Conheça seis livros para entender a obra do escritor José Saramago

O escritor José Saramago

Se estivesse vivo, o escritor português José Saramago, morto em 8 de junho de 2010, teria completado 98 anos na última terça-feira, 16 de novembro. Nascido em 1922, na vila de Azinhaga, ele fez história: em 1998, tornou-se o primeiro autor de língua portuguesa a receber um Nobel de Literatura.
Conhecido por um estilo sui generis, que desafia os padrões da linguagem, Saramago tem uma vasta bibliografia de romances, crônicas, contos, peças teatrais e poemas.
Embora tenha nascido na região do Ribatejo, a cerca de 104 quilômetros ao norte de Lisboa, José de Sousa Saramago se mudou com a família para a capital portuguesa antes de completar 2 anos de idade.
Por causa da origem humilde, não avançou nos estudos formais. Em vez disso, formou-se em um curso técnico de serralheiro mecânico e conseguiu seu primeiro emprego. À noite, frequentava a biblioteca, onde nutria sua paixão pelos livros.

Romance de estreia
Seu romance de estreia, Terra do Pecado, foi publicado em 1947. Na época, Saramago já havia casado com sua primeira esposa, tido a primeira filha e trabalhava como funcionário público da área de saúde e previdência.
No início da década seguinte, submeteu aos editores um novo romance, Claraboia, que foi rejeitado. Trabalhou tradutor e passou a se dedicar à poesia, lançando três livros entre 1966 e 1970.
Filiou-se ao Partido Comunista e trabalhou com jornalismo no Diário de Notícias (DN) e no Diário de Lisboa. Em 1975, voltou ao DN como diretor-adjunto, mas acabou demitido 10 meses depois, após intervenção dos militares, que perseguiam militantes comunistas.

Renome
Saramago ganhou renome a partir da publicação do quarto romance, Memorial do Convento, de 1982, no qual mistura, pela primeira vez, fatos com ficção para falar sobre os contrastes entre a aristocracia de Dom João V e a vida operária – uma metáfora da luta de classes marxista.
Continuou nesse estilo nos quatro romances seguintes, culminando no polêmico O Evangelho de Jesus Cristo, de 1991, em que o messias cristão narra sua vida em primeira pessoa. No ano seguinte, o governo português chegou a barrar a candidatura da obra no Prêmio Literário Europeu.
A partir de Ensaio Sobre a Cegueira, de 1995, Saramago apresentou uma narrativa mais contemporânea, mas sempre mantendo a crítica aos costumes, ao capitalismo e à religião. Na época, já passava boa parte do tempo na Ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias. Recebeu o Prêmio Camões em 1995 e o Nobel de Literatura três anos depois.
Ao todo, escreveu 18 romances e mais duas dezenas de livros em outros gêneros, como contos, crônicas, poemas e peças teatrais.
Morreu aos 87 anos em casa, em Lanzarote, vítima de leucemia. Desde 2007, sua viúva, a escritora espanhola Pilar del Río, mantém a Fundação José Saramago.

Conheça seis livros essenciais para entender a obra de Saramago:

Memorial do Convento (1982)
Trata-se da primeira obra em que Saramago mistura história com ficção e realismo fantástico. O romance é ambientado durante o reinado de Dom João V, no século 18, que mandou construir o Convento de Mafra, obra audaciosa e megalomaníaca.
O livro narra a história de amor entre o operário Baltasar e Blimunda, além da construção de uma nave movida por vontades, a Passarola.

A Jangada de Pedra (1986)
É a história da separação geográfica da Península Ibérica do continente europeu, que passa a navegar à deriva no Oceano Atlântico. O romance pode ser visto como uma reflexão acerca da identidade ibérica frente à unificação da Europa.
É escrito no estilo peculiar de Saramago, com a omissão de pontuações e os diálogos incorporados à narrativa.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)
O livro mais polêmico do autor narra a vida de Jesus Cristo em primeira pessoa. Apresenta o messias cristão como uma figura mais humana do que divina, que questiona seu papel no mundo.
Na história, Jesus inclusive mantém um relacionamento amoroso com Maria Madalena. Trata-se de uma obra ao mesmo tempo crítica e criticada pela religião.

Ensaio Sobre a Cegueira (1995)
Ambientada na Era Contemporânea, conta a história do colapso de uma cidade depois que uma epidemia de cegueira atinge a população. Os atingidos pela doença são postos em quarentena em um hospício, dividindo o espaço com os internados. Somente uma mulher mantém sua visão.
A obra foi adaptada ao cinema em 2008 pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, estrelando Julianne Moore e Mark Ruffalo.

O Homem Duplicado (2002)
Neste suspense, um professor de história descobre que um dos atores em um filme indicado por um colega é seu sósia. O homem então fica obcecado e inicia uma jornada para descobrir a identidade de sua “duplicata”.
Também ganhou uma adaptação cinematográfica pelo diretor Denis Villeneuve, com Jake Gyllenhaal.

Caim (2009)
Em seu último romance publicado enquanto vivo, Saramago voltou à Bíblia para fazer novamente uma crítica à religião. Dessa vez, abordando o episódio do fratricídio de Caim contra Abel e colocando Deus como autor intelectual do crime.
Novamente, foi inundado de críticas, principalmente das instituições católicas.