Crediário no cartão será ruim para consumidor

Negociações entre os representantes dos emissores de cartões e o Banco Central estão sendo feitas 

Consumidor paga conta com cartão de crédito

A proposta que busca seduzir o lojista para que ofereça crediário ao consumidor em vez do parcelamento sem juros pode ter como elo fraco justamente o cliente, que terá de redobrar o cuidado antes de escolher a melhor forma de pagamento, avaliam especialistas.
As negociações entre os representantes dos emissores de cartões e o Banco Central estão centradas em uma linha de financiamento via cartão de crédito que teria a incidência de juros e prazo maior para pagamento, em uma forma de concorrer com a opção parcelada sem juros – que, na verdade, embute taxas, de forma velada.
A proposta apresenta pontos problemáticos para o consumidor, avalia Juliana Inhasz, professora de finanças do Insper. A taxa de juros, estimada em 3% ao mês – acima da cobrada no empréstimo consignado – é um deles.
“Estamos passando de um quadro em que o consumidor parcela com juro embutido, mas ainda baixo, para um caso em que vai pagar 42,6% ao ano. É bem mais alto”, diz.
“O juro também seria diferente para cada cliente, de acordo com a análise de risco feita pelo emissor. E aí os problemas se agravam, diz Inhasz. Ninguém faz o perfil de graça, há um custo, que deve ser repassado”, afirma.
Os produtos parcelados vão ter preço diferenciado de acordo com o perfil do cliente. O mesmo produto pode custar R$ 1.200 ou R$ 1.800. “O consumidor perde a referência de preço”, diz a professora.
Já para compras de menor valor, o crediário dificilmente seria atrativo, segundo Roque Pellizzaro Junior, presidente do SPC Brasil, administrado pela CNDL (Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas). Ninguém vai pagar R$ 140 por uma calça que, no parcelado sem juro, custa R$ 100.
O prazo maior para pagar gera preocupação. No parcelado sem juros, a praxe é dividir em dez vezes. O crediário poderia ampliar esse prazo para 24 meses, o que significaria parcelas mensais menores. Na hora de pagar a compra, o consumidor conseguiria simular as alternativas e escolher a mais vantajosa, segundo a proposta.
“O consumidor vai comparar as parcelas, e o risco é analisar apenas o que cabe no bolso. É o que as pessoas fazem normalmente. Só que, nesse cenário, piora para elas, porque estão pagando muito mais por um produto que pode custar bem menos”, afirma Joelson Sampaio, professor de economia da FGV.
A possibilidade de a parcela caber no orçamento também poderia estimular compras de itens sem necessidade, pois um pensamento comum é “em 10 vezes eu não consigo pagar o produto, mas em 24, consigo”.

CREDIÁRIO
Saiba o que está em discussão:

Parcelado sem juros
Como funciona
> Juros são ‘mascarados’ e ficam embutidos no valor do produto ou serviço
> A prática do mercado é um limite de dez parcelas
Exemplo: calça vendida por R$ 100, com juro embutido de 10%
> Preço real da calça: R$ 90
> Parcelado em dez vezes: 10 x R$ 10
> valor final da calça: R$ 100

Como funcionaria
> Juros compostos cobrados sobre o valor real do produto/serviço; taxa de juros estimada em cerca de 3% ao mês
> Prazo de parcelamento poderia ser ampliado para 24 meses
Exemplo: calça vendida a R$ 100
> Preço real da calça: R$ 100
> Juro mensal de 3%
> Parcelado em dez vezes: 10 x R$ 13,40
> Valor final da calça: R$ 134,39

Projeto propõe extinguir notas de R$ 100

Projeto propõe extinguir notas altas para combater lavagem

Considere a seguinte situação hipotética: você tem R$ 51 milhões para guardar em um apartamento e precisa distribuir esse valor entre malas e caixas. Agora imagine ter de fazer isso sem poder contar com notas de R$ 50 e R$ 100.
Em vez de nove malas, como aconteceu na vida real, seria necessário um número até quatro vezes maior se o conteúdo fosse preenchido com cédulas de R$ 20. E talvez um imóvel maior.
O exercício de abstração acima ilustra o argumento de quem defende que retirar de circulação as notas de maior valor da economia brasileira poderia ter como efeito colateral a redução de crimes como lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.
Há quem vá além. Projeto de lei do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) propõe extinguir a produção, circulação e uso de todo dinheiro em espécie, e determina que as transações financeiras se realizem apenas por meio do sistema digital. As cédulas seriam permitidas para “registro histórico”.
Segundo o texto, “terroristas, sonegadores, lavadores de dinheiro, cartéis de drogas, assaltantes, corruptos estariam na mira fácil do controle financeiro”.
“O dinheiro que vem de tráfico internacional de drogas e de corrupção é muito transacionado via notas grandes e malas de dinheiro. Quando você elimina as cédulas maiores, dificulta operações ilegais”, diz Maurício de Almeida Prado, diretor-executivo da consultoria Plano CDE.
“Não dá para fazer uma transação dessas com nota de R$ 10, e no meio digital é rastreado”, completa.
A empresa fez, em novembro, uma pesquisa on-line com 1.037 pessoas para medir, entre outras coisas, a percepção da população sobre o assunto. A correlação entre cédulas de valor elevado e crime não é tão clara, mostram os resultados.

Opinião
Só 18% avaliam que retirar a nota de R$ 100 de circulação “com certeza” seria uma forma de combater a criminalidade. A maioria, 35%, diz que não teria efeito “de jeito nenhum”. A maioria também é contra a retirada das cédulas. Para 31%, eliminar a cédula “atrapalharia a vida”.
Prado diz que é necessário um trabalho de comunicação melhor para que a relação seja estabelecida. “As pessoas não entendem o benefício. É preciso entender o porquê dessa resistência para não gerar ruído”, diz.
Alexandre Botelho, diretor da AML Consulting e especialista em lavagem de dinheiro, defende a eliminação dessas notas maiores como forma de combate ao crime organizado.
“Não é ilícito fazer transações de volume elevado com dinheiro em espécie, mas existe um forte indício de tentativa de ocultação”, diz.

Impacto baixo
A eliminação pura das notas mais altas teria pouco reflexo sobre a corrupção, avalia Antonio Gustavo Rodrigues, presidente do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão responsável pela prevenção e combate à lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo.
“Realmente é mais fácil carregar mais dinheiro em malas com notas maiores, mas a nossa nota de maior valor [R$ 100] tem baixo valor quando convertida para dólares [cerca de US$ 30]”, diz.
Além disso, o Brasil ainda tem uma parte de sua população não bancarizada e que seria prejudicada caso fossem eliminadas as cédulas maiores –muitos trabalhadores informais ainda recebem o pagamento em dinheiro vivo.

Estudo

Aqui, o Banco Central diz não haver estudo para retirada de notas altas de circulação. Mas já se movimenta para tentar coibir o uso de dinheiro em práticas ilícitas. Desde dezembro, quem precisar sacar valor igual ou superior a R$ 50 mil em dinheiro vivo tem que informar ao Banco Central com três dias úteis de antecedência.
O cliente tem que preencher formulário com o motivo da movimentação financeira e informar dados de quem está retirando o dinheiro e o beneficiário do saque. Antes, a exigência era de informar com um dia útil de antecedência operações com valor igual ou superior a R$ 100 mil.
“O objetivo é frear o dinamismo das transações e ter maior controle do fluxo de capitais em espécie. Não vai acabar com a lavagem de dinheiro, mas dificulta muito a vida desses caras”, afirma Botelho, da AML Consulting.