Dia Mundial do Alzheimer alerta sobre os primeiros sinais da doença

A doença de Alzheimer acomete sobretudo os idosos, é incurável e se agrava com o tempo

Segunda-feira, 21 de setembro, data reforça a importância do diagnóstico precoce e da atenção aos primeiros sinais da doença

Segunda-feira, 21 de setembro, foi lembrado o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença de Alzheimer. A data reforça a importância do diagnóstico precoce e da atenção aos primeiros sinais da doença, que evolui lentamente e é mais comum nas pessoas acima de 60 anos.
Até pouco tempo atrás, ouvia-se falar em “Mal de Alzheimer”, mas não se falava em todo mal que este rótulo implicaria aos envolvidos. De fato, o diagnóstico da Doença de Alzheimer pode trazer grande impacto ao paciente e aos familiares. Mas o entendimento de que a doença, apesar de não ter cura, dispõe atualmente de muitos tratamentos e que o cuidado e atenção devem ser progressivos, é fundamental para que o preconceito não traga à doença ainda mais dificuldades e limitações ao paciente.
No Brasil, devido ao aumento da expectativa de vida, o número de pessoas com a doença de Alzheimer vem crescendo de forma significativa. Para saber mais sobre o assunto, confira a entrevista com o médico neurologista Delson José da Silva, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e chefe da Unidade do Sistema Neuromuscular (Neurologia e Neurocirurgia) do Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Goiás (HC-UFG)

O que é a demência de Alzheimer?
O termo demência se refere a um processo que leva à alteração cognitiva e/ou comportamental, geralmente progressiva, sem cura e que causa restrições na vida diária das pessoas, de maneira gradual.
Existem vários tipos de demência e a demência do tipo Alzheimer (DA) é uma síndrome neurológica progressiva, que normalmente começa com alteração da memória (principalmente para aprendizado de novas informações) associada a, pelos menos, uma função cognitiva – como atenção, linguagem (diminuição do vocabulário, ou seja, não consegue encontrar palavras durante uma conversa, etc.), funções executivas (diminuição da capacidade de fazer planejamento e executar uma ação), que pode levar a um comprometimento das atividades sociais ou do trabalho.
A doença de Alzheimer (conhecida como mal de Alzheimer, termo em desuso) – nome dado em homenagem ao médico alemão Alois Alzheimer – foi descrita pela primeira vez, no início do século XX. Ela é a primeira causa de doença neurodegenerativa da terceira idade, seguida pela doença de Parkinson. A DA é considerada a forma mais comum de demência, correspondendo de 50% a 60% dos casos.
A ocorrência de história familiar aumenta a probabilidade de DA. Parentes de primeiro grau têm o dobro de risco de desenvolver a doença. A DA pode ser transmitida geneticamente e deve ser investigada quando vários casos ocorrem na mesma família ao longo das gerações.
Apesar do número crescente de casos de DA em todo mundo, é importante ressaltar que ainda existem alguns entraves no que se refere à dificuldade dos familiares em perceberem e aceitarem os sintomas da doença.

Quais os principais fatores de risco para a doença?
Envelhecimento (principal), história familiar de DA, trauma cranioencefálico (TCE), baixa escolaridade, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, obesidade, sedentarismo, tabagismo, alcoolismo, perda auditiva, isolamento social, uso crônico de medicamentos (benzodiazepínicos, protetores gástricos), síndrome da apneia do sono.
As mulheres – porque vivem mais e por questão hormonal (estrógenos) – correm mais riscos de desenvolver a doença.

De que modo é realizado o diagnóstico de Alzheimer?
O diagnóstico é baseado em uma conjunção dos achados clínicos e dos exames complementares, na tentativa de confirmar ou afastar a DA.
a)No quadro clínico que descrevemos acima: pela história detalhada que contenha informações sobre o início dos primeiros sintomas e como sucedeu a instalação dos sintomas (de forma rápida ou gradual; se a piora foi progressiva ou estacionária, e qual o impacto sobre as atividades diárias);
b)No exame clínico-neurológico, aplicação de testes de rastreio rápidos, teste do desenho do relógio e de fluência verbal;
c)Exames complementares devem ser realizados para ajudar no diagnóstico que diferencia a Doença de Alzheimer de outras demências e, em especial, das formas reversíveis (neurossífilis, hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, hidrocefalia de pressão normal, etc.).
Importante esclarecer que, na fase inicial da DA, as alterações ainda são pouco significativas, portanto, subdiagnosticadas, sendo que três em cada quatro pessoas com demência não receberam diagnóstico e tratamento adequados.

