“Coringa” faz jus a um dos maiores vilões da DC

Quem gosta do lado sombrio da DC – especialmente nos quadrinhos – se decepcionará com Coringa, filme do diretor Todd Phillips, lançado nessa quinta-feira, 3 de outubro. Ao invés de um experiente criminoso, a narrativa acompanha Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço com transtornos mentais e uma síndrome que faz com que ele tenha frequentes gargalhadas (a maioria delas em momentos bem inadequados).
Arthur mora com a mãe e não passa por um grande momento em sua vida. Acaba de perder o emprego, foi espancado por um grupo de garotos e teve que ser dispensado pela sua assistente social, já que a Prefeitura de Gotham, numa tentativa de reduzir custos, cortou diversos serviços oferecidos à população (obviamente, à população mais pobre). Sem a assistente social, Arthur deixa de ter acesso aos seus medicamentos, inclusive os antidepressivos (que, segundo o próprio personagem, já não pareciam fazer tanto efeito).
A vida de Arthur em ruínas reflete com precisão o momento atravessado pela cidade de Gotham. Em meio a doenças, violência, infestações, negligência e uma crescente desigualdade social, a cidade estava à beira do caos. Faltava apenas um estopim para as coisas explodirem. E foi justamente Arthur que o proporcionou.
Em uma noite, voltando para casa, Arthur é agredido por três jovens e acaba os matando com um revólver. Mais tarde, através do noticiário, descobre que eram acionistas da empresa Wayne. Nesse momento, parte da população enxerga o crime como uma resposta dos mais pobres aos abusos proporcionados pelos mais ricos na decadente Gotham. Assim, o palhaço rapidamente se torna um símbolo de justiça na cidade.
Conforme a história avança, Arthur vai enlouquecendo cada vez mais. Trilha sonora, danças irreverentes e jogos de sombra e luz marcam muito bem essa transição.

Enxergar com mais clareza

No entanto, ao mesmo tempo que parece estar perdendo o contato com a realidade, ele passa a enxergar com mais clareza algumas situações. Passa a compreender, por exemplo, que Murray Franklin (Robert De Niro), apresentador de TV que Arthur anteriormente via como ídolo e até mesmo figura paterna, na verdade era apenas alguém que explorava as histórias de seus convidados para humilhá-los em público.
O mesmo pode-se dizer de Thomas Wayne, que no filme não é retratado como um grande exemplo de empatia e integridade, ao contrário do que acontece na maior parte das histórias do universo da DC.
À medida que vai se transformando em Coringa, os crimes de Arthur vão ficando mais frequentes e cruéis. É aí que se engana quem acreditava que o filme tentaria colocar o personagem como uma vítima para que público passasse a apoiar cada um de seus crimes. O Coringa de Joaquin Phoenix é, sem dúvidas, um lunático.
Porém, o que acontece no filme de Todd Phillips é o mesmo que acontece em Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, com Heath Ledger no papel do palhaço: alguns dos discursos do Coringa não são tão malucos assim. Afinal, Gotham é uma cidade controlada por corruptos, que não enxergam pessoas como Arthur, a não ser que a loucura as transformem em coringas.

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura. Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais.
É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”.