Dores insuportáveis e prejuízo: a cara da dengue

“Agora a coisa foi mais branda, mas da outra vez eu achei que ia morrer, sério mesmo”. Essa fala é do Matheus Oliveira, vendedor de 41 anos que está enfrentando a dengue pela terceira vez. Veterano, ele conta com detalhes como o vírus o deixou prostrado na cama e sem trabalhar.

Quando realizamos esta entrevista, Matheus estava no quinto dia da dengue, período em que o mal estar começa a dar trégua, porém exige muita atenção em relação às plaquetas baixas e à hidratação. “Eu sentia choques que começavam na cabeça e percorriam o corpo todo. Dores horríveis, uma enxaqueca muito forte, não conseguia comer. E não pode tomar nenhum remédio quase, é água e mais água”.

Morador dos Campos Elíseos, o vendedor diz que pegou a doença em 2010 por conta de um vizinho que alimentava pombos e mantinha muitos potes com água no quintal. “Pela irresponsabilidade dos outros acontece uma coisa dessa. O bairro inteiro ficou doente na época por conta disso”.

Ainda em tratamento pela terceira vez, Matheus ficou em casa durante a semana inteira e encarou uma bateria de exames quase que diária. É importante acompanhar com hemogramas constantemente pra se ter certeza de que outros órgãos não estão adoecendo com o vírus. Foi uma semana afastado da loja em que trabalha, em um shopping da cidade.

“A maior parte do que eu ganho no mês vem da comissão das minhas vendas. Quando eu não trabalho, não ganho, e não importa o que eu tenha”, diz. O jeito vai ser correr atrás do prejuízo quando a saúde estiver recuperada.   

FILAS E DOR 

De acordo com o Boletim Epidemiológico da Secretaria Municipal da Saúde, até o dia 14 de fevereiro foram contabilizados 43 novos casos por dia, em média. Isso quer dizer que quase 2 mil pessoas foram diagnosticadas com dengue, enquanto mais de 6 mil casos estão sendo investigados. No início do mês, o menino Dênys Braian de Souza Rodrigues, de 10 anos, morreu na unidade de emergência do Hospital das Clínicas.

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, Ribeirão Preto é a cidade paulista com o maior número de casos. Já de acordo com o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, divulgado em setembro de 2019, foram registrados 1.439.471 de casos em apenas um ano. Um aumento de quase 600% em comparação a 2018.

A dengue, no entanto, divide-se em dois tipos: a clássica geralmente mais branda e a hemorrágica que pode trazer complicações e até óbito.

Depois de duas semanas doente, o estudante Felippe Castilho ainda inspira cuidados e sente fortes dores na barriga. A dengue hemorrágica deixou uma hepatite como lembrança e o fez passar passar o aniversário tomando soro no hospital.

Entre o dia 4 e o dia 12 de fevereiro, Felippe foi à Santa Casa todos os dias em uma rotina que se tornou desgastante. “Chegando lá, a médica logo me colocou no soro com medicação para vômito e febre. Após isso ela pediu hemograma para contagem das plaquetas que foi colhido meia-noite e ficou pronto apenas às 5h da manhã”.

Nos dias seguintes, voltou e esperou quase três horas pra ser atendido. Precisou de internação e voltou pra casa quatro dias depois. As plaquetas chegaram a 53.000, sendo que em média, o normal é de 150.000 a 350.000 por microlitro de sangue. Isso significa que o estudante poderia sofrer uma hemorragia interna a qualquer momento. “Agora continuo com o tratamento para a hepatite e repetindo os exames a cada 5 dias”, conta.

Já na rede pública, estão sendo realizados cerca de 300 exames de NS1 por dia e todos são centralizados no laboratório municipal localizado na UBDS do Castelo Branco. No entanto, a coleta é feita em todos os postos de saúde.

De acordo com a Dra. Luzia Márcia Romanholi Passos, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde e Planejamento, é importante realizar o exame até o terceiro dia do início dos sintomas para que haja diagnóstico precoce e eficácia no tratamento. 
 

