Afinal, para que serve a literatura?

“Para absolutamente nada”. Silêncio. Esperaram um complemento. Não veio. Expressões duras. Do entrevistador e do entrevistado. “Próxima pergunta, por favor”. Ele não acreditou.
Há tempos sonhava com aquele momento. Seu escritor vivo favorito bem ali. Na sua frente. As perguntas feitas até que chegassem sua vez na coletiva. Se apresentou. O que queria saber era um clichê. Mas clichês são necessários. Escritores entendem isso como ninguém. “Afinal, para que serve a literatura?”.
Mal segurou as palavras em sua boca. Saboreou cada sílaba. Acreditava que quando essa pergunta chegasse ao fim, ouviria as palavras mais inspiradoras de sua vida. Sua única dúvida era se a resposta seria um discurso eloquente, bem estruturado e repleto de figuras de linguagem pouco usuais (e, também por isso, comoventes) ou uma frase curta (talvez satírica) capaz de proporcionar uma quase-epifania em todos ali. Esperava até uma pergunta retórica-provocadora-egoiga. Só não esperava ouvir “para absolutamente nada”.
Pensou nisso no caminho de volta à redação. Se livros eram tudo o que ele tinha – e livros, como acabara de descobrir, não serviam para nada – o que ele tinha afinal? Repensou tudo à sua volta ao longo do dia. Escreveu o texto sem empolgação. No automático. Sentou na frente do computador e deixou que as palavras se escrevessem. A editora leu, releu e fez cara de desaprovação. Publicou mesmo assim. Para fazer daquele texto algo no mínimo interessante gastaria um tempo que não tinha. Ele deixou de fora a resposta do escritor sobre o papel da literatura.
Ao sair da revista, caminhou até o prédio. Seis quarteirões eternos em meio a tentativas falhas de exorcismo. Fantasmas por todos os lados. “Absolutamente nada”, ao contrário do que pensara, se tornou uma resposta precisa para muitas de suas indagações. Um novo mantra. No que acredita? O que tem a oferecer? O que espera do futuro? Ab-so-lu-ta-men-te-na-da.
Ruptura. Um niilista? Um pessimista? Um adjetivo? Encara a foto do escritor na orelha do livro amarelado. Desprezo. Palavras não salvam. Palavras não questionam. Palavras não formam. Palavras não afloram a sensibilidade. Uma quase-epifania. Uma pergunta retórica-provocadora-egoiga. Afinal, para que serve a literatura?

Bruno da Silva Inácio é jornalista, mestre em Comunicação e pós-graduado em Literatura Contemporânea, Política e Sociedade e Cultura e Literatura. Atualmente faz especializações em Cinema e em Filosofia e Direitos Humanos e reside em Uberlândia, onde trabalha como assessor de imprensa da Prefeitura.
É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto” e “Devaneios e alucinações”, participante de outras quinze obras literárias e colaborador da Tribuna de Ituverava e dos sites Obvious, Provocações Filosóficas e Tenho Mais Discos que Amigos. Também manteve, entre 2015 e 2019, a página “O mundo na minha xícara de café”, que chegou a contar com 250 mil seguidores no Facebook.