem-me-Care – SOS Family.

O serviço da clínica, em São Paulo, é um tipo de pronto-atendimento para os parentes. O tratamento leva de 1 a 7 encontros entre família e terapeutas. “A gente não trabalha os conflitos preexistentes; a idéia é olhar especificamente para o trauma que quebrou a família”, afirma Sônia Pires. “Na maioria das vezes, as angústias dos familiares ficam em segundo plano. O efeito existe, mas nem sempre se olha para isso”, diz Cláudia Barroso.

O atendimento tem uma regra: o paciente não pode participar. Sua presença poderia inibir os familiares a falar sobre a culpa ou a raiva que sentem em relação à situação.

Tratamento
Segundo as especialistas, o trabalho ajuda a fortalecer mecanismos para enfrentar a doença e, como resultado, pode até aumentar o sucesso do tratamento. “Se há negação da doença, o paciente deixa de ter o atendimento e a melhora que poderia ter. Quando você trata a família, acaba provocando efeitos no paciente, colabora com a adesão ao tratamento. Há um entendimento maior sobre a doença e o prognóstico”, afirma Cláudia.

Foi o que aconteceu com a professora aposentada Regina Diana Nunes, 56 anos. O marido dela, Luiz Carlos Ferreira, 61 anos, recebeu o diagnóstico de câncer de intestino no fim do ano passado.

“Aparentemente, ele recebeu bem a notícia, mas, quando saiu do consultório, parecia enlouquecido. Estava em total desequilíbrio. Perguntava Por que comigo?, e chorava muito”, contou a professora. “Ele não queria aceitar a doença e colocou na minha mão toda a responsabilidade por sua vida. Eu tinha que falar para ele beber água, comer, ele agia como se fosse uma criança, não seguia as recomendações médicas”, ressaltou.

Ela sugeriu que o marido fizesse terapia, mas ele não quis. Abalada, ela própria foi atrás de ajuda profissional. Depois disso, ficou mais tranqüila e auxiliou o marido a enfrentar a doença. “Vi o que era bom para mim e para ele. Mostrei o que ele não via, que poderia acontecer com qualquer um e que ele tinha um caminho a percorrer no tratamento, estava amparado”, completou.

“Paciente e família devem buscar ajuda”, diz psicanalista ituveravense
A Tribuna de Ituverava procurou pela psicóloga e psicanalista Eucelena Leite Ferreira, que integra a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) para falar sobre o que se chama “a dor dos outros”. Na opinião dela, não só a família precisa de apoio, como no trabalho desenvolvido pelas profissionais citadas, como também o paciente.

“Qualquer notícia de doença nos causa desconforto, preocupação, medo, insegurança. Quando se trata de uma doença grave ou fatal, além de sentirmos tudo isso, também podemos nos desorganizar, revoltar, desesperar, somatizar. Nessa situação tão desestruturante é muito importante que tanto paciente quanto família busquem um profissional habilitado que possa ajudá-los a lidar com a situação”, recomenda.

Segundo ela, um diagnóstico de doença grave implica que se pense na possibilidade da morte. “A morte é a plena consciência de nossa finitude, é nossa angustia básica. A concepção de ser humano, sujeito ou indivíduo, se constrói através da idéia de imortalidade. Morrer é um dado estruturante de toda nossa existência. Por defesa, tendemos a transformar a morte em algo impessoal – afinal, quem morre é o outro, a morte é do outro, afirmou.

“Essa atitude não nos permite a coragem de assumir a angústia diante dela, e nos impede de dar um consolo mais realista para a pessoa que poderá ou está prestes a morrer. Tendemos a fugir da dor da perda (perda da saúde, perda de alguém), da frustração, da nossa impotência, das nossas limitações. Esses sentimentos são vividos tanto nos casos com chances quanto nos casos sem chances de sobrevivência”, observou Eucelena.

Luto antecipado
No caso de pacientes terminais podemos chamar esse tipo de experiência de “luto antecipado”, pode ser repentino ou prolongado, mas é sempre muito estressante e doloroso.

De acordo com a psicanalista, quando é repentino, a família necessita de tempo para se reorganizar, se despedir, fazer seu luto. Quando é prolongado, com poucas chances de recuperação, os sentimentos são bastante ambivalentes, pois, ao mesmo tempo que não querem perder a pessoa amada, também não querem que o sofrimento se prolongue.

“Esse processo geralmente é vivido com muita culpa. Em muitos casos, tanto a equipe médica quanto a família se calam em sua própria dor, isolando-se e afastando-se do paciente, o que dificulta a sua melhora e a capacidade de lidar com seu estado atual”, ressaltou Eucelena.

Pacientes precisam de apoio para compartilhar medos e angústias
Afinal, como, então, ajudar a pessoa acometida pela doença? A psiscanalista ituveravense afirma que, em uma situação de períodos longos de internação é natural que o paciente vivencie uma perda de identidade, pois ele está sem o seu dia-a-dia, seus hábitos, sem seus pertences, seu trabalho, sua casa, seus brinquedos, amigos, escola, etc.

“Seu corpo e sua mente sofrem. Ele precisa ser ouvido, compartilhar seus medos, suas angústias, suas magoas, sua culpa por coisas que gostaria de ter feito e não fez. É importante ressaltar sempre, que ele fez o que lhe foi possível fazer. A escuta, por um profissional capacitado, pode possibilitar uma releitura de sua vida.