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AFASTAMENTOS DO TRABALHO E PREJUÍZOS

Ainda segundo a diretora, já foram gastos em 2020 R$ 207.599,40 em exames específicos para diagnóstico de dengue, isso sem contabilizar o custo com os profissionais que realizam as análises.

“Os custos relacionados à assistência de pacientes com dengue são mais complexos e demanda maiores análises de custos com RH, insumos, equipamentos, medicamentos. Essa questão tem sido objeto de estudo de pesquisadores no sentido de estimar o quanto custa as epidemias de dengue”, enfatiza.

No caso de funcionários assalariados, o suporte à saúde do empregado se faz de diferentes maneiras entre as corporações, sendo a empresa responsável pelo pagamento dos dias de afastamento. O colaborador não pode ter o salário descontado por doença, por exemplo. “Em função de políticas de saúde adotadas por empresas específicas o suporte à saúde do trabalhador poderá ter maior ou menor participação da empresa”, explica Harley Gomes, Médico Especialista em Medicina do Trabalho da Sessaut.

Ainda de acordo com o médico, o atestado deverá ser aceito pela empresa que arcará com o afastamento até um total de 15 dias, sendo que a partir do 16º dia o afastamento será suportado por benefício junto ao INSS. 

PREVENIR AINDA É O ÚNICO REMÉDIO

Como muito tem esse explicado na mídia, o vírus da dengue é transmitido pela fêmea do mosquito Aedes Aegypt. A única maneira de conter o surto da doença é eliminando os criadouros em locais com água parada. Não há tratamento específico para a dengue e, na maioria dos casos os sintomas são controlados apenas com hidratação intensa e acompanhamento.

Observe pratinhos em vasos de plantas, xaxins, pneus, garrafas e entulhos no quintal da sua casa ou apartamento. Qualquer orifício ou reservatório por menor que seja pode ser um ambiente perfeito para a reprodução do mosquito.

De acordo com Luzia Márcia Romanholi Passos, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde e Planejamento, o trabalho de nebulização está sendo feito na cidade para acabar com o mosquito adulto, e não as larvas.

“Contamos com 200 Agentes de Combate as Endemias, em média trabalhamos diariamente com 50 ACEs nas atividades de Nebulização. O trabalho de Nebulização ocorre de forma secundária após as vistorias e eliminação de focos do mosquito transmissor e no momento está sendo realizada em diversos pontos da cidade, como exemplo o Parque Ribeirão Preto”, explica.

Use repelente e dê atenção especial a crianças e idosos. Converse com vizinhos, denuncie focos à Divisão de Vigilância Ambiental em Saúde (DVAS) pelo 0800 7750123.

COMO EVITAR A DENGUE

-Certificar que caixa d’água e outros reservatórios de água estejam devidamente tampados.
-Retirar folhas ou outro tipo de sujeira que pode gerar acúmulo de água nas calhas.
-Guardar pneus em locais cobertos.
-Guardar garrafas com a boca virada para baixo.
-Realizar limpeza periódica em ralos, canaletas e outros tipos escoamentos de água.
-Limpar e retirar acúmulo de água de bandejas de ar-condicionado e de geladeiras.
-Utilizar areia nos pratos de vasos de plantas ou realizar limpeza semanal.
-Retirar água e fazer limpeza periódica em plantas e árvores que podem acumular água, como bambu e bromélias.
-Guardar baldes com a boca virada para baixo.
-Esticar lonas usadas para cobrir objetos, como pneus e entulhos.
-Manter limpas as piscinas.
-Guardar ou jogar no lixo os objetos que pode acumular água: tampas de garrafa, folhas secas, brinquedos.
-Lavar as bordas dos recipientes que acumulam água com sabão e escova/bucha.
-Jogar as larvas na terra ou no chão seco.
-Para grandes depósitos de água e outros reservatórios de água para consumo humano é necessária a presença de agente de saúde para aplicação do larvicida.
-Em recipientes com larvas onde não é possível eliminar ou dar a destinação adequada, colocar produtos de limpeza (sabão em pó, detergente, desinfetante e cloro de piscina) e inspecionar semanalmente o recipiente, desde que a água não seja destinada a consumo humano ou animal. Importante solicitar a presença de agente de saúde para realizar o tratamento com larvicida.