A história do homem que pensava viver em um filme

Jonas, coitado, viu tanto filme que agora pensa que é crítico. E pior, acredita que vida e cinema são uma coisa só. Dia desses, deu seis de dez estrelas para nosso jantar em família. Ao fim da refeição, saiu do silêncio de mais de trinta minutos e disse que os diálogos não convenceram, que a personagem da mãe foi mal utilizada e que o excesso do uso do plano americano deixou tudo meio blasé.
Anteontem, do trabalho me escreveu um e-mail de mais de mil palavras. Definiu aquele filme (no caso, seu dia no escritório) como ambicioso, mas inverossímil. Elogiou a direção de arte e a maneira que a iluminação foi pensada para representar sentimentos ambivalentes.
Por outro lado, criticou o roteiro preguiçoso, a mixagem de som e a fotografia. Sintetizou como “um verdadeiro desperdício do potencial criativo do maior cineasta brasileiro das últimas décadas”.
Preocupados, sugerimos uma consulta com o psiquiatra. O médico solicitou alguns exames, mas garantiu que não era nada grave. Jonas, no entanto, saiu maravilhado da consulta.
Disse que desde de Bergman não via algo tão grandioso. “O personagem do médico faz do trabalho um depósito para suas frustrações. É um workaholic para não se assumir infeliz. As frases que saem de sua boca foram cuidadosamente elaboradas por um roteirista que certamente veio da literatura. ‘É um filme lento’, dirão os fãs do cinema blockbuster, mas aqueles acostumados à sensibilidade de diretores como Almodóvar e Fellini serão profundamente tocados por essa narrativa envolvente”.
Enquanto aguardamos a data de realização dos exames, fizemos uma última tentativa: atividade física ao ar livre. Tinha tudo para dar certo. Mas não deu.
Enquanto caminhávamos no parque, Jonas enumerava personagens inexpressivos, criticava o excesso de paisagens e dizia ser inaceitável todas aquelas músicas diferentes ao mesmo tempo. “O momento era para uma trilha original, percebe?”. Não percebi.
Voltamos para casa. A sensação de impotência parecia ocupar todos os cômodos, menos o quarto de Jonas. De lá, ele olhava pela janela e fazia anotações.
Às vezes soltava frases em voz alta “essa cena foi uma cópia descarada da de Acossado”, “esse personagem anda igualzinho ao Carlitos”, “que piada mais previsível”, “o enquadramento ficou genial”, “espero que não façam uma sequência”.
Às onze foi para cama, certamente sonhar com Audrey Hepburn, James Dean e Alfred Hitchcock, sem se dar conta, coitado, que sua própria história daria um filme hilário.

Bruno da Silva Inácio é jornalista, mestre em Comunicação e pós-graduado em Literatura Contemporânea, Política e Sociedade e Cultura e Literatura. Atualmente cursa quatro especializações (Cinema, Teoria Psicanalítica, Antropologia e Gestão da Comunicação) e reside em Uberlândia, onde trabalha como assessor de imprensa da Prefeitura.
É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto” e “Devaneios e alucinações”, participante de outras quinze obras literárias e colaborador da Tribuna de Ituverava e dos sites Obvious, Provocações Filosóficas e Tenho Mais Discos que Amigos.
Também manteve, entre 2015 e 2019, a página “O mundo na minha xícara de café”, que chegou a contar com 250 mil seguidores no Facebook.