Nos primeiros dias de 2018 aparecia nos cadernos de economia da imprensa a seguinte manchete: “Apple pretende comprar a Netflix”. Aproveitando a política de cortes de impostos às grandes empresas feita pelo presidente Trump, os analistas previam até 40% de possibilidades de que o gigante de Cupertino adquirisse a plataforma de streaming, resolvendo assim o seu desejo de entrar no negócio da criação de conteúdo.
Em um debate promovido pelo festival South by Southwest realizado em março, entretanto, o representante da Apple, Eddie Cue, deu fim aos rumores. “Em geral, na história da Apple não foram feitas grandes aquisições”, acrescentando depois como pista sobre suas intenções uma clássica metáfora do hóquei sobre gelo: “patine para onde o disco irá, não para onde ele está agora”.
O disco da ficção televisiva e cinematográfica está atualmente nas mãos da Netflix. Por que então a Apple descartou sua compra? A política da empresa dirigida por Reed Hastings pode ser a culpada. “Existe uma diferença, nós não buscamos quantidade, buscamos qualidade. Não tentamos ser os que vendem mais smartphones e aplicativos no mundo, tentamos ser os melhores”, afirmou Cue.
A Netflix, com aproximadamente 80 filmes e 700 séries originais disponíveis para 2018, parece seguir um modelo de negócio muito diferente do exposto nessas declarações.
Agora, no entanto, a Apple demonstra outra atitude. De acordo com o Wall Street Journal, a empresa liderada por Tim Cook preparou um bilhão de dólares para começar a estrear suas próprias séries nos próximos quatro meses.
Ainda que fique longe dos sete bilhões de dólares (24 bilhões de reais) investidos pela Netflix e os quatro bilhões de dólares (14 bilhões de reais) da Amazon, sua estratégia baseada em uma menor produção e sua hegemonia nos dispositivos a colocará imediatamente como um rival a se considerar.
E para uma empresa que conta atualmente com mais de 260 bilhões de dólares (916 bilhões de reais) em reserva somente em dinheiro, o investimento será quase insignificante em seu livro de contas.
Estrelas
A equipe executiva foi montada como um All-Star da programação televisiva, dentre as quais se destacam duas contratações: Jamie Erlicht e Zack Van Amburg. Vindos da Sony Pictures Television, contam em seu currículo com a produção de séries tão elogiadas como Breaking Bad, The Crown e Justified.
Mas é o setor artístico que mais manchetes deu ao futuro projeto Apple Video. Tentando se apegar ao lema de “menos quantidade, mais qualidade”, a empresa de tecnologia decidiu apostar no certo. Jennifer Aniston voltará à telinha pela primeira vez desde o final da mítica série Friends em 2004, acompanhada por Reese Witherspoon (Big Little Lies), em Top of the Morning.
A Apple venceu a Netflix e a HBO em um concorrido leilão para ficar com a ficção que narrará o dia a dia das integrantes de um programa de televisão matutino. A confiança da multinacional é tamanha que, sem sequer ter começado a filmagem, já a renovou por duas temporadas de dez capítulos cada uma.
Witherspoon também produzirá mais outras duas ficções para a empresa da maçã: o thriller Are You Sleeping, com Octavia Spencer (A Dama na Água) como protagonista, e outro retorno televisivo esperado: o de Kristen Wiig (Missão Madrinha de Casamento) após sua saída do Saturday Night Live, para uma comédia ainda sem título.
As contratações de grandes nomes não acabam aí. Steven Spielberg produzirá o remake de sua própria série dos anos 80 Amazing Stories, com um orçamento de mais de 5 milhões de dólares (17 milhões de reais) por episódio.
Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações), anunciado por muitos como herdeiro do título de ‘rei Midas’ da indústria cinematográfica, também se encarregará de escrever e dirigir um drama que só se sabe que será ‘inovador’.
M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido) contribuirá com a cota de gênero sobrenatural; Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon, roteiristas de Doentes de Amor, escreverão uma comédia sobre a vida dos imigrantes chamada Little America; e até Kevin Durant, a estrela do Golden State Warriors, estreará no cargo de produtor com uma série baseada em seu início como jogador de basquete nas ruas de Washington.
Lançamento e formato
A única coisa que a Apple ainda mantém como incógnita é quando e como. Apesar de não existir nenhuma data confirmada, tudo leva a crer que será em março de 2019 quando as ficções começarem a chegar ao grande público.
Em relação ao formato, os especialistas preveem um serviço de streaming por assinatura, acessível mediante aplicativo e Apple TV que deverá ser o carro-chefe de todo o projeto.
As dúvidas que ainda estão sem resposta são várias: quanto custará o serviço? A Apple tentará prevalecer dificultando o acesso do consumidor à concorrência pelos seus dispositivos? Também produzirá, como a Netflix e a HBO, conteúdo fora dos Estados Unidos? Como seus rivais responderão? O que nos resta é esperar para saber essas e outras respostas.
