Desordem edipiana

O seu problema é que você sempre escreve a mesma história. Muda os personagens, o tempo verbal, o local da narrativa e o desfecho. Mas o que realmente importa permanece inalterado.
Ler um conto seu é prazeroso. Ler dois já causa um desconforto. Mas ler três é insuportável. Torna-se previsível, entende?
Renato não esperava uma sinceridade tão devastadora vinda de seu pai. O que imaginava que se sucederia era uma cena clichê repleta de elogios vazios e, provavelmente, inapropriados. Sentiu-se bem com aquilo. Em muitos anos, era a primeira vez que associava sinceridade ao seu pai.
Fixou os olhos nas palavras daquele amontoado de páginas recém-impressas. Percebeu as repetições, as obsessões e os lugares-comuns. Reconheceu que não havia exagero na dureza do pai.
Sorriu, abriu um novo arquivo no Word e se colocou a escrever. Digitava dentro de um compasso muito pessoal. O ritmo o ajudava na pontuação, nos neologismos e nas interrupções (quase que) inesperadas.
Parou quando a conclusão batia à porta. Ainda não queria gozar. Levantou, foi ao banheiro e se encarou no espelho. Os olhos esbugalhados, o cabelo em desordem, a boca seca. Olhou até se ver diante de um estranho. Voltou ao notebook. Agora sim poderia gozar.
Desfecho prático, mas ambíguo. Ainda assim, uma completa fuga de dicotomias. Mandou para impressão, pegou as folhas mornas e as colocou em baixo do colchão.
Um ritual que já durava quinze anos. De manhã, as retirou dali. Passou os olhos por alguns trechos. Estava orgulhoso. Sensação rara para o dia seguinte ao da escrita.
Queria que o pai também se sentisse assim. Aquela narrativa, no fim das contas, era sobre ele. Expressava distanciamento através dos espaços (quase) em branco oferecidos pelas reticências; agressividade por meio das interrupções e uma incompreensão mútua proporcionada pela linguagem experimental, ora precisa, ora confusa.
Agora se via diante do momento de pedir a opinião que tanto lhe importava. Foi ao quarto do pai. Colocou as páginas ao lado de sua fotografia emoldurada. Riscou um fósforo, incomodou-se com o cheiro da vela. Encarou o rosto em preto e branco. “Acho que agora tenho uma história diferente, pai”.

*O conto faz parte do livro “Desprazeres existenciais em colapso”, publicado em 2022 pela editora Patuá

Bruno da Silva Inácio é jornalista, mestre em Comunicação e pós-graduado em Literatura Contemporânea, Política e Sociedade e Cultura e Literatura. Atualmente cursa quatro especializações (Cinema, Teoria Psicanalítica, Antropologia e Gestão da Comunicação) e reside em Uberlândia, onde trabalha como assessor de imprensa da Prefeitura.
É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto” e “Devaneios e alucinações”, participante de outras quinze obras literárias e colaborador da Tribuna de Ituverava e dos sites Obvious, Provocações Filosóficas e Tenho Mais Discos que Amigos.
Também manteve, entre 2015 e 2019, a página “O mundo na minha xícara de café”, que chegou a contar com 250 mil seguidores no Facebook.