Conheça Jane Marcet, a pioneira a divulgar a ciência para as mulheres

Na Londres do século 19, o conhecimento científico era restrito às elites e classes mais ricas. A população geral, especialmente as mulheres, tinha pouco ou nenhum acesso a obras sobre temas considerados complexos. Em 1805, porém, um livro chamou a atenção ao tentar mudar esse cenário: Conversations on Chemistry, Intended More Especially for the Female Sex (“Conversas sobre Química, Destinado Mais Especificamente para o Sexo Feminino”, em tradução livre).
Sem autor determinado, a obra era um diálogo no qual a personagem principal, a Sra. B, explicava desde eletricidade até as funções do carbono a duas de suas estudantes, Caroline e Emily. Só na 12ª edição do livro (foram 16 no total), o nome do autor finalmente foi revelado: Jane Marcet.
Nascida Jane Haldimand em 1769, em Londres, Marcet era a primogênita de um banqueiro suíço e uma inglesa. Foi educada em casa por professores particulares, com aulas sobre filosofia natural e física. Aos 15 anos, após a morte da mãe, Marcet assumiu as responsabilidades da casa, cuidando de seus 11 irmãos.

Casamento
Aos 30 anos, Marcet se casou com Alexander John Gaspard Marcet, um dos clientes de seu pai. Ele trabalhou como físico no Royal College de Londres, onde participou de trabalhos relacionados à química e à medicina. Como membros da elite intelectual da época e interessados pela ciência, os dois costumavam frequentar espaços de produção científica, como a Sociedade Real de Medicina (Royal Society of Medicine, no nome em inglês).

Salonnière
Também por sua posição social, Marcet se tornou uma conhecida salonnière, prática comum da época em que mulheres de classes altas promoviam reuniões entre escritores, filósofos, artistas e cientistas.
Em seus eventos, Marcet recebeu personalidades como Jöns Jacob Berzelius (químico sueco considerado um dos fundadores da química moderna), os químicos britânicos William Hyde Wollaston e Humphry Davy, e o economista britânico Thomas Malthus, considerado o “pai da demografia” por sua teoria para o controle do aumento populacional.

Conversas sobre Química e sobre Política Econômica
Ao participar de tantas discussões sobre química, Marcet teve a ideia de escrever um livro para que mais mulheres também tivessem acesso aos debates, até então restritos a um ambiente masculino e privilegiado. Começou a escrever em 1803 e, após uma pausa por causa da gravidez, finalmente concluiu a obra em 1805.
Com linguagem acessível e pensada para o público jovem, e dividido em dois volumes, o livro foi ilustrado pela própria Marcet, com imagens de diagramas, instrumentos e ferramentas científicas. Em 1816, ela lançou uma edição da série dedicada à política econômica.

Sucesso de vendas
Embora fosse direcionado a mulheres, o livro fez sucesso entre o público em geral, e acabou difundido pela Europa e pelos Estados Unidos. Entre os jovens cientistas que o livro supostamente inspirou estava ninguém menos que o britânico Michael Faraday, que anos mais tarde se tornou um dos descobridores do eletromagnetismo.
Mas, para não gerar conflitos de interesse com as pesquisas feitas pelo marido, a autoria de Marcet permaneceu oculta até 1832, quando finalmente seu nome apareceu.

Morte do marido
Em 1822, ainda no auge do sucesso das publicações, Marcet perdeu o marido inesperadamente, que morreu durante uma viagem. Ela passou então a enfrentar ciclos de depressão, apesar dos quais conseguiu permanecer ativa nos círculos científicos e publicar novas edições de sua obra, além de outras menos conhecidas. Viveu em Londres até a sua morte, em 1858, aos 89 anos.