Bernardo, o meu pior melhor amigo

Bernardo foi o meu pior melhor amigo. Início do ensino fundamental. Primeiro dia de aula. Pálido, sentado na carteira ao lado, entre a timidez e o tanto faz. Foi mera questão de conveniência. Você quer ser meu amigo? Aceitou. Por ser o único, virou o melhor. Mas ainda que fosse o melhor, não era bom. Quando cortei o dedo, riu. Quando contei o segredo, espalhou. Escondia tudo de mim. Menos o que eu não estava pronto para ver. Nem que tivesse quinze anos a mais. Dizia coisas desconexas, mesmo para uma criança. Era rude. Esguio. Caótico. Bernardo.
Um dia um homem sério apareceu para buscá-lo na saída da escola. Era diferente de todos os outros pais. Consultava o relógio o tempo todo. Não abraçava, nem ria. Nem mesmo o riso fingido dos adultos que buscam os filhos na escola. Bernardo entrou no carro sem olhar para trás. No dia seguinte, soube que havia sido transferido. Palavra nova para mim. Sensação não tão nova assim. Sem Bernardo por perto, estava livre para procurar um novo melhor amigo. E esse, sem dúvidas, seria melhor.
Na semana passada, era Bernardo do outro lado da rua. Só poderia ser. Berrava sobre os desígnios de Deus. Parecia não acreditar em suas próprias palavras. Ainda assim, recebia olhares quase-devotos. Continuava rude, esguio e caótico. Mas era menos Bernardo. Assim como eu era menos Henrique.
Bernardo adulto parecia ainda mais alheio que o Bernardo criança. Certamente nunca mais havia sido melhor amigo de ninguém. Seus olhos jamais mentiam. E agora, gritavam isso. Os meus, do outro lado da rua, eram furtivos, discretos, contraditórios. Examinavam aquela cena e remexiam no passado num movimento só.
Agora que entendo o que Bernardo ocultava e o que exibia, não quero ter de encará-lo. Não estou pronto para ver. As cenas mal encaixadas na infância, impressas em papel cartão, ainda não cabem na vida adulta. Nem que eu tivesse quinze anos a mais. Nem que ele fosse o meu melhor amigo.
Bernardo convence sem se convencer. Os desígnios de Deus. Somente a palavra salva. Mesmo que ele nunca tenha sido salvo por ela. As imagens abruptas em papel cartão. Um falso orgulho ao exibi-las. Um pedido de socorro quase imperceptível. O homem sério na saída da escola. Olhares quase-devotos do outro lado da rua. Você quer ser meu amigo?

Bruno da Silva Inácio é jornalista, mestre em Comunicação e pós-graduado em Literatura Contemporânea, Política e Sociedade e Cultura e Literatura. Atualmente cursa quatro especializações (Cinema, Teoria Psicanalítica, Antropologia e Gestão da Comunicação) e reside em Uberlândia, onde trabalha como assessor de imprensa da Prefeitura.
É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto” e “Devaneios e alucinações”, participante de outras quinze obras literárias e colaborador da Tribuna de Ituverava e dos sites Obvious, Provocações Filosóficas e Tenho Mais Discos que Amigos. Também manteve, entre 2015 e 2019, a página “O mundo na minha xícara de café”, que chegou a contar com 250 mil seguidores no Facebook.