É possível determinados hábitos para prevenir os riscos do Alzheimer?

Não há nenhuma medicação específica que previna ou retarde a progressão da DA. No entanto, mudança nos hábitos de vida podem, de forma indireta, prevenir ou retardar o aparecimento a doença, tais como, exercícios físicos regulares, controle de peso e de doenças, como hipertensão arterial, diabetes, dieta equilibrada (dieta mediterrânea), atividade mental que melhore a reserva cognitiva (jogos, palavra cruzada, aprendizado de novas tarefas, atividades com música, leitura, artesanato, socialização, entre outras).

De que forma a doença de Alzheimer deve ser tratada?

O tratamento deve se iniciar tão logo que realizado o diagnóstico. Estudos demonstram que o tratamento precoce na fase inicial da doença apresenta melhor evolução e ganhos na qualidade de vida do paciente.
Na DA existem basicamente três modalidades de tratamento:

a)Tratamento medicamentoso específico da DA: Nas fases iniciais, usa-se medicamentos que venham a aumentar o neurotransmissor da memória, que são diminuídos com o Alzheimer. Nas fases moderadas e avançadas, usa-se medicamento para diminuir o glutamato, nocivo para os pacientes e que se encontra aumentado na DA.

b)Tratamento não medicamentoso: A reabilitação cognitiva, que é igualmente importante ao uso de medicamentos e os estudos revelam que pode contribuir positivamente para retardar a evolução da doença. Realização de fisioterapia, fonoaudiologia, nutricionista, terapia ocupacional, psicoterapia, musicoterapia, arteterapia, entre outros.

c)Tratamento das alterações de humor e de comportamento.

De que forma os laços familiares e sociais podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida de uma pessoa com a doença?

No idoso, o apoio familiar é fundamental. Nas demências, e em especial no Alzheimer, é imprescindível o envolvimento da família, principalmente nas fases iniciais, quando o paciente ainda consegue manter contato.
Além do mais, estabelecer diálogos, recordar histórias, músicas, fotografias da família, ajudam a estimular a memória, linguagem, promovem sentimento de pertencimento que contribuem para melhor bem-estar da pessoa com DA.

Como o maior distanciamento social provocado pelo novo coronavírus pode impactar na vida das pessoas com Alzheimer?
O convívio social sempre foi importante para pessoas com a doença de Alzheimer, porque, além de reforçar laços pessoais, ajuda a preservar e estimular funções cognitiva. Assim, o distanciamento e o isolamento comprometeram o convívio e o cuidado direta e indiretamente, impactando a qualidade de vida, tanto emocional, psicológica e fisicamente dos pacientes.

Quais os avanços mais relevantes no que se refere ao enfretamento ao Alzheimer?

Sendo a DA uma doença neurodegenerativa, progressiva, que até o momento não tem tratamento que possa curar ou impedir a sua progressão, os novos tratamentos em desenvolvimento são no sentido de encontrarmos medicamentos que possam modificar a evolução da doença, que visam impedir o depósito de beta-amiloide, proteína, que, em excesso, leva à morte dos neurônios, e consequente sintomas da DA.
Detectar marcadores da doença por meio de exames, antes do aparecimento dos sintomas de DA e, consequentemente, realizar o diagnóstico e tratamento precoces no sentido de tentar impedir a evolução da doença é outra frente de pesquisa.

Considerações finais
Ressaltamos ainda que quase todas as medicações são disponibilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Centro de Medicações de alto Custo da Secretaria Estadual de Saúde e as consultas podem ser reguladas por meio do sistema SUS.