Reorganizar seus valores, contar sua história, suas conquistas. Ao ser ouvido, a experiência é de que ele é um ser falante – um sujeito, pois a fala é estruturante”, afirmou Eucelena.

Segundo ela, nos casos mais brandos, de possibilidade de cura, o paciente também pode se beneficiar desse tipo de escuta “para que possa lidar com emoções, fantasias, sentimentos que são desencadeados por essa experiência”, declarou.

Saiba como a morte vira instrumento pedagógico para refletir sobre a vida

A nova área das ciências humanas explora a busca pela felicidade
Na última terça-feira, a apresentadora Ana Maria Braga entrevistou, no programa Mais Você, da rede Globo, o especialista em cuidados paliativos Franklin Santana, que falou sobre a nova área das ciências humanas: a tanatologia, ou ciência da morte. De acordo com o especialista, o profissional que atua nesta área faz acompanhamento de pacientes que têm pouco tempo de perspectiva de vida.

Devido à correlação com o tema abordado com a psicóloga e psicanalista ituveravense, Eucelena de Paula Leite Ferreira, a Tribuna de Ituverava reproduz a reportagem publicada no site do programa global Mais Você.

Emoção e uma grande batalha à vista em Amor à Vida: Nicole, personagem de Marina Ruy Barbosa, descobriu que está com câncer na trama. A novela retrata a realidade de milhares de brasileiros que têm doenças terminais, em que as curas se tornam algo abstrato. Mas, o que fazer quando um paciente recebe a notícia que só tem mais pouco tempo de vida? No Mais Você, o especialista em cuidados paliativos, Franklin Santana, destacou que, antes de qualquer entrega, esses pacientes devem lutar pela sua vida! Antes das palavras do especialista, Ana Maria exibiu duas histórias comoventes: o médico Tércio Rocha, que luta há 12 anos contra a doença, e a aposentada Jusciane Ferreira, que há seis anos, não se entrega à doença. “A vida quer saber o que a gente quer dela, eu quero viver”, ressaltou Tércio.

Em conversa com Ana Maria, Franklin Santana comentou como são feitos os cuidados paliativos através da tanatologia, ou seja, acompanhamento de pacientes que têm pouco tempo de perspectiva de vida. “No Brasil, é um campo novo. Mas está começando a se desenvolver em algumas capitais”, disse ele.

“Nós observamos os pacientes que têm doenças graves, eles precisam de uma assistência mais controlada. Precisa de ajuda psicológica, questões sociais e principalmente questões espirituais. A questão da morte levanta para todos nós de onde viemos, para onde vamos. Por isso é importante um trabalho multifuncional para cuidar destas pessoas de maneira integrada”, explicou.

O médico falou sobre a proposta da especialidade: “Nós utilizamos a morte como instrumento pedagógico para refletir sobre a vida. Eu não preciso que a morte bata na minha porta para refletir sobre o que me torna feliz. Às vezes, a gente deixa a vida andando e lá na frente pensa que no que poderia ter feito. A morte é só um instrumento”, contou ele.

Segundo Santana, a ideia do tratamento é de fato trazer uma mudança na vida das pessoas. "Nós trabalhamos com pacientes, com escolas e com a sociedade de modo geral. Fazemos com que a morte não seja apenas um tabu”, discorreu, explicando a metodologia.

“Pense em três coisas que você gostaria de fazer se você tivesse três meses de vida, e seis coisas que você deixaria de fazer?! Mas tem que ser algo prático. Então, eu faço a mesma pergunta, mas no tempo de 24 horas. E realmente descubro as suas prioridades. A grande maioria responde que é passar mais tempo com a família ou com as relações afetivas”, destacou o especialista.

Como impedir que a família se desestruture diante da doença?Um grande desafio é impedir que a família se desestruture diante do diagnóstico da doença. Segundo a psicanalista, é preciso ajudar a pensar nos limites de cada um, da cura, do tratamento e do médico.

“Por exemplo, muitas vezes, a família culpa a equipe médica. Essa atitude decorre da tendência natural de negação, ou seja, a realidade é tão impactante que é preciso negá-la. Se isso não puder ser digerido, há possibilidade de fazer incontáveis trocas de médicos e isso não é bom”, disse Eucelena.

“Também deve-se reforçar para que o doente não seja infantilizado, pois isso é constrangedor e pode impossibilitar que o paciente tenha o mínimo de independência. Há também casos de muita revolta, de culpa (eu poderia ter feito mais por ele/a, poderia ter demonstrado mais o que sinto, etc). É importante focar sempre os aspectos positivos da convivência. Nos casos em que a família perde alguém, ela pode perder sua identidade familiar; começa haver confusão de papéis. É preciso paciência na tentativa de buscar uma nova identidade, apesar da dor e do vazio”, ressaltou.

No luto patológico (melancolia), de acordo com Eucelena, na maioria das vezes a pessoa não consegue refazer sua vida, permanecendo num estado profundo de tristeza, depressão, desvitalização, apatia, somatização. Nesses casos, segundo ela, é imprescindível procurar apoio profissional.

“Trata-se de momentos de turbulência, desespero, angústia, fragilidade e intensa dor. Cada paciente e cada família possui uma dinâmica, uma história, portanto reagem de maneiras diferentes. Não há receitas, nem fórmulas mágicas para lidar com o sofrimento, no entanto, se o paciente e a família puderem ser ouvidos, eles encontrarão acolhimento e melhoria na sua qualidade de vida”, concluiu a psicanalista ituveravense.